História da Igreja - Encontro 06

Encontro 06 – Do ano 138 ao ano 192
Meio século depois, quando governava o imperador Antonino Pio, Policarpo, que recebera o grande Inácio e depois de sua morte reunira as suas cartas e meditara o seu exemplo, sofreu a mesma sorte. Sobre o seu processo e morte possuímos muitos dados, graças a uma carta que a comunidade de Esmirna enviou aos irmãos da Frígia a pedido destes, para lhes relatar os acontecimentos no momento exato em que se deram. Policarpo já era velho – quase nonagenário -, mas não há idade para se dar testemunho do Espírito e, aos mais fracos, Deus dá sempre forças para o seu combate. No ano 155, doze cristãos de Esmirna tinham sido presos e julgados. Todos eles, exceto um, deram provas de uma intrepidez admirável, que atingia as raias da temeridade: um deles, em pleno interrogatório, chegou a bater no procônsul, talvez por tê-lo achado demasiado indulgente e ter tido receio de que a sua mansidão provocasse apostasias. A multidão, enfurecida, reclamou sanções mais severas. Ouviu-se em altos berros o nome de Policarpo. Perseguido durante dois dias e finalmente delatado por um dos seus servos, que tinha submetido à tortura, acabou por ser preso. A sua calma e a sua dignidade impressionaram os guardas que tinham ido prendê-lo. Há muitas irregularidades no seu processo, conduzido apressadamente mas de forma dramática. Realizava-se na ocasião uma sessão de jogos a que assistia o procônsul Quadrato. Trazem o bispo montado num jumento e atiram-no à arena. A sua entrada desencadeia nova gritaria. E começa o interrogatório. Cuja trágica simplicidade. É maravilhosamente retratada pelo texto hagiográfico. De um lado, o magistrado romano, que tem visível consciência de não estar dentro da estrita legalidade; do outro, a multidão prestes a rugir e a amotinar-se; em frente, o santo que não se curva. - Jura pela sorte de César. Arrepende-te. Grita: “Morte aos ateus!” Voltado para a multidão, aquela que é verdadeiramente atéia, e fixando-a com o olhar, o ancião estende a mão e diz: “Morram os ateus!” Mas não o diz, evidentemente, com o sentido que o romano pretendia. O procônsul insiste: - Torna-te apóstata! Jura e eu te devolvo a liberdade! Insulta a Cristo! - Há oitenta e seis anos que o sirvo e nunca me fez mal algum. Por que então haveria de blasfemar contra o meu Rei e o meu Salvador? - Jura pela sorte de César! - És excessivamente confiante, se esperas convencer-me. Na verdade, eu te declaro: sou cristão. - Tenho as feras à minha disposição. - Dá as tuas ordens. Quanto a nós, quando mudamos, não é do melhor para o pior; belo é passar do mal para a justiça. - Se não te arrependes, e já que desprezas as feras, morrerás numa fogueira. - Tu me ameaças com um fogo que arde uma hora e depois se apaga. Mas conheces por acaso o fogo da justiça que há de vir? Sabes qual é o castigo que devorará os ímpios? Vamos, não te demores. Resolve como te aprouver. Logo que o romano mandou o arauto proclamar a sentença, a multidão não se conteve. Saltou as grades do anfiteatro e espalhou-se pela arena. Foi ela que empilhou
a lenha para a fogueira, e os judeus da cidade não foram os últimos a levar as suas braçadas. E as chamas elevaram-se altas e brilhantes, em forma de ab´boda ou como uma vela enfunada pelo vento, de sorte que o corpo do mártir foi como o ouro e a prata purificados no cadinho (A parte final do documento relata um prodígio do gênero daqueles que tanto se gostava de associar à descrição do martírio. Como o fogo se mostrasse impotente para destruir o corpo de Policarpo, ordenaram que um carrasco o retalhasse a golpes de espada, mas jorrou tanto sangue que o fogo se extinguiu. Foi necessário acendê-lo novamente, e do corpo do santo restaram apenas as ossadas). É na Gália que se desenrola outro episódio do grande drama das perseguições que vamos relatar. Para os cristãos da França, a cena reveste-se de particular importância, porque foi a primeira manifestação que trouxe a lume os princípios do Evangelho no seu país. Mas isto não quer dizer que a propaganda evangélica tivesse esperado pelo penúltimo quartel do século II para invadir a Gália. Sendo parte integrante do Império há duzentos anos, ligada a Roma por um comércio importante, aberta ao Mediterrâneo por grandes portos e atravessada por estradas admiráveis, não se comprende que a terra francesa pudesse ficar fora da semeadura cristã. As tradições que reivindicam, para esta ou aquela comunidade, uma origem gloriosa e cheia de prodígios (É impossível entrar aqui em pormenores sobre essas tradições, que têm o encanto do regional e do folclórico. A mais célebre é a que relaciona a fundação da Igreja de Marselha com a família de Betânia, Lázaro, Marta e Maria, trazidos miraculosamente até á costa provençal. Regra geral, a característica comum destas tradições é estabelecer um  laço de ligação com Cristo por intermédio de personagens que o conheceram: Santo Afrodísio de Béziers seria o hospedeiro que recebeu no Egito a Sagrada Família; Santo Amador de Autun, o servo da Virgem e do Menino; Santo Amador de Cahors seria o pseudônimo de Zaqueu, o bom publicano; São Restituto, de Saint-Paul-Trois-Châteux, o cego de nascença a quem Jesus seu a vista; São Rufo de Avinhão, o filho de Simão Cireneu; São Miguel de Limoges, a criança que Jesus abençoou. Associam-se ao período apostólico outros missionários e fundadores ilustres. São Trófimo de Arles e São Clemente de Viena são considerados discípulos de São Paulo; São Dinis de Paris, um dos convertidos do grande Apóstolo; Rennes reivindica São Lucas. E não há membro do grupo dos “setenta e dois” discípulos que não se cite aqui ou acolá na França.), bem como algumas descobertas arqueológicas recentes (Principalmente uma inscrição conservada em Marselha e que parece estabelecer como certos dois mártires contemporâneos dos de Lyon), permitem pensar que o cristianismo chegou à Gália muito cedo. Uma declaração de Santo Irineu, dizendo-se obrigado a estudar a rude língua celta pra se fazer compreender pelas suas ovelhas, implica que no seu tempo o cristianismo já penetrara naquelas regiões em que o latim não era ainda a língua comum. Nas colônias orientais que ali faziam negócios, depressa se deve ter tido notícia da Boa Nova. Por volta de 150, existiam com certeza numerosos grupos de fieis e estavam constituídas diversas Igrejas, das quais as mais ativas eram as de Lyon e Vienne. Foram estas as atingidas no ano 177. Governava então Marco Aurélio. A nobreza da sua alma, a elevação do seu caráter e a sua constante preocupação humanitária e moral faziam dele, já aos olhos dos seus
contemporâneos, um dos mais belos tipos que o mundo já conhecera. Mas este estoico, este amigo de Epicteto, foi um perseguidor, um carrasco dos cristãos? Custa admiti-lo, mas não compreenderemos bem a sua atitude se não tivermos em conta a jurisprudência estabelecida desde Trajano, que Marco Aurélio, governante escrupuloso, aplicou estritamente. Desconfiado do cristianismo, cético a respeito de tudo o que considerava fanatismo absurdo, este imperador exigia dos seus magistrados o respeito à lei; dentro dos seus limites, é certo, mas também dentro do rigor estabelecido. Não hesitará em chamar à ordem um funcionário excessivamente zeloso que violará a proibição de “dar caça aos cristãos”; mas sempre que surgir uma denúncia regular e uma queixa na forma devida, ordenará que o processo siga o seu curso legal, e o seu humanismo estoico não irá ao ponto de proibir as abominações do circo, que a época parecia exigir. Em 163, segundo ano do seu governo, o grande doutor da Igreja, Justino, foi acusado na forma da lei pelo seu inimigo, o filósofo Crescente, e condenado à morte e executado com alguns discípulos, também segundo a lei, por se ter recusado a sacrificar aos deuses. Em Lyon, no ano 177, o caso teve características diferentes. Por ocasião da festa que reunia anualmente, em volta do altar de “Roma e Augusto”, os delegados das três Gálias – Bélgica, Aquitânia e Céltica – e que coincidia com uma feira muito concorrida, a população, excitada pela expectativa dos jogos e pela tagarelice própria dos grandes ajuntamentos, deteve alguns cristãos, maltratou-os e denunciou-os. Fossem novatas ou pusilânimes, as autoridades civis e militares cederam à pressão e iniciaram o processo. Tomado de escrúpulos, o legado consultou o imperador, que o remeteu para a lei, isto é, para a jurisprudência de Trajano, e a seguir organizou-se o processo normal por delito de crença cristã. Tal como foi consignada por escrito, no dia seguinte ao do acontecimento, esta perseguição constitui uma das páginas mais horrorosas e, ao mesmo tempo, mais sublimes da história do cristianismo nascente. Presos bastante ao acaso, segundo parece (Não se confirma, por exemplo, que Santo Irineu, futuro sucessor de São Potino no bispado de Lyon, tenha sido perseguido.), alguns notáveis cristãos foram imediatamente acusados dos crimes imaginários que a voz popular lhes atribuía. Alguns dos seus servos, submetidos a tortura, deram às calúnias uma espécie de aval. Quiseram que uma jovem escrava batizada, Blandina, se prestasse também a essas infâmias, e como ela parecia fraca de corpo e de espírito, os seus senhores não estavam muito tranquilos. No entanto, cheia da força de Deus, respondeu: “Sou cristã, e entre nós não se pratica mal algum”. Os verdugos chegaram a revezar-se para arrancar-lhe qualquer confissão, mas foi tudo em vão. E os cristãos, admirados com tão grande força de alma numa menina e com tanta grandeza moral numa simples serva, reconheceram nela a porta-voz do próprio Mestre, “para quem é grande honra aquilo que os homens têm como desprezível e que leva mais em conta o poder do amor do que as vãs aparências”. “A serva Blandina – escreverá Renan – mostrou que se tinha consumado uma revolução. A verdadeira emancipação do escravo, a emancipação pelo heroísmo, foi em grande parte obra sua”. Iniciado o processo, a primeira vítima foi Potino, bispo de Lyon, que contava na ocasião noventa anos. Havia já muito tempo que viera da sua Ásia natal e que governava a comunidade lionesa. “De saúde muito débil, mal podia respirar, tão gasto
estava o seu corpo. Mas o ardor do Espírito deu-lhe forças, porque ansiava pelo martírio. Levado de rastos ao tribunal, com o corpo alquebrado mas com a alma intacta, prestou um testemunho de fé admirável. O governador perguntou-lhe qual era o Deus dos cristãos. “Sabê-lo ás quando fores digno disso”, respondeu. Foi então arrastado brutalmente e ainda mais maltratado. Encheram-no de pontapés e pancadas, sem qualquer respeito pela sua idade, e os que se encontravam mais afastados atiravam-lhe com tudo o que tinham à mão. Pensavam que assim vingariam os seus deuses. O mártir mal respirava quando por fim o meteram numa prisão, onde veio a falecer dois dias depois”. Modelos desta natureza tornaram-se exemplo. Houve entre os detidos como que um contágio de heroísmo. Alguns que tinham apostatado, sentindo não só vergonha de si próprios mas também o desprezo dos outros, retornaram à fé e abraçaram de novo o cristianismo. Rumo ao martírio, “os confessores caminhavam com o rosto resplandecente de glória e de beleza. As próprias correntes pareciam um nobre adorno, semelhante às franjas bordadas a ouro no vestido de uma noiva. Espalhavam à sua volta o bom odor de Cristo, de tal forma que muitos perguntavam se não vinham perfumados”. Os suplícios que lhe infligiram foram, diz o texto, “de uma variedade da maior beleza, e foi com flores de todas as espécies que lhe entreteceram uma coroa e a ofereceram ao Pai”. Houve no anfiteatro, sob os olhos ferozes da multidão, as flagelações até a morte, as crucificações e as degolações do costume; não somente as feras tiveram o seu papel, mas inventaram ainda suplícios mais refinados, como a cadeira de ferro que, posta ao rubro, grelhava tão bem a carne que flutuava pelo ar o odor de gordura. São conhecidos os nomes de algumas destas vítimas: Vétio Epagato (São Vito), de família patrícia; Santo, um diácono de Vienne; o neófito Maturo, Atala, um cidadão romano vindo de Pérgamo, e Pôntico, uma criança de 15 anos. No meio do anfiteatro tinham pendurado Blandina de um posto e “vendo-a assim, como crucificada e orando em voz alta, os combatentes de Cristo sentiam-se mais corajosos”. Esgotada a lista das vítimas – umas cinquenta, como se julga -, restou Blandina. As feras, já fartas sem dúvida, olhavam-na com desdém. Ela e seu companheiro Pôntico haviam sido conduzidos várias vezes ao anfiteatro e obrigados a assistir aos suplícios de seus irmãos, na esperança de que abjurassem. Tinham-se mantido firmes. Mas chegou-lhes a vez. Como uma nobre mãe que anima os seus filhos, Blandina encorajava Pôntico nas torturas. Nem o látego nem a grelha lhes foram poupados. Como Blandina continuasse a viver, “meteram-na dentro de uma rede e jogaram-na ao touro. Atirada ao ar diversas vezes pelo animal e quase inanimada”, ainda respirava. Por fim degolaram-na. “E os próprios pagãos reconheceram que nunca tinham visto mulher alguma sofrer tanto e tão bem”. Quando tudo terminou, expuseram e insultaram os corpos dos mártires durante seis dias; depois queimaram-nos, reduzindo-os a cinzas, e atiraram estas no Ródano, para que nada restasse. E como estavam bem a par dos dogmas cristãos e sabiam da esperança que os sustinha, ainda que não soubessem medir o seu alcance espiritual, os adversários diziam ao espalharem as cinzas: “Vejamos se agora o seu Deus os ressuscita”. Mal se tinham extinto as chamas das fogueiras gaulesas, a perseguição reacendeu-se
em Roma, nos últimos tempos de Marco Aurélio. Foi desencadeada, sem dúvida, por causas profundas, como o nervosismo e a irritação que se tinham apossado das autoridades e da opinião pública desse governo em face das guerras espinhosas na Bretanha, no Reno, no Danúbio e contra os partos na Armênia, bem como diante das terríveis epidemias e das brechas na fidelidade dos militares. Nessas circunstâncias, os processos contra os cristãos bem podem ter desempenhado mais uma vez o seu papel de útil diversão. É no decurso destes três anos – 178 a 180 – que podemos situar um dos mais célebres martírios: o de Santa Cecília. É certo que a data tem sido discutida, variando, ao sabor dos biógrafos, do tempo de Marco Aurélio ao de Juliano, o Apóstata, o que representa um lapso igual ao que separa a nossa época da de Luís XIV. Mas o martirólogo de Adon de Viena afirma formalmente que Cecília morreu “no tempo dos imperadores Marco Aurélio e Cômodo”, e este texto muito tardio, do século V, encontra-se autenticado nesse ponto pela alusão precisa que faz a uma decisão jurídica recente, promulgada em conjunto pelos imperatores: provavelmente um rescrito relativo aos martírios de Lyon, assinado ao mesmo tempo por Marco Aurélio e seu filho Cômodo, que havia dez anos fora associado ao Império. Mas a data não é a questão mais intricada no caso deste martírio. A Passio Sanctae Ceciliae, que nos fornece a trama, é um texto três séculos e meio posterior ao acontecimento, e n ele um autor cheio de boa vontade, de conhecimentos teológicos e de talento literário enfeitou, com uma piedade pouco discreta, um fato de uma trágica simplicidade. A crítica identificou muitas influências nesta obra, tais como as de Tertuliano e Santo Agostinho, e bem assim a de numerosas atas dos mártires canônicas ou apócrifas. Tal como a lemos, a história de Santa Cecília pode ser citada como o exemplo mais perfeito dessas Paixões que os cristãos da Idade Média amavam loucamente e cujo encanto poético não pode ser negado, mesmo que se duvide da sua veracidade. É sob os traços com que a retratou Rafael que evocamos hoje essa moça altiva; e de Pope a Dryden ou de Addison e Ghéon, muitos foram os escritores que a tomaram como heroína, sem deixar, no entanto, de acentuar ainda mais o traço que lhe vinca a fronte. Cecília pertencia a uma das mais nobres e mais antigas famílias de Roma, essa gens Caecilia que, durante os séculos da República, estivera ligada a tudo quanto respirasse glória. Neste meio da mais alta aristocracia, como é que ela foi tocada, “desde a infância”, pela graça cristã? É bem possível que o seu batismo tenha sido obra de alguma ama ou escrava fiel Cristo. Já no governo de Antonino Pio se relatava o martírio de duas patrícias, Santa Praxedes e Santa Prudenciana, cuja memória é perpetuada em Roma por duas basílicas. No lar de seus pais, algum daqueles belos edifícios construídos após o incêndio de Nero, Cecília foi crescendo no meio da sua fé. “Trazia – assegura o velho texto – um cilício por baixo dos vestidos bordados a ouro, e o Evangelho no coração”. Quando chegou à idade de contrair matrimônio, seus pais destinaram-na a um rapaz jovem e amável chamado Valeriano, descendente de uma “gens” também muito ilustre, a dos Valerii, em que eram inúmeros os feitos heroicos. Começam aqui a desfilar as maravilhas. No fundo da sua alma, Cecília tinha-se prometido a Deus somente. Mas por que não avisou o noivo, antes do casamento, do
voto secreto que fizera? Teve medo de ser traída, ou estava já a cumprir um desígnio da Providência? Na noite de núpcias, terminadas as festas de um casamento mundano, Cecília, após ter pedido ao Senhor que “conservasse a sua alma e o seu corpo sem mancha”, dirigiu ao esposo um pequeno discurso que começara assim: “Ó doce e amável jovem, eu tenho de confiar-te um mistério, sob a condição de que tu me jures solenemente  segredo ...”. Perante esse rosta amado, subitamente tão ansioso, que podia fazer Valério senão aceder? E ouviu da boca daquela que tanto amava que ela nunca lhe pertenceria. Ouve a jovem esposa falar de Jesus, da fé cristã, do anjo que vela pela sua pureza e do amor sobrenatural que a espera. Imediatamente – reação de ternura? Milagre? - corre ao longo da Via Ápia e vai a um lugar onde lhe disseram que encontraria um sábio ancião pronto a recebê-lo> Cai “como um corpo morto” ais pés de Urbano (Bispo de Roma?), que o acolhe com transportes de alegria, e, enquanto o santo varão pronuncia sobre ele as palavras sacramentais, Valério vê em êxtase um ancião nimbado de ouro que lhe apresenta um livro, na primeira página do qual lê estas palavras: “Um só Deus, uma só fé, um só batismo”. A oração de Cecília vencera. Mas não é ainda bastante este primeiro toque que a virgem cristã no címbalo do Paraíso. O irmão de Valério, Tibúrcio, vem visitar o jovem casal e fica admirado ao respirar o maravilhoso odor que os envolve, tanto quanto ao escutar os graves propósitos que lhe comunicam. Recebe da cunhada um pequeno curso de teologia que, se foi notável pelo saber e eloquência, não o foi menos pelo maravilhoso resultado que obteve – a conversão de Tibúrcio. “O anjo de Deus falou pela tua boca”, disse ele a Cecília. E foi lançar-se também aos pés de Urbano. É agora que começa o drama. Os dois irmãos neófitos alardeiam a sua fé. Constroem nos jardins de suas famílias necrópoles onde repousarão os corpos de numerosos mártires. Organizam cerimônias nas suas casas. Dentro em breve serão denunciados, presos e levados ao prefeito da cidade que, evidentemente, procura livrar do castigo aqueles jovens de alta linhagem. Mas os dois irmãos queriam morrer; esperam apenas o golpe da espada e, para o receberem, desprezarão todos os magistrados do mundo e todos os deuses de Roma. E a sua atitude é tão heroica e a sua fé tão exuberante que o rude soldado incumbido de os levar ao suplício, chamado Máximo, segue-lhes o exemplo e converte-se. Caem os três juntos, os dois patrícios a golpes de cutelo e Máximo a golpes de chicote revestido de chumbo. Cecília fica só, viúva e virgem, mas mais exaltada ainda na sua fé. Manda recolher os três corpos e deposita-os numa necrópole cristã. Não desfalece. Quando chega a sua vez de ser julgada, proclama bem alto a sua fé e assume as responsabilidades. O texto a que nos reportamos põe na sua boca palavras dignas de Polieuto: “Não renegaremos nunca o santíssimo nome que conhecemos. Non possumus! É-nos impossível. Preferimos morrer na liberdade suprema a viver na desgraça e no desamparo. E o que vos tortura, a vós que em vão vos esforçais por obrigar-nos a mentir, é precisamente esta verdade que proclamamos...” A moça indomável domina o funcionário e zomba do pagão em termos que Corneille há de recordar: “Adorais deuses de pedra ou de madeira?” Era demasiado. Que pereça! Primeiro tentam matá-la por meio do suplício que era costume aplicar às grandes damas condenadas: a asfixia na própria sala de banhos, depois de
sobreaquecida. Mas quando os carrascos reabrem o caldarium que durante vinte e quatro horas haviam convertido numa estufa sufocante, encontram a mártir num ambiente de agradável frescor, orando e louvando a Deus. O cutelo quebrar-lhe-á resistência? O executor, perturbado ou pouco destro, erra os três golpes que a lei autorizava, e Cecília jaz prostrada, com o pescoço meio decepado, mas – que milagre! - ainda com forças para reconfortar os seus … De toda esta história maravilhosa e um pouco mirabolante, a crítica retém o fato da existência de Cecília e o seu martírio. A descoberta, em 1599, debaixo de uma placa assinalada com o seu nome, de um corpo de mulher decapitada; a descoberta em 1905, debaixo da Igreja de Santa Cecília no Trastevere, de um caldarium e de alguns mármores antigos, um dos quais tem o nome da santa, parecem confirmar o essencial do maravilhoso relato, pelo menos quanto ao seu fim. O que aparece como válido nesta edificante narrativa é a afirmação dos méritos espirituais da virgindade, da nobreza da mulher que rejeita a felicidade de ser mãe para encontrar, sobrenaturalmente, o direito de dar almas ao seu Deus. É esta mensagem – revolucionária em face da antiga concepção romana da mulher como mero instrumento social de fecundidade patriótica – que se torna necessário ouvir quando, na catacumba que tem o seu nome, nessa terra que herdara de seus avós (A cripta de Santa Cecília está situada perto da Via Ápia, na região das catacumbas de São Calixto.), no fim do outono, Cecília é festejada pela Igreja e sob as abóbadas e mosaicos ressoa o hino Jesus corona virginum, o hino das virgens e das mártires (Tertuliano e Eusébio referem um episódio contemporâneo – o da Legio Fulminata, em 174. A décima segunda legião romana, isolada no coração do deserto de Melitene, na Líbia, e ameaçada de morrer de sede, foi salva por uma tempestade inesperada. O fato é historicamente certo. A tradição cristã assevera que esse milagre foi devido às orações dos soldados cristãos, numerosos neste corpo recrutado sobretudo na Síria, levando Marco Aurélio a publicar um rescrito de clemência com os cristãos. Os pagãos, porém atribuíram o milagre a Júpiter, e não há indícios de que o imperador tenha experimentado nenhuma reviravolta nos últimos tempos do seu reinado.). No entanto, às amplificações literárias da Passio de Cecília, temos o direito de preferir um documento que não é de época posterior, mas, pelo contrário, foi redigido no momento em que os fatos se produziram, e que, pelo seu caráter quase estenográfico, lembra um relatório oficial, vazado  num estilo despojado que o torna mais surpreendente. Trata-se do Processo dos Mártires de Scili, tal como se desenrolou em Cartago, no começo do governo de Cômodo, provavelmente no ano 180. Tem-se perguntado se o documento não é simplesmente a transposição do relatório do procônsul sobre o episódio. Seja como for, é um dos textos mais irrecusáveis de todos os martirólogos: transpira verdade. Cartago, importante centro comercial, deve ter recebido muito cedo os mensageiros da Boa Nova. Por volta de 130, o Evangelho já devia permear toda a África do Norte, visto que o drama se desenrolou em Scili, minúsculo burgo da Numídia. Lá foram presos, a fim de serem enviados a Cartago para julgamento, doze fieis, entre os quais cinco mulheres. Devia tratar-se de pessoas humildes; nada sabemos de nenhuma delas. É necessário citar sem nenhum comentário as duas páginas deste diário, para podermos compreender quanto heroísmo e quanta santidade a fé transmitida então às
almas. “Em Cartago, no segundo consulado de Presens e primeiro de Claudiano, em 16 das calendas de agosto, compareceram à sala de audiências Esperato, Natzalo, Citino, donata, Secunda e Véstia. O procônsul Saturnino deu início ao interrogatório: Saturnino: - Podeis obter o perdão do imperador, nosso senhor, se retornardes aos melhores sentimentos. Esperato: - Nunca fizemos mal algum nem cometemos qualquer injustiça; não desejamos mal a ninguém e, mesmo quando nos maltratavam, respondemos somente com bênçãos. Somos, pois, súditos fieis do nosso imperador. Saturnino: - Está bem. Mas nós temos uma religião que deveis observar. Juramos ela divindade imperial e oramos pela saúde do imperador. Como vedes, é uma religião muito simples. Esperato: - Escuta-me, por favor, e eu te revelarei um mistério de simplicidade. Saturnino: - E tu nos explicarás uma religião que insulta a nossa; não te quero ouvir. Jura antes pela divindade do imperador. Esperato: - Eu não conheço o imperador divinizado deste mundo e prefiro servir a Deus, que ninguém viu nem pode ver com os olhos da carne. E se não sou ladrão, se pago o preço daquilo que compro, é porque conheço o meu Senhor, o Rei dos Reis, o Imperador de todos os povos. Saturnino (para os outros): - Não partilheis da sua loucura. Citino: - A ninguém tememos, a não ser ao Senhor, nosso Deus, que está no céu. Donata: - Respeitamos César como ele merece, e não tememos senão a Deus. Véstia: - Eu sou cristã. Secunda: - Eu também sou cristã. E quero continuar a sê-lo. Saturnino (a Esperato): - Persistes em dizer-te cristão? Esperato: - Eu sou cristão. E todos fizeram a mesma declaração. Saturnino: - Quereis tempo para refletir? Esperato: - Não se discute uma decisão tão sábia. Saturnino: - Que há dentro desta caixa? Esperato: - Os livros santos e as cartas de Paulo, um justo. Saturnino: - Concedo-vos um prazo de trinta dias. Refleti. Esperato (repete): - Eu sou cristão. E todos disseram o mesmo. Então o procônsul leu a sentença escrita na tábua encerada: Esperato, Natzalo, Citino, Donata, Véstia, Secunda e todos os outros confessarem que vivem segundo as práticas cristãs. Foi-lhes dada oportunidade para regressarem à religião romana. Recusaram com obstinação. Condenamo-los, pois, a perecer sob a espada. Natzalo: - Hoje, mártires, estaremos no céu. Graças a Deus. O procônsul Saturnino mandou então anunciar pelo arauto: “Mando que conduzam ao suplício Esperato, Natzalo, Citino, Vetúrio, Aquilino, Lactâncio, Januária, Generosa, Véstia, Donata e Secunda”. Todos: - Graças a Deus. E foi assim que todos receberam juntos a coroa do martírio. E eles estão no Reino
com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém” Ao longo desta narrativa das Acta Martyrum, a impressão que se nos impõe ao espírito é a de uma coragem tão sublime que, mesmo considerada apenas no plano humano, coloca estes milhares de sacrificados voluntários na primeira fila dos heróis. Desde o mais célebre até o mais obscuro, todos deram provas, perante a morte, de uma firmeza de ânimo e de uma serenidade que, independentemente da adesão á sua fé, suscitaram muitas vezes a maior admiração. Há aqui um conjunto único de testemunhos prestados pelo homem ao homem sobre aquilo que há nele de melhor e de mais puro. Mas, tanto como este heroísmo, é necessário reter o significado que lhe dão. Há muitos modos de ser valente e muitas razões para desafiar a morte; há heróis cujo sacrifício não é senão inconsciência, como acontece com aqueles que, conforme certa moral nietzschiana, procuram por essa via a realização do homem, a sua “superação”. Ao sacrificar-se, os cristãos das perseguições têm em vista um fim muito definitivo. Votam toda a sua existência a uma realidade que lhe dará o significado último. São, literalmente, testemunhas. E é por isso que, na antiga jurisprudência, em que sempre se tomava pela tortura o depoimento dos mais humildes, dos desprezados, dos escravos, a palavra mártir significa, ao meso tempo, aquele que dá testemunho e aquele que se submete à tortura para falar. No entanto, os cristãos não procuram prestar esse testemunho voluntariamente ou, melhor, não provocam a ocasião. Marco Aurélio engana-se quando vê na atitude dos cristãos uma presumida fanfarronada; pelo contrário, muitos textos da Igreja primitiva insistem sobre a inutilidade e até sobre o perigo das atitudes ostensivas. Na paixão de São Policarpo relata-se que apenas um dos cristãos presos se acovardou perante as feras: era exatamente aquele que, por iniciativa própria, se havia apresentado aos juízes e arrastado alguns outros a imitá-lo. “É por isso – diz o texto – que nós censuramos aqueles que se entregam espontaneamente aos tribunais; não é esse o espírito do Evangelho”. Os mártires dão testemunho de Cristo de duas formas: pela palavra e pelo sangue. Podemos citar um grande número de cristãos que aproveitaram a prisão e o processo para gritar bem alto a sua fé e espalhar a verdade. Assim o fizera outrora o primeiro dos mártires, Santo Estêvão, que teve numerosos imitadores. E muitas vezes isso se reduzia a uma simples afirmação, como aquela que soou nos lábios dos mártires africanos: “Eu sou cristão”; ou ainda, no interrogatório prévio para identificação: “Como te chamas?” “Cristão, isso basta”. Outras vezes, é um ato de fé mais explícito, como o de São Justino em Roma, no ano 163: “Nós adoramos o Deus dos cristãos; cremos que Ele é o Deus único, o Criador desde a origem e o ordenador de toda a criatura visível e invisível. E cremos no Senhor Jesus Cristo, filho de Deus, anunciado pelos profetas, enviado para salvar os homens, Messias redentor, mestre de sublimes lições”. Quais foram os resultados deste testemunho pela palavra e do testemunho – mais impressionante ainda – pelo sangue derramado? Foram imenso. Há um contágio do heroísmo, que sensibiliza facilmente a alma humana, por pouca nobreza que esta traga em si. Mas o martírio não atuava de forma menos eficaz sobre os espectadores pagãos. É
verdade que a maior parte dos que assistem no anfiteatro aos extraordinários espetáculos destes sacrificados não encontram ali senão um modo de satisfazerem as suas paixões inconfessáveis. Mas notam-se também outros sentimentos. No decorrer da paixão de São Policarpo, a atitude de um dos seus companheiros, Germânico, diante das feras, é tão corajosa que a multidão se deixa invadir por uma admiração esportiva e o aclama. Outras vezes, o horror dos sofrimentos é tal que os nervos da assistência se destemperam e ela acaba por sentir-se tomada de compaixão. Assim aconteceu no tempo de Nero e assim acontecerá em Esmirna. É verdadeiramente no sentido mais concreto que temos de entender as palavras de Tertuliano, quando diz que o sangue dos mártires foi a semente do cristianismo. É a lição da história em conformidade com o Evangelhos: é preciso perder a vida para salvá-la. Nesta breve frase, recolhida dos lábios de Cristo, reside a explicação do heroísmo de que os mártires deram provas: a sua experiência e o seu sacrifício não encontram o seu verdadeiro sentido se não forem interpretados em função de uma intenção sobrenatural. É verdade que toda a causa humana pode encontrar os seus fanáticos, que se dispõem a morrer para que essa causa triunfe; mas os mártires não pensam propriamente no triunfo da sua causa, no sentido em que hoje se fala de “causa” a respeito de um partido político ou de uma doutrina filosófica: aquilo para que eles tendem ultrapassou o âmbito das lutas da terra. Testemunhas de Cristo, esses homens são combatentes do reino de Deus. Assim, o martírio não é apenas um fato político, a consequência lógica de um conflito entre uma doutrina revolucionária e a ordem estabelecida. É um elemento fundamental da Igreja primitiva, um ato sacramental, que se realiza nas almas privilegiadas como um carisma, como “a graça das graças”, e cujos efeitos sobrenaturais se projetam sobre toda a comunidade dos filhos de Deus. Fé absoluta em Jesus, esperança total na Promessa, caridade levada até o extremo da oblação de si mesmo: as três virtudes teologais efetivam-se no martírio com uma plenitude inigualável. No sacrifício do sangue, encontra a sua expressão mais perfeita a experiência cristã toda inteira, moral, ascética e mística. A epopeia dos mártires não é, pois, um episódio concluído no tempo e definido na história. Situada no próprio coração do cristianismo., é um fato de uma importância única, que se prende aos dados mais essenciais dos dogmas. Nem a alegria cristã perante a morte, em a certeza da redenção pelo sangue se compreendem inteiramente sem o exemplo destes primeiros cristãos, destes homens como nós, que cantavam durante o suplício e preferiam a fé à vida. Há um lugar do mundo em que esta lição do martírio é como uma presença viva: é o Coliseu, o anfiteatro dos Flávios, construído por Vespasiano, cuja imensa oval, bem como as três séries de arcadas e a prodigiosa massa de pedra amarelecida pelo tempo, continuam a viver no próprio coração da Roma moderna, como um laço imutável que liga o presente ao passado. No meio da arena, no preciso lugar em que gerações de cristãos derramaram o seu sangue para que a Palavra de Cristo não fosse vã, ergue-se uma cruz muito simples, protesto mudo contra a barbárie e símbolo de um triunfo eterno. É ali que os peregrinos que vão a Roma encontram, com a emoção mais direta, o exemplo dos seus longínquos irmãos mais velhos. Flutuam ali sombras
invisíveis e consoladoras. Parece que, no meio do silêncio, retine a prece anelante dos mártires anônimos: “Cristo, libertai-me! Eu sofro por vosso nome!”
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