História da Igreja - Encontro 04 (Terceira parte)

Encontro 04 – Do ano 68 ao ano 96 (Terceira parte). Mártires dos primeiros tempos.
Na noite de 18 ou 19 de julho do ano 64, as trombetas dos vigias retiniram em Roma alertando para o fogo. Era um acidente extremamente banal nessa cidade superpovoada, em que as inúmeras moradias pobres, amontoadas e construídas em madeira, ofereciam uma presa fácil às chamas. Mas desta vez o incêndio tomou proporções que não eram habituais. Rapidamente, sob o céu rubro para onde o vento forte varria a fumarada, o crepitar das chamas cresceu num ronco cavo e ofegante. Era como se o fogo se tivesse estendido por toda parte ao mesmo tempo. Rebentara no bairro popular do Grande Circo, entre mercearias e lojas de panos; e depois, alimentado pelos depósitos de óleos e de outros materiais combustíveis, depressa se alastrou por toda a região que rodeia o Paladino e o Célio. Ao amanhecer, o incêndio era já uma tremenda catástrofe. Deslizando ao longo das ruas estreitas, subindo pelos bairros mais pobres e brotando subitamente sob a forma de enormes braseiros, as chamas pareciam não encontrar nada que pudesse opor-lhes resistência. Os habitantes, expulsos das suas moradias, correndo em bandos ululantes que se chocavam uns contra os outros e redemoinhavam como insetos, procuravam em vão um lugar onde pudessem refugiar-se. Os mortos já não se podiam contar. O drama durou cerca de cento e cinquenta horas. Durante seis dias e seis noites, as chamas percorreram Roma a seu bel-prazer, e quando se conseguiu detê-las junto do Esquilino, arrasando um bom número de edifícios para cortar-lhes todo o alimento, o espetáculo do que sobrava assemelhava-se a um quadro apocalíptico. Dos catorze bairros em que se dividia a cidade, quatro haviam sido completamente devorados pelas chamas; de outros sete, não restavam senão paredes e alguns grupos de casas enegrecidas e inabitáveis; apenas três regiões podiam ser consideradas relativamente indenes. Flutuava por toda a parte o cheiro dos detritos queimados, acompanhado de um calor nauseabundo. Além das casas perdidas, das imensas riquezas destruídas, de tantas obras de arte helênicas e espólios do Oriente sepultados debaixo daquelas ruínas fumegantes, o que os velhos romanos mais deploravam era a perda de todas as recordações notáveis que tinham constituído a herança recebida dos venerados tempos da Loba: o templo da Lua, construído – dizia-se – por Sérvio Túlio; o grande altar e o santuário de Hércules, consagrado pelo arcadiano Evandro. O templo de Júpiter Estator, edificado pelo próprio Rômulo, e a capela de Vesta, onde se guardavam os Penates municipais. A catástrofe era irreparável; parecia que o destino cego quisera não só aniquilar a cidade, mas desenraizá-la de todo o seu passado. Qual teria sido a causa do flagelo? A todas as luzes, parecia tratar-se de um mero acidente. Os oito pontos de incêndio simultâneos, que alguns pretendiam ter observado, bem podiam ser – tal a velocidade com que o incêndio se espalhara – simples consequência de um único foco propagado pelo vento. No entanto, entre as hipóteses aceitáveis, não se podia excluir a de que se tivesse tratado de uma operação imperial, oficiosa e um tanto violenta, para limpar a cidade dos seus tugúrios, de modo a permitir uma reconstrução, segundo um plano majestoso ao estilo de Alexandria. Seja como for, o povo, que diante das catástrofes sempre reluta em acusar uma fatalidade abstrata, recusou-se a admitir que uma chama tivesse causado
sozinha semelhante desastre. E bem depressa um nome correu de boca em boca. A atmosfera em Roma estava pesada. O governo de Nero já tinha iniciado aquele período em que, abandonando o caminho relativamente prudente que lhe fora traçado por Sêneca e Burro, seus primeiros conselheiros, o monstro coroado se precipitara no abismo por entre desvarios e ondas de sangue. Havia cinco anos que Agripina fora morta por ordem do filho, a quem entregara o trono mediante um crime. Tigelino começara já a ser todo-poderoso, e muitos altos aristocratas e libertos do imperador tinham sucumbido à sua vigilância. Popéia, arrancada ao seu marido, acabava de substituir Otávia no leito de Nero, e o imperador se desfizera de sua mulher legítima, caluniando-a de forma abjeta antes de mandar matá-la. Tamanha perversidade indignou a opinião pública, e houve manifestações hostis a Popéia e ao imperador por ocasião do assassínio da ex-imperatriz, filha de Cláudio e descendente de Augusto. O espetáculo daquela cabeça jovem decepada e levada à favorita causara o maior horror, e começaram a correr os rumores de que um misterioso flagelo cairia sobre Roma, como castigo pelos crimes de Nero. As línguas supersticiosas apregoavam inúmeros prodígios do mais terrível augúrio: a queda de um raio simultaneamente nos catorze bairros da cidade, mortes surpreendentes, nascimento de uma serpente do ventre de uma mulher, o aparecimento de um cometa cor de sangue. Moralmente responsável por essas manifestações da cólera divina, por que não o seria o imperador também pessoalmente? Era o que se dizia. Cresceu o boato de que alguém tinha visto os criados do imperador percorrerem com archotes na mão os bairros humildes da cidade. A sua fama de perverso e criminoso justificava o rumor, e as palavras imprudentes que proferia ainda contribuíam para alimentá-lo: “Ninguém conhece tudo aquilo de que é capaz um príncipe”, dissera ele certa vez. Noutra ocasião, ao ouvir um ator citando o verso grego de Eurípedes: “Depois que eu morrer, que a terra se torne presa do fogo”, acrescentara na mesma língua: “Estando eu vivo!” Outro boato, que Suetônio recolheu, fez subir ao rubro a indignação popular. Dizia-se que, durante o incêndio, Nero se instalara no cimo da torre de Mecenas, em vestes de teatro e de lira na mão, e cantara um poema que compusera sobre a tomada de Tróia e o fogo ateado pelos guerreiros de Agamenon. (O fato é materialmente impossível. Nero não se encontrava em Roma por ocasião do incêndio, mas em Anzio, à beira mar, a cinquenta quilômetros da Urbe. O que não quer dizer que o histrião não tivesse aproveitado a ocasião pra regalar a sua corte com o seu poema, que combinava bem com as circunstâncias. É, em todo o caso, a versão de Tácito). A acusação ganhou corpo. Nero tratou de mostrar-se generoso e caritativo: abriu o Campo de Marte, os monumentos de Agripa e os seus próprios jardins para receber os sinistrados privados de teto; baixou o preço do trigo para uma tabela mínima e o distribuiu fartamente. Ao mesmo tempo, começou a reconstrução da cidade segundo um plano excelente; concedeu indenizações aos proprietários e mobilizou a marinha e o exército para a remoção dos escombros. Na opinião pública, radicara-se cada vez mais a ideia de que fora ele o incendiário, o que lhe causou medo. Ora, este homem sempre tinha sido joguete do medo, mais ainda do que a sua crueldade inata ou da sua semidemência. Por isso tremera diante de Britânico, a quem fez desaparecer, e também por isso se desfizera da sua mãe, que lhe despertava desconfianças. A cólera
do povo após o incêndio revolvia-lhe as entranhas: era necessário proporcionar urgentemente uma distração à plebe. Foram os cristãos que lhe proporcionaram essa distração. Por que eles e não outros? É muito difícil dizê-lo. Já teriam sido tomadas anteriormente algumas medidas contra a nova seita? É duvidoso. Tácito fala de uma mulher da aristocracia, Pompônia Grecina, que no ano 57, por causa da sua vida austera e de outros indícios, fora acusada de “superstição estrangeira”; seu marido, Áulio Pláucio, em nome do velho direito romano, fora enviado ao tribunal, que aliás o absolveu. Tratava-se de uma cristã? É possível, mas não é certo. Quanto aos motivos precisos da perseguição de 64, também não é fácil apontá-los. Tácito alude ao assunto em termos muito vagos. Acusaram do crime “homens que eram detestados pelas suas infâmias e culpados de nutrir ódio pelo gênero humano”. Mas isto não diz de forma alguma que esses homens devessem ser tidos como responsáveis pelo sinistro. É preciso considerar, no entanto, que para os não iniciados a linguagem cristã tinha algo de estranho e quase provocador, com as suas grandes imagens da cólera divina, da destruição de cidades pecadoras pelo fogo, de conflagrações universais, e com toda essa simbologia apocalíptica cujos temas haviam de ser orquestrados um pouco mais tarde por São João. Podiam também ter entrado em ação algumas “forças secretas” semeadoras da calúnia. Se observarmos que, nas batidas policiais, os cristãos eram perfeitamente diferenciados dos judeus; se considerarmos os antagonismos que a propaganda a favor de Jesus provocava no seio das sinagogas; e se notarmos as simpatias judaizantes de Popéia e a influência que certos membros do povo eleito exerciam sobre ela, parece razoável conceber uma suspeita nesse sentido. (Flávio Josefo parte dessa hipótese na sua Vita (III) e nas Antiguidades Judaicas (XVIII, XX), e Tácito também (Hist., I,22)). Mas também não é de excluir que as dissenções no seio da própria comunidade romana, entre judeus cristãos e “paulinistas”, por exemplo, tivessem atraído a atenção pública. Do que não há dúvida é de que o pequeno rebanho cristão, desprezado, caluniado pela voz dom povo, e de quem além do mais nada havia a temer, era um bode expiatório tentador. Organizou-se uma razzia nos meios cristãos. Os primeiros presos, submetidos a tortura, devem ter deixado escapar algumas informações. As suas relações, as suas condições de vida, os seus propósitos e até os seus silêncios podem ter servido de indícios; a Igreja nascente não tinha ainda preparado os seus para tais acontecimentos. As prisões encheram-se a tal ponto que Tácito nos fala de uma “grande multidão” de cristãos presos – o que nos fornece uma preciosa informação sobre a extensão que a nova fé tinha em Roma já uns trinta anos após a morte de Cristo. Teriam os torturadores conseguido obrigar os mais fracos a confessar que eram incendiários? A acusação de “ódio ao gênero humano” teria servido para incriminá-los de todos os delitos imagináveis? Pouco importava o pretexto jurídico; o que Nero queria não era tanto castigar um suposto crime, mas apaziguar aquela multidão irritada, apontando-lhe culpados e entregando-lhe vítimas. No cérebro espantosamente fértil desse homem, a intenção política e o gosto demencial pelos espetáculos associaram-se numa só ideia atroz. E surgiram as cenas dos jardins vaticanos.
Tudo o que de pior pode inventar a imaginação de um sádico a quem se concedesse uma liberdade sem limites para praticar o mal, tudo foi posto em prática numa atmosfera de pesadelo. Não se limitaram a torturar, decapitar e crucificar as vítimas no circo de Nero, instalado no lugar onde se encontra hoje a Basílica de São Pedro (O circo, cujos alicerces foram encontrados, ocupava a parte esquerda da Basília de São Pedro. É o seu obelisco que, trasladado pelo arquiteto Fontana no tempo de Sixto V, se ergue hoje no centro da praça). Organizaram-se caçadas nos jardins imperiais, onde a caça eram cristãos metidos dentro de peles de fera, que os molossos acabavam por dilacerar. Reproduziam-se as mais escabrosas e bárbaras cenas mitológicas, tendo por figurantes cristãos submetidos aos maiores ultrajes. E à noite, ao longo das alamedas que estavam abarrotadas dos mais abjetos basbaques e que Nero percorria vestido de cocheiro, conduzindo o seu carro, acendeu-se uma iluminação feita de elevados archotes besuntados com pez e resina, que eram seres vivos.  De atrocidades provocou em todas as consciências retas a piedade para com os cristãos. A perseguição não se limitou, porém, aos espetáculos organizados para divertir a turba da cidade: continuou no tempo e estendeu-se no espaço. Escrevendo, talvez já no dia seguinte ao do drama, às comunidades da Ásia, do Ponto, da Galácia, da Capadócia e da Bitínia, em nome da “Igreja dos eleitos que está em Babilônia” - isto é em Roma, convertida em capital da dor, como outrora a Babilônia do exílio que está na borda dos rios -, Pedro, Príncipe dos Apóstolos, alude aos diversos tormentos que contristam estes longínquos irmãos e que deveria ser para eles o que o fogo é para o metal: uma prova de valor e de resistência (cfe 1Pe 1,6-70. Declara-lhes expressamente que, mesmo inocentes de todo o crime, podem acabar por ser “castigados como cristãos” e que esse será o seu verdadeiro título de glória. Não há dúvida, portanto, de que Roma não teve o monopólio dos sacrifícios. E foi depois de ter escrito essa carta que, respondendo á chamada profética do Mestre, o velho Apóstolo estendeu as mãos e se deixou levar para o sacrifício (cfe. Jo 21,18); e pouco depois – talvez ao mesmo tempo ou a alguns meses de distância, não se sabe ao certo – caía a golpes de cutelo o outro pilar da Tal foi a primeira cena da longa tragédia do martírio que atingiu inopinadamente um nível de horror que nunca seria ultrapassado, mas que muitas vezes se havia de igualar. Nero podia desaparecer, quatro anos mais tarde, acossado até à morte pelo desgosto e pela cólera unânimes; mas o precedente por ele aberto iria revelar-se de grande eficácia. De reinado em reinado, de dinastia em dinastia, o exemplo dado pelo histrião louco vai ser imitado por homens que, apesar dessas crueldades, nada tinham de monstros. Desde o início, as palavras “cristão” e “vítimas destinada aos suplícios”; são simples sinônimos jurídicos. De 64 a 314, não se passará um único dia sem que pese sobre uma alma fiel a ameaça de um fim terrível; contar-se-ão aproximadamente tantos anos sangrentos como anos de calmaria espalhados no meio daqueles. E periodicamente brotará destes duzentos e cinquenta anos de história, como nos jardins da esplanada vaticana, esse grito de amargura e agonia que a fé, desde as primeiras torturas, soube transformar num grito de esperança. O relato das perseguições constitui uma das páginas mais grandiosas da história do cristianismo, aquele que, misticamente, liga com o laço mais estreito a experiência da alma cristã à de Jesus, seu modelo. Ainda hoje, no calendário litúrgico, pelo menos a
metade dos santos venerados pertence a este período. E é em virtude de tais exemplos que até os nossos dias o testemunho cristão se renova no sacrifício voluntariamente aceito. Acerca deste longo período trágico, estamos de modo geral bastante bem informados. Uma vez que as comunidades cristãs consideravam os  dramas ocasionados pela morte de tantos dos seus não apenas como calamidades, mas como brilhantes manifestações de fé, comunicavam sempre aos seus irmãos aquilo que se havia passado, mesmo no meio da tormenta. Conhecemos muitos desses relatórios imediatos, como por exemplo o da paixão de São Policarpo ou o dos mártires de Lyon. Possuímos também cartas enviadas pelos bispos das comunidades, quando eles próprios se encontravam na prisão, destinados ao sacrifício, a fim de darem instruções aos seus sacerdotes ou diáconos ou exortarem á paciência e á coragem os seus fiéis. A tradição, porém, nem sempre soube conservar essa herança. Assim, muitas vezes, não é sobre os mártires mais célebres que possuímos os documentos mais irrecusáveis. Uma inscrição encontrada nas catacumbas, e devida ao sábio para Dâmaso, afirma de maneira precisa a vida e o martírio de Santa Inês; mas a posteridade parece ter sabido bem mais dessa vida, pois nos apresenta a branca imagem da pequena virgem, votada a Cristo desde a mais tenra infância, recusando aos dez anos a mão de um grande personagem, escapando por milagre das chamas da fogueira e – condenada aos treze anos a ser degolada – incitando o carrasco a feri-la. No seu conjunto, as narrativas hagiográficas parecem acentuar os pormenores verdadeiros dos mártires, segundo um esquema dividido em quatro pontos. Pintam com as tintas mais negras as autoridades pagãs, imperadores e magistrados, e, por estarem pouco a par das razões profundas dessa atitude hostil, atribuem-lhes desígnios inconfessáveis. Multiplicam a variedade de suplícios com uma tendência para o extravagante que não ficamos a saber se se deve à imaginação dos carrascos ou à das vítimas. Insistem sobre prodígios de natureza material que acompanham os suplícios e, antes de conduzirem os mártires ao fim de suas provas, procuram mostrar a sua invulnerabilidade. Por último, quase sempre o drama termina por desenlace “moral”, bem ao estilo que continua a ser do agrado das multidões: umas vezes, o castigo do verdugo; outras, a sua comoção perante o heroísmo da vítima e a sua súbita conversão. Tal como foi levada a cabo por Nero, a perseguição anticristã poderá parecer simplesmente a manifestação de uma loucura sanguinária ou o terrível divertimento de um senhor apavorado perante a cólera dos seus súditos. Semelhante explicação seria absolutamente válida se o drama de 64 tivesse sido o único. Dentro em breve, porém, e já com os próximos imperadores, essa perseguição há de recomeçar, e prolongar-se-á até os princípios do século IV. Ela não é, pois, o mero resultado de um penoso acaso que tenha colocado Nero sobre o trono e ateado fogo nos bairros populares de Roma. E é exatamente por isso que surge uma questão extremamente delicada, sobre a qual ainda não se fez a devida luz: é a questão da justificação legal que podia apresentar para tais medidas um povo tão violentamente apaixonado pelo direito como o povo romano. Sobre este assunto, havia matéria para discussão até mesmo entre os cristãos. É o que
se verifica numa passagem da Apologética, escrita por Tertuliano nos fins do século II. Esboçando a história das perseguições desde as origens até o seu tempo, diz aos romanos: “Consultai os vossos anais e verificareis que Nero foi o primeiro que se serviu do gládio imperial contra a nossa seita. Mais tarde foi feita outra tentativa por Domiciano, que, pela sua crueldade, merece ser considerado um semi-Nero. Quem foram os nossos perseguidores? Foram homens iníquos, ímpios, infames, que vós mesmos sois os primeiros a condenar! Pelo contrário, entre os príncipes que se sucederam no trono sabendo respeitar as leis divinas e humanas, não podeis citar um só que tenha feito guerra aos cristãos! Que devemos, pois, pensar dessas leis que só são postas em vigor contra nós por príncipes ímpios, injustos, infames, cruéis, extravagantes e dementes, mas que Trajano evitou parcialmente, que Vespasiano, o destruidor dos judeus, não mandou aplicar, como também não se atreveram a fazê-lo Adriano, Antônio e Vero?” (Apol., V). Neste texto nota-se não só uma hábil manobra para lançar a responsabilidade das perseguições sobre os imperadores cujos nomes eram detestados, mas também uma argumentação jurídica de muito peso: existem efetivamente leis anticristãs, mas a prova de que essas leis são monstruosas e iníquas reside no fato de que só monstros de iniquidade as puseram em prática. Mas o mau é que isso é falso. Houve imperadores excelentes, homens que sob muitos aspectos fazem honra à humanidade, que, se não promulgaram novos textos legislativos contra os cristãos, não hesitaram em mandar aplicar os antigos decretos de perseguição; alguns desses reinados que o apologista considera como tempos de euforia foram, na verdade, maculado pelo sangue cristão. Era necessário, portanto, que houvesse outra coisa, algum instrumento jurídico válido que justificasse o rigor dos poderes públicos contra a nova seita. Ora, nós não possuímos esses textos nem os decretos de perseguição. Os cristãos era considerados diferentes dos judeus e tidos como dissidentes do judaísmo; por isso, não beneficiavam dos privilégios especiais obtidos por Israel, principalmente o de poderem orar ao seu Deus pelo imperador sem terem de prestar- lhe obediência nos cultos oficiais. Mas isto não explica que devessem ser perseguidos ipso facto. Para nós, que vemos o desenrolar dos acontecimentos sob a perspectiva dos séculos, é bem manifesto que, desde a sua aparição, a mensagem evangélica se opunha substancialmente às próprias bases do Império. Essa perseguição poderia talvez depender dos simples poderes policiais que possuíam os magistrados romanos, desse direito de coercitio que lhes permitia castigar imediatamente, e até com pena de morte, os promotores de desordens públicas. Dir-se-á que a fórmula christianos esse non licet – não é permitido haver cristãos – foi admitida como princípio jurídico logo após a perseguição de Nero; mas não se pode apresentar quaisquer bases explícitas para semelhante afirmação. Temos, pois, de considerar a história das perseguições em função da dupla evolução que já indicamos: por um lado, a da consciência política do Império que, no decurso dos três primeiros séculos, vai avançando no sentido de um fortalecimento dos poderes públicos, de um domínio crescente sobre os espíritos e sobre as pessoas,
opondo-se cada vez mais aos não-conformistas; por outro, a evolução da consciência cristã que, pela vida em comum, pelo trabalho dos seus pensadores e pelo exemplo dos seus mártires, se sente cada vez mais como antagonista irredutível do Império. É assim que se pode compreender a grande divisão das perseguições em duas partes. De 64 a 192, serão mais ou menos espontâneas, mais ou menos retardadas ou aceleradas pelos poderes imperiais, mas sempre esporádicas e sem apresentarem nunca um aspecto sistemático. A partir do século III, estabelecer-se-á um novo regime, o das perseguições por editos especiais emanados do próprio governo e aplicáveis a todo o território do Império. Os resultados do segundo método serão incontestavelmente bem mais sangrentos que os do primeiro. Resta ainda trazer a lume uma questão que inquieta o espírito moderno. Mesmo que o Império Romano tenha tido razões – mais ou menos lúcidas e mais ou menos instintivas – para empenhar-se na luta contra o cristianismo, isso não explica as características horrorosas que a perseguição tomou desde o início, e que há de conservar como quando não for obra de um louco. É que encontramos aqui um dos sintomas mais claros que anunciam a desagregação moral da sociedade romana e a sua futura decadência. Esta civilização que, sob tantos aspectos, havia elevado tão alto o seu ideal humano e tinha sabido formular-lhe princípios muitas vezes admiráveis, dispôs-se a humilhar o homem e a rebaixar-se a si mesma com espetáculos de uma incrível selvageria. Sempre houvera em Roma um certo gosto pelo sangue ou, pelo menos, um certo hábito de acolher com interesse espetáculos mais ou menos sangrentos. É, em última análise, este complexo de intenção política por parte do poder e de baixa lisonja dirigida aos piores instintos da plebe que explica as condições em que se desenrolou a perseguição anticristã e se fixaram as suas atrozes características.
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