História da Igreja - Encontro 04 (Primeira parte)

Encontro 04 – Do ano 68 ao ano 96 (Primeira parte).
Não há nenhum período da história da Igreja cuja importância ultrapasse o da primeira semeadura cristã, como não há, sem dúvida, ponto algum que seja tão mal conhecido. Em toda a grande instituição religiosa ou política, são quase sempre os primeiros anos que determinam o futuro. É ainda no tempo confuso das tentativas e dos primeiros passos às escuras que se tomam posições e se elaboram métodos de que depende o sucesso ou o malogro da empresa. No que diz respeito ao cristianismo, o resultado está à vista. Com uma rapidez que nos deixa atônitos, a Boa Nova foi levada a inúmeras terras e germinou em comunidades ativas. Já em meados do século II, multiplicam-se as provas da existência da Igreja a grande distância da Palestina. Mas se a estrutura geral deste trabalho de expansão é suficientemente clara, não podemos em contrapartida apontar muitos nomes como pioneiros dessa conquista. Só através da bruma é que conseguimos distingui-los. Lendo o Novo Testamento, colhemos a impressão de que a semeadura cristã se limitou a São Paulo. A sua figura, em plena luz, joga mais ou menos para a sombra a ação dos outros Apóstolos. Mas a personalidade genial do grande filho de Tarso não é suficiente para explicar este efeito de perspectiva; não convém esquecer que a  nossa melhor fonte, o livro dos Atos, é de autoria de São Lucas e que este, muito naturalmente, centrou o texto no seu amigo e companheiro. Mas nada seria mais falso do que limitar ao trabalho do Apóstolo das Gentes a grandiosa aventura que foi a primeira expansão do Evangelho. O próprio São Paulo nada fez ou escreveu que nos permita pensar que pretendia de algum modo monopolizar esse esforço e essa glória. Como ele mesmo diz na Epístola aos Romanos (12), cada um dos membros do “corpo de Cristo” era chamado àquele ingente labor, conforme os diferentes dons do Espírito e a graça que Deus lhe concedia. É certo que, obedecendo à ordem do Mestre, todos os discípulos imediatos de Jesus partiram para “evangelizar todos os povos” e a primeira Epístola aos Coríntios contém uma alusão (9,5) que prova implicitamente que os outros Apóstolos estavam em missão ao mesmo tempo que Paulo. Além de breves passagens dos Atos e das Epístolas de São Paulo, além de outras Epístolas que trazem a assinatura de Apóstolos e além do Apocalipse, o que sabemos de mais preciso chegou até nós por meio de escritores notavelmente posteriores aos acontecimentos, tais como Clemente de Alexandria, Santo Irineu e Eusébio, e é somente em tradições piedosamente veneradas que podemos informar-nos sobre certos pormenores, quando existem. De todos estes primeiros mensageiros de Jesus, destes laços vivos entre Ele e nós, apenas um conseguiu furar um pouco a obscuridade geral: São João. Mesmo assim, é impossível relatar sem lacunas a sua vida e a sua ação. Após o Concílio de Jerusalém, em 49, desaparece, tornamos a encontrá-lo em Éfeso, certamente depois da morte de São Paulo, por volta de 67, bem informado, segundo parece, de tudo o que se passava na Ásia Menor e muito venerado entre as comunidades cristãs, que o tinham por seu mentor. Por ocasião da perseguição de Domiciano, encontramo-lo em Roma, onde sofreu, segundo Tertuliano, o suplício do azeite a ferver; escapou e depois foi condenado a trabalhos forçados e desterrado para a ilha de Patmos, onde escreveu o Apocalipse. Libertado por Nerva, voltou para Éfeso, onde o vemos, segundo o
testemunho de Clemente de Alexandria, percorrer já em idade avançada todas as regiões vizinha, “nomeando bispos, fundando igrejas, escolhendo este ou aquele para clérigo”; ao mesmo tempo, escrevia sob a inspiração do Espírito o seu admirável Evangelho e as Epístolas, repetindo sem cessar, como refrão da sua longa experiência cristã: “filhinhos, amai-vos uns aos outros: este é o preceito de Cristo”. Além de João, de Pedro – que já encontramos em Antioquia e em Roma – e dos dois Tiagos – que militavam em Jerusalém -, nada sabemos de positivo sobre os outros discípulos de Jesus e sobre a sua ação. Os numerosos Atos dos Apóstolos apócrifos que florescerão no fim do século II quererão preencher esta lacuna, mas a Igreja, com severa prudência, não acolherá o seu testemunho – o que não quer dizer que tudo seja absolutamente falso nas linhas gerais das histórias que sugerem. Uma tradição muito antiga assevera que os Apóstolos deixaram a Cidade Santa e se dispersaram doze anos após a ressurreição do Senhor, o que é inteiramente plausível, já que essa data coincide com a perseguição de Herodes Agripa, na qual Tiago, filho de Zebedeu, foi supliciado e Pedro encarcerado. Teria sido nessa ocasião que eles partiram em todas as direções, levando a palavra de Deus a muitos povos. Eusébio, que afirma reproduzir Orígenes, e Rufino, que o traduz com retoques, pretenderam saber qual a zona de ação que coube a cada um dos Apóstolos: enquanto João ia para a Ásia, André ter-se-ia dirigido ao país dos citas (na atual Ucrânia, sul da Rússia), Mateus à Etiópia, Bartolomeu à “Índia” (atual Arábia do Sul), e Tomé ao reino dos partos. Outras tradições completam nalguns pontos este esquema. A mais curiosa afirma que Tomé, seguindo a rota das caravanas, teria chegado pela Pérsia ao vale do Ganges, onde teria convertido o príncipe Matura, sátrapa dos Saces, exatamente na altura em que este fundava um poderoso império na Índia e na Ásia Menor. (Os primeiros exploradores europeus, a partir do século XIII, encontraram na Índia “cristãos de São Tomé”. Discute-se se se trata de descendentes de uma comunidade apostólica ou, segundo outros, de um grupo nestoriano formado no Império persa em fins do século V). Trata-se com certeza de belos temas, que se prestam ao sonho, mas que permitem entrever através das fábulas esta grande realidade: a prodigiosa atividade dos cristãos na tarefa de espalharem a sua fé pelos quatro cantos do mundo. Se esta semeadura cristã teve como condutores de primeira categoria, como pontas de lança, os Apóstolos e discípulos, nem por isso devemos esquecer-nos de que foi também obra não menos gigantesca de milhares de fiéis anônimos que, ao sabor fortuito das viagens e dos encontros, prepararam as vias do Senhor e começaram a conquistar almas para a luz. Para compreender isso, para apreciar a sua eficácia, seria preciso ter a experiência concreta de todas as condições da vida popular nos primeiros séculos da nossa era, imaginar os deslocamentos e viagens, mais abundantes do somos inclinados a crer, ter presentes os albergues, as ruas cheias de tendas de comércio, os caravançarais, onde a gente se encontrava e conversava; pensar na importância que tinham em todas as cidades da região mediterrânea, e até na Mesopotâmia, as comunidades judaicas da diáspora que muitas vezes receberam os primeiros mensageiros do cristianismo; e, sobretudo, seria necessário experimentar no íntimo a violência jubilosa e a vontade de conquista que eram o privilégio de uma doutrina muito jovem e na qual o Espírito de
Deus continuava a brilhar por meio de milagres. Nenhum contemporâneo registrou o aparecimento desta propaganda, tão obscura e secreta ela foi; nenhum nome destes primeiros arautos do Evangelho chegou até nós. Devemos admitir que a propaganda cristão obedeceu a princípios maduramente refletidos, a fim de seguir esta ou aquela orientação? No caso dos chefes, sim. É evidente que um homem como São Paulo não traçou ao acaso o itinerário das suas viagens; os seus cinco grandes altos são plenamente reveladores tanto das suas intenções como da sua visão do futuro. Antioquia, ponto de partida das caravanas da Mesopotâmia; Éfeso, trampolim para a Ásia Menor; Tessalônica, limiar da Macedônia; Corinto, primeiro porto da Grécia no contato com o Egeu e o Adriático; e Roma, coração do Império, eram, como ele próprio afirmou, “as portas que davam para o exterior”. Mas os outros, os mensageiros obscuros? Obedeceriam a algum plano, a uma decisão sistemática, ao espalharem a Boa Nova? Evidentemente não. No entanto, o que se manifesta nesta propaganda é um sentido profundo, concreto, das realidades geográficas, econômicas e políticas do mundo tal com era então. Quais são as grandes zonas pelas quais se expande desde o início? Em primeiro lugar, e acima de tudo, a Ásia Menor e as suas vizinhanças, lugares das pregações de Paulo e João, regiões ainda próximas da Palestina. Aí hão de florescer os primeiros núcleos, para logo depois ultrapassarem esses limites, transpondo as fronteiras do Império em direção ao reino de Odessa ou Ostoene, que parece ter sido cristianizado muito cedo; e em direção à Pérsia, onde deviam existir comunidades desde os fins do século I (Lembremo-nos de que, no dia de Pentecostes, havia em Jerusalém “partos, medos, elamitas e gente da Mesopotâmia”, o que parece apoiar a tradição segundo a qual houve um cristianismo muito antigo na Pérsia, como também afirmam as narrativas apócrifas de São Tomé). Na esteira de São Paulo, que ali, como em toda parte, abriu o caminho, o Evangelho transpõe o mar Egeu e volta-se para a Europa. Germinará na Grécia, roturada pelo Apóstolo das Gentes, e com a Grécia germinará nos seus anexos ilírios e dálmatas. Bem cedo – talvez apenas vinte anos após a morte de Cristo – a Itália assiste aos primeiros batismos e as suas comunidades multiplicam-se rapidamente. O Egito, colônia romana, também deve ter sido cristianizado muito cedo, mesmo que não o tenha sido por São Marcos, o evangelista, como pretende a tradição. Já o Ocidente, considerado em conjunto, foi evangelizado mais lentamente. A Gália, a Espanha e a África, apesar dos ilustres padrinhos apostólicos que mais tarde as suas comunidades hão de reivindicar, só se abrem verdadeiramente no decurso só século II, mas então de forma esplêndida. Tinha razão o piedoso apologeta Hermas, autor do Pastor, quando, já por volta do ano 120, comparava o cristianismo a uma árvore cujos ramos cobriam todo o mundo civilizado. Pode-se dizer que, no espaço aproximado de um século, o Evangelho penetrou em todos os centros vitais do Império, isto é, em todos os seus nós espirituais. Mas, assim esboçada, a curva desta expansão cristã leva a uma observação muito importante. O cristianismo primitivo desenvolveu-se – com duas exceções apenas – no âmbito de Roma; o Império, na célebre expressão de Duchesne, foi a pátria. Como o Império romano, não se estendeu a leste além de um certo limite. Como o Império,
voltou-se para o Ocidente. Mesmo nos seus progressos, seguiu os passos da civilização romana: nascera no cadinho greco-oriental, mas atingiu pouco a pouco as terras mais rústicas e mais sãs do Ocidente. Há nisto uma concordância que, para o futuro da religião cristã, terá uma importância primordial. É ao sistema romano que a Igreja deverá muito daquilo que virá a ser no futuro; mas é também com o poder de Roma que ela terá de haver-se – e logo. No decurso dos dois primeiros séculos da nossa era, isto é, no momento em que a semente cristã vai tentar ganhar raízes, existe em toda essa parte do mundo que tem o Mediterrâneo por centro uma única realidade política que se impõe ao espírito: o Império de Roma. Único na sua ordem, imenso e invencível, o Império nascido da Loba parecia ser de uma solidez eterna. Os pacientes esforços dos rústicos latinos tinham atingido completamente o seu fim. O Mediterrâneo é agora romano: mare nostrum; ninguém o poderá disputar-lhe. Por ocasião da morte de Jesus, no ano 30, o Imperium atinge vastos três milhões de quilômetros quadrados e não conta menos de 55 a 60 milhões de habitantes. Estes dois primeiros séculos da nossa era são para Roma a idade de ouro. É a hora das grandes realizações, dos gênios e das obras-primas, a hora em que, perante o mundo, certos agrupamentos humanos se erigem alternadamente em testemunhas e guias. Estes tempos reais duram pouco: cem ou duzentos anos em média. O Alto Império é, para Roma, esse momento fugidio de plenitude, de poder e de orgulho. Roma foi criada por um gênio: Otávio Augusto. Uma vez que Roma se tornara demasiado grande para Roma, era necessário modificar os seus princípios, sair dos estreitos moldes da cidade tradicional e fundar um Império que fosse um vasto conjunto de nações, no qual a Cidade Eterna continuaria sem dúvida a assumir as primeiras funções de inciativa e de superintendência, mas já não pretenderia encerrar na sua estrutura municipal o universo inteiro. Para levar a bom termo este plano grandioso, Otávio teve de pôr de lado as antigas formas legais da República. Uma vez “Senhor do universo”, o primeiro imperador soube também mostrar-se “senhor de si mesmo”. Vencendo o que havia nele de áspero e de suspeito, transformou o seu próprio caráter, alcançou uma grandeza serena e até uma grande generosidade, e mereceu a homenagem que um historiador da época imperial, quase sem exagero, lhe havia de prestar: “Não há nada que os homens possam pedir a Deus, que Augusto não tenha proporcionado ao povo romano e ao universo” (Veleio Patérculo). O regime assim estabelecido irá perdurar entre 14 d.C., ano em que morre Augusto, e 192, ano em que Cômodo é assassinado, mas não se mudanças e sem que se acentuem, também na superfície, certos aspectos que serão mais tarde outros tantos fatores de declínio. Mas essa evolução é lenta e processa-se por degraus; os centros vitais da Imperium ainda não foram atingidos. Sucedem-se no poder três dinastias, todas provenientes dos mais diversos elementos do Império. Vem, em primeiro lugar, a de Júlio Cláudio, constituída por parentes de Augusto e representantes da alta aristocracia, mas que parece não ter contado com homens muito notáveis, à exceção, talvez, de Tibério, apesar de seu caráter odioso e dos seus últimos anos banhados em sangue. Temos ainda Calígula e Nero – dois
loucos -, e Cláudio, que não passou de um pobre homem. Mas o mecanismo montado por Augusto é tão sólido que funciona perfeitamente, apesar da insuficiência dos seus condutores. O Estado, mesmo que o imperador seja falho, tem servidores à altura da sua missão, quer se trate de chefes de exércitos – um germano e um druso, ambos libertos de Cláudio, astutos e ambiciosos, mas homens de governo, criadores da alta administração romana -, ou dos primeiros conselheiros de Nero, Sêneca e Burro. Depois, quando em 69 a pequena burguesia toma o poder com Vespasiano, introduz no governo, embora com uma certa estreiteza de espírito, as suas qualidades de ordem, de tenacidade e de economia. Finanças equilibradas, grandes obras, um esforço de restauração moral e social inteligentemente posto em prática – tal é a política dos Flávios. O título de “delícias do gênero humano” concedido a Tito, depois de um reinado muito breve, exprime por certo um sentimento sincero, e quando uma conspiração aristocrática derruba Domiciano, em 96, não se pode dizer que esse homem brutal e autoritário não estivesse sido chorado pelas classes baixas, pelas províncias e pelas cidades. Vem por fim, de 96 a 192, a dinastia dos Antoninos, surgida dos meio italiano provincializado, que oferece à história uma sucessão de personalidades tão notável que não terá igual em todas as famílias reinantes do mundo. Trajano, Adriano, Antonino e Marco Aurélio, bem ora diferentes uns dos outros no caráter e na conduta, mas identificados num mesmo modo de sentir relativamente aos deveres de Estado, foram imperadores do século II que gozaram de uma autoridade tão serena e sólida que muitos chefes de nações os poderiam invejar. É, pois, admirável a impressão de solidez que o Império oferece nestes dois primeiros séculos, o que não significa que não tenha havido turbulências. Houve crises políticas, como o drama de 41, em que Calígula, o belo imperador louco, morre no pórtico do seu palácio, perseguido como uma fera e atravessado por trinta lâminas; o drama de 68 a 79, em que legiões inimigas umas das outras opõem em guerras civis imperadores contra imperadores; o drama de 96, em que Domiciano sustenta nos seus aposentos privados uma luta tremenda contra o seu assassino e sucumbe finalmente, com os dedos decepados e banhado em sangue; e o drama de 192, quando Cômodo, depois de ter escapado do veneno que lhe fora ministrado pela concubina, acaba por ser estrangulado no banho. E a essas grandes tragédias em que se joga a sorte do mundo, temos ainda de acrescentar todas aquelas que devastam tantas vezes as classes dirigentes romanas, ao sabor casual de uma conspiração falhada ou das loucuras de um príncipe. Esses abalos sangrentos não ultrapassam, a maior parte do tempo o âmbito das revoluções palacianas e só agitam as classes dirigentes, os altos funcionários e os cortesãos que vivem sob o olhar do seu senhor. O resto do povo, isso é, a imensa maioria, não houve falar dos acontecimentos senão de longe e, quer se divirta quer se indigne com eles, continua a julgar os seus chefes de acordo com os resultados da sua política. Se esses resultados são bons, o povo mantém-se calmo e indiferente. Esta tranquilidade das camadas sociais mais fundas está ligada, aliás, às próprias condições da organização imperial. Desde que houvesse ordem e tudo funcionasse corretamente, o governo imperial não se preocupava com pormenores. Esta relativa independência era a melhor garantia da fidelidade dos povos administrados.
Tal é, pois, o rosto do Imperium durante as 15 décadas em que o cristianismo germinou nas suas terras. Poder, equilíbrio e estabilidade – essas são as noções que se impõem ao espírito como evidências, quando consideramos a obra-prima que foi a idade de ouro romana. E se pensarmos na pequenez da Igreja nascente perante esse colosso majestoso, parece absurdo imaginar que, num com flito entre os dois, o resultado pudesse ser outro que não a aniquilação do cristianismo. Mas também no combate entre Davi e Golias as probabilidades de vitória pareciam estar todas do lado do gigante … As grandes oportunidades que o Evangelho terá para se propagar no Império resumem-se numa palavra, numa célebre fórmula – a paz romana, Pax Romana! Os primeiros tempos da semeadura cristã correspondem ao período mais calmo e mais livre de ameaças que o Ocidente jamais conheceu. A paz era então uma realidade duradoura, cujos benefícios podiam ser explorados sem apreensões. E essa paz exterior, que a defesa das fronteiras,  não comprometia de maneira nenhuma, andava de mãos dadas com uma paz interna também quase total. Pax Romana! As homenagens literárias prestadas a esta grande realidade histórica não são uma ênfase. A “imensa majestade” desta paz louvada por Plínio, o Velho, é uma realidade; e Tácito é uma testemunha verídica, e também um profeta, quando escreve: “Expulsos os romanos (não praza aos deuses tal coisa!), que se veria sobre a terra senão a guerra universal? Oitocentos anos de uma intenção refletida e de muita sorte levantaram este imenso edifício. Quem o lançar por terra ficará esmagado debaixo dos seus escombros”. O primeiro benefício que o cristianismo nascente receberá da paz romana será a proteção da lei. Basta ler nos Atos os capítulos relativos a São Paulo para avaliar o papel que a legalidade e a disciplina romanas desempenharam na ação do Apóstolo. O seu título de cidadão permite-lhe aproveitar plenamente as facilidades resultantes da ordem que reinava no Império. No aspecto material, Roma vai pôr à disposição dos cristãos o incomparável sistema dos seus meios de comunicação: as estradas. Traçada nas suas grandes linhas a partir da República, a rede de estradas é a preocupação constante dos imperadores. Durante dois séculos, não haverá nenhum imperador que não cuide de melhorar esta obra grandiosa. O mar não oferece menos meios de viagem. Tornou-se seguro depois que os barcos de guerra romanos afastaram para longe as ameaças da pirataria. O mapa econômico do Império e o da conquista cristã coincidirão a traços largos. Efetivamente, a doutrina evangélica vai extrair imensas facilidades destas condições materiais. Não apenas porque os seus propagadores poderão deslocar-se à vontade para onde a sua missão os chame, mas ainda devido ao jogo de intercâmbios humanos que acompanham forçosamente todo e qualquer negócio. É fácil enumerar um grande número de oportunidades que a majestosa organização do Imperium ofereceu ao cristianismo para a sua difusão. É justo também observar que, na ordem moral e intelectual, o terreno se encontrava igualmente preparado. Há, portanto, na obra histórica de Roma, um grande número de dados que surgem como elementos favoráveis à expansão cristã, e daí que as relações de fato que verificamos entre a Igreja nascente e o Império, tenham uma explicação fácil. Esta
romanização do cristianismo desde as suas origens virá a ter grandes consequências para o seu desenvolvimento. O cristianismo será, logo nos começos, uma religião de cidades, como o próprio Império era uma organização de cidades. Quando lhe for necessário construir uma administração, irá buscá-la ao Império. E esta espécie de predestinação encontrará o seu remate no dia em que a capital do mundo romano vier a ser a capital da Igreja, e a sede dos Césares a dos sucessores de Pedro. Encontro da história ou intenção providencial? Desde os tempos mais remotos, muitos fieis viram no fenômeno romano a prova de um plano divino. Por mais verdadeiros que possam ser tais dados, seria errôneo supor que o triunfo do cristianismo fica assim plenamente explicado. Uma interpretação determinista desse evento histórico, válida num certo sentido e até certo ponto, entra em choque, se a quisermos levar muito longe, com uma evidência não menos flagrante que a das facilidades oferecidas pelo Império Romano: a resistência cada vez mais consciente e dramática que Roma há de opor à Cruz. Ora, esta oposição era inevitável, pois prendia-se aos aspectos espirituais mais profundos da romanidade, ou seja, àquilo que podemos chamar a sua essência histórica. Em diversos pontos da Ásia Menor, encontraram-se inscrições, datadas do primeiro reinado imperial, em que se podem ler frases como estas: “A Providência enviou- nos Augusto como Salvador, para pôr fim à guerra e ordenar todas as coisas; o dia do seu nascimento foi para o mundo o começo da Boa Nova”. E no Halicarnasso: “A natureza eterna cumulou os homens de benefícios ao conceder-lhes, como bem supremo, César Augusto, pai da pátria, a deusa Roma, e Zeus paternal, Salvador do gênero humano”. Estas frases soam de forma estranha a ouvidos cristãos; são características da mentalidade greco-latina, tal como a religião antiga a havia formado, e fazem-nos pressentir em que consistirá o antagonismo entre o paganismo e o cristianismo. Para um homem dos primeiros séculos, a divindade é acima de tudo o poder supremo que dirige de maneira muitas vezes incompreensível o destino dos seres humanos, e de quem defende a sua felicidade ou infelicidade. É a expressão simbólica do fatum, do destino. Nada tem de estranho, pois, que o Império Romano, manifestação concreta desse fatum – e que destino feliz, poderoso, maravilhoso não era esse! -, se apresentasse como um fenômeno sobrenatural; por isso, também combina com a psicologia pagã que esta o tenha divinizado. Assim se cria, no momento em que o Império entra na sua idade de ouro, o culto de Roma e Augusto.  A velha Roma não gostava de divinizar nem os seres nem as coisas da terra; os manes dos antepassados, os gênios dos homens superiores não eram considerados deuses do alto. Foi do Oriente que chegou, depois da conquista pelas legiões, a corrente que levou para os altares o poder providencia de Roma encarnado naquele que a governava. Os faraós do Egito tinham habituado o seu povo, havia milhares de anos, a venerar neles a encarnação de Amon-Rá. Entre os persas, o rei era o eleito dos deuses, participava da sua glória e da sua auréola de luz. Na extremidade do Tauro, onde repousava, Antíoco mandara gravar sobre o seu túmulo estas palavras: “Filho de Deus”. Se pensarmos nos benefícios reais prestados por Augusto, ou na impressão de
liberdade que os homens passaram a sentir após um século de tumultos e de guerras, compreenderemos facilmente que o Oriente, acostumado às divinizações, o tenha divinizado de bom grado. Assim, se vai estabelecer em todas as partes do Império o culto imperial. Júlio César ainda era vivo, e já lhe tinham prestado honras quase divinas sob o nome de Juppiter Julius – fato que o nosso mês de julho continua a recordar -, e , depois de morto, foi transferido para a categoria dos deuses do alto. Todos, mesmo os prudentes Antoninos, estimularão esse culto por verem nele, em última análise, uma forma de lealismo e a expressão visível da dedicação dos súditos ao seu senhor. E quando falamos em lealismo, não pensamos apenas no sentido político e administrativo da palavra. No universo antigo, esse termo assume uma realidade caracteristicamente religiosa. Nada seria mais falso, pois, do que ver nesta religião oficial uma grosseira manobra política destinada a dissimular a exploração de um Império por parte da sua capital e a sujeição de sessenta milhões de almas a um homem só. Este culto tem raízes fundas na sincera gratidão das massas. Essa religião identificada com a ordem estabelecida e com a felicidade material não era a de Cristo; essa cidade que lhes apontavam como a sua pátria não era a cidade de Deus. O culto de “Roma e Augusto”, para eles, é a idolatria erigida em lei de Estado, a subversão suprema, que consiste em dar a César o que é de Deus. Portanto, é contra a confusão estabelecida entre o temporal e o espiritual que os cristãos se vão levantar, e é essa a causa essencial da trágica luta que se vai travar entre o Império e a Cruz ao longos dos primeiros séculos. Por mais favoráveis que sejam as circunstâncias que o Evangelho encontre no mundo romano, é só por meio de uma ruptura violenta com esse mundo que o Evangelho poderá cumprir a sua missão. E quando a revolução da Cruz tiver triunfado, o culto imperial desaparecerá de todas as cidades, e o Império, na sua substância, ter-se-á renegado a si mesmo.
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