História da Igreja - Encontro 03

Encontro 03 – Do ano 50 ao ano 67.

O desenvolvimento da comunidade cristã não tardaria a suscitar problemas, em primeiro lugar o das relações com o mundo judaico de que ela fazia parte, pois os primeiros fiéis de Cristo não se colocavam à margem da obediência à Tora. Começava a desenhar-se insensivelmente uma fenda entre eles e os outros israelitas. Sem que o procurassem, simplesmente porque viviam em Jesus, a sua existência iria diferenciá-los na prática daqueles que não criam nEle. 

Assim, por exemplo, a festa ritual do Sabbath, destinada unicamente à oração, celebrava-se todos os sábados. Sabemos que os primeiros fiéis a observavam da mesma forma que os judeus. Mas, ao mesmo tempo aparecia-lhes uma outra festa, a do “Dia do Senhor”, em que se comemorava a Ressurreição. Nas Epístolas de São Paulo (1 Cor 16, 2), nos Atos (20, 7), e também no texto não canônico chamado Carta de Barnabé, que data aproximadamente do ano 132, encontra-se a prova de que este “primeiro dia da semana” era festa cristã. 
Daí resultou uma rivalidade entre esses dois dias igualmente santos, e pouco a pouco o domingo foi prevalecendo. (Este primeiro desvio arrastou outro. Os judeus jejuavam às quintas-feiras e os cristãos preferiram jejuar às sextas- feiras, dia da Paixão, em que “o Esposo fora arrebatado”. A tradição dos fariseus, mais austera, era jejuar também num outro dia, na segunda-feira; os cristãos adotaram a quarta como segundo dia de expiação, o dia em que começara a Paixão. A substituição das práticas antigas pelas novas não se completou senão a partir do século II. 

Nas Cartas de Santo Inácio de Antioquia, bem como na Didaquê, isto é, antes de 150, encontra-se ainda a prova da oposição entre o domingo e o Sabbath). Foi por meio de situações como essa que os primeiros cristãos passaram a tomar consciência de si próprios e a revelar-se nitidamente diferentes dos outros judeus. O conflito aumenta e o livro dos Atos logo nos primeiros capítulos (3 e 4) relata-nos um episódio revelador. Pouco tempo depois de Pentecostes, Pedro e João sobem ao Templo para a oração da hora nona. Já tinham passado o pátio dos pagãos, onde qualquer um podia entrar, mesmo que não estivesse circuncidado, e tinham atravessado a ruidosa aglomeração de mesas dos cambistas, de negociantes de animais para os sacrifícios, de curiosos e transeuntes. No momento em que iam subindo a escadaria que conduzia ao recinto do Tabernáculo, um paralítico pediu-lhes esmola. “Não tenho ouro nem prata”, respondeu São Pedro, “mas o que tenho, isto te dou: em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda” (At, 3, 6). 
Os Apóstolos são detidos e mandados para a prisão. Assim se define uma oposição cada vez mais acirrada entre os judeus da Tora e os judeus da Cruz. A expansão do cristianismo começou logo após a sua fundação e nunca mais parou. Este é um dos traços mais surpreendentes de toda a sua história. A Igreja não é uma entidade petrificada, definida e delimitada de uma vez para sempre; é uma força viva que progride, uma realidade humana que se desenvolve na sociedade segundo uma lei que chamaríamos orgânica, tal o modo como sabe adaptar-se às circunstâncias, utilizar para os seus fins as condições de lugar e tempo, tornar-se prudente na sua audácia e lentamente persuasiva mesmo nas rupturas que provoca, sem nunca perder de vista o seu fim único: o estabelecimento do reino de Deus.

A primeira expansão teve lugar no apertado marco de Jerusalém. Mas, pela própria força das coisas, em breve ultrapassou esses limites e estendeu-se por toda a Palestina e suas imediações. Só quem já viveu no Oriente ou em países árabes conhece a espantosa mobilidade desses povos que parecem desprezar completamente as fadigas de viagem e os nossos hábitos caseiros. Temos de imaginar o povo de Israel deslocando-se sem cessar dentro dos limites da Terra Santa, as estradas percorridas por caravanas de camelos e mulas, as estalagens desconfortáveis repletas de mercadorias e viajantes, e, por ocasião destes deslocamentos os encontros, a tagarelice dos países do Oriente, que faz voar tão depressa as novidades. Uma das principais causas destas movimentações era a religião. Por ocasião das diversas festas rituais, os judeus piedosos partiam para Jerusalém. (Ler nos “Apontamentos do estudo bíblico: Uma visão básica da Bíblia, os encontros 27 e 28. 

Chegados a casa, contavam, evidentemente, aos seus conterrâneos o que tinham sabido na Cidade Santa, já que estes, menos favorecidos, não tinham tido a sorte de pisar os átrios sagrados. As correntes de permutas comerciais e de peregrinações que certamente determinaram a primeira semeadura da Boa Nova não se limitavam apenas à Terra Prometida. Minúscula região dos imensos territórios de Roma, a Palestina poderia ter sido fortemente agitada pelo anúncio da era messiânica sem que o mundo o percebesse, se entre ela e o resto do Império não existisse um laço geográfico extremamente importante: a dispersão judaica ou, em grego, a diáspora. Nos primeiros tempos da nossa era, havia comunidades judaicas em todas as províncias do Império, e a dispersão havia de continuar durante pelo menos mais cem anos. Já o livro dos Oráculos Sibilinos punha estas palavras na boca de Israel: “A terra inteira e até o mar estão cheios de ti”. Flávio Josefo afirmará “que seria difícil encontrar uma única cidade onde não houvesse judeus”, o que é confirmado por Estrabão em termos quase equivalentes. E Santo Agostinho citará estas palavras de Sêneca: “Os hábitos e costumes desta raça de celerados instalaram-se em todos os países”. Embora assim dispersos entre os povos, os judeus da diáspora não se misturavam com eles. Na aparência, estavam perfeitamente inseridos na vida do país em que se encontravam; falavam sua língua e aceitavam em parte os seus costumes. Mas, agrupados nas suas sinagogas, onde liam e comentavam a santa Tora sob a direção de um Conselho de Anciãos e de um chefe eleito, o rabino, salvaguardavam ciosamente a sua independência espiritual. Continuavam a ser um ramo do povo eleito, separado do velho tronco pela história, mas conservando-se fiel a esse tronco e sorvendo-lhe incessantemente a seiva vivificadora. É este afluxo humano incessantemente renovado, este vaivém contínuo, que é preciso ter em conta para tentar compreender a rapidez da semeadura evangélica. Amanhã, as colônias da diáspora hão de acolher os fiéis de Cristo perseguidos em Jerusalém ou os missionários em visita; mas, logo
que Jesus morreu, a notícia do seu destino foi levada pelos peregrinos através do mundo. “Alguns, em Jerusalém, afirmam que chegou o Messias ...” E isso repetia-se tanto no bairro judeu de Faro como nas ruas estreitas de Trastevere. O Espírito de Deus tinha soprado e semeado o grão. Mas em breve a expansão espontânea do cristianismo vai deparar com uma nova dificuldade. Já não se tratará de lutar contra a desconfiança mordaz dos adversários, mas de decidir entre duas tendências que parecerão igualmente respeitáveis no seio da comunidade primitiva, com todos os riscos de uma dissenção e de uma cisão que tal escolha comporta. Em Jerusalém, cresceu o número dos fiéis vindos da diáspora; por toda a parte do Império, formaram-se núcleos de cristãos no interior dos bairros judaicos, e este fato vai suscitar graves problemas teóricos e práticos, de cuja solução dependerá em grande medida o futuro da Igreja e da fé. Para compreender bem esta questão, é necessário situar-se novamente dentro das perspectivas judaicas. Em Israel, desde havia muito tempo, coexistiam duas correntes espirituais que determinavam atitudes contrárias com relação aos estrangeiros. Uma delas era a do particularismo, que insistia com orgulho sobre a eleição única do Povo das Tribos, e que por isso sublinhava, com justa razão, que só uma feroz resistência às contaminações pagãs lhe tinha permitido sobreviver e levar a cabo a sua missão. Afastava com violência a nação santa das “raças malditas desde a origem”, cujo simples contato já era mancha. “O Legislador encerrou-nos dentro dos muros de ferro da Lei, para que, puros de alma e de corpo, não nos misturemos com nenhuma outra nação”, dirá a Carta de Aristeu, um escrito judaico do século II. Indo da simples repulsa ao ódio mais ativo, este sentimento acabaria num exclusivismo de que muitos tetos bíblicos nos oferecem provas. Mas sempre existiria também, na consciência de Israel, uma outra correte, universalista e respeitosa do estrangeiro, que acolhia todos os homens de boa vontade, que não lançava anátemas sobre os pagãos, e que arrastará os judeus mais generosos na direção que Jesus apontará. Para estes judeus universalistas, a missão do povo eleito estava definida nas admiráveis palavras do velho Tobias: “Se o Se nhor vos dispersou entre as nações que o ignoram, foi para que lhes contásseis a sua glória e as fizésseis reconhecer que Ele é o Único, o Onipotente” (Tob 13, 4). Era sobretudo nas comunidades da diáspora que se manifestava essa tendência universalista. Nas colônias, permanecendo embora unido ao Templo por laços sólidos, o judaísmo sofrera no decorrer dos séculos uma lenta transformação. Ocorre uma abertura de espírito. Falava-se a língua nova, o grego, necessária para os negócios, a ponto de se esquecer o arameu dos antepassados e de não se usar o hebreu senão como língua litúrgica. A civilização pagã oferecera a esses judeus dispersos as suas tentações e o seu encanto, mas também as suas oportunidades de enriquecimento espiritual. Já não era, para ele, apenas o reino do demônio; pelo contrário, à parte alguns apóstatas que haviam sucumbido de corpo e alma, a maioria dos fiéis da Lei pensava em trazer os pagãos para Javé. O lugar em que melhor se desenvolveu esta tendência foi Alexandria do Egito. Ali, no dizer de uma tradição mais simbólica do que histórica, faraó lágida Ptolomeu II mandara traduzir os livros santos de Israel por uma comissão de setenta sábios, e as respectivas versões, concluídas todas simultaneamente ao cabo de setenta dias,
tinham coincidido miraculosamente; constituíram a Septuaginta - “Os Setenta” -, cujo texto há de espalhar-se por toda parte. A corrente universalista trazia consigo uma consequência normal: o proselitismo. Moderadamente na Palestina, mas muito ativamente na diáspora, atraíam-se as almas para o culto do verdadeiro Deus. Os espíritos rigoristas desconfiavam dos convertidos e, por outro lado, a todos os que queriam tornar-se verdadeiros filhos de Javé, era imposto o rito da circuncisão, diante do qual muitos recuavam. Nas comunidades nascidas de Jesus, logo se verificou o mesma dilema, transposto para o plano do cristianismo. Mas os elementos em choque pareciam menos claros, pois o que ressoa ao longo de todo o Evangelho é o grande grito libertador que chama todos os homens, sem distinção de origem, para os caminhos da conversão e da salvação. A lição fundamental era a que Jesus dera aos Apóstolos alguns dias após a Ressurreição: “Ide e instruí todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do filho e do Espírito Santo, e ensinai-os a observar tudo quanto vos mandei” (Mt 28, 19-20). Nunca Jesus ensinara coisa alguma que justificasse o isolamento, o particularismo ou o egoísmo “sagrado”. Mas, filtrada pelo espírito judaico, impregnada do orgulho tradicional – de certa forma legítimo -, essa doutrina generosa e aberta podia aos poucos retrair-se. “A salvação vem dos judeus”, dissera Jesus à samaritana (Jo 4, 22), e frases como essa caíam num terreno bem preparado para recebê-las. Deste modo, permanecia viva no interior da comunidade cristã a corrente que defendia a interpretação da Boa Nova em termos estritamente judaicos, que compelia a impor aos futuros conversos os mesmos ritos que aos prosélitos das sinagogas, especialmente a circuncisão, e que assim se arriscava a enclausurar a mensagem de Jesus nos apertados moldes de uma pequena seita judaica. Esta corrente era tão viva que o próprio São Paulo teve de tomar cuidado para não ferir as suscetibilidades que ela semeava nos corações. Mas tinha contra si a verdade do ensinamento de Cristo e a dinâmica da história. A tendência exclusivista acabará por ser vencida: os helenistas, isto é, os judeus convertidos universalistas, originários principalmente da diáspora, levarão de vencida os judaizantes, excessivamente presos a laços de fidelidades mal compreendidas. Isso, porém, não se chegará a fazer sem que o conflito entre ambos tenha agitado inúmeras vezes o destino da comunidade. Um incidente narrado nos Atos, apesar da maneira prudente como está redigido, permite ver claramente as consequências desta oposição. “Por aqueles dias, havendo crescido o número dos discípulos, houve queixas dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas daqueles eram mal atendidas na distribuição quotidiana.” (At 6, 1). Os helenistas receavam ser tratados como cristãos de segunda categoria, particularmente no momento em que se distribuíam as ajudas, e esse fato foi, no terreno prático, o resultado daquela tensão espiritual a que já nos referimos. Como as reclamações tornaram-se mais fortes, a comunidade cristã resolveu dar aos helenistas uma garantia para os atendimentos, nomeando uma espécie de funcionários escolhidos nos grupos de fora da Palestina; estes procurariam fazer reinar a equidade entre os dois grupos da Igreja, aliviando ao mesmo tempo os Apóstolos das tarefas administrativas. Instituíram-se assim os diáconos, por proposta do Doze e com o assentimento de toda
comunidade. Eram inicialmente em número de sete. Esses homens eram todos de origem helênica, como provam os seus nomes: Estêvão, Filipe, Prócor, Nicanor, Tímon, Parnemas e Nicolau; este último era até um prosélito de Antioquia, isto é, um grego convertido. Deste modo, os helenistas marcaram um tento importante. Tudo isso se realizou, certamente, por iniciativa dos Apóstolos, principalmente de Pedro, que veremos associado na sua ação a um ou outro dos diáconos, sobretudo a Filipe. Estes diáconos eram homens mais jovens, mais abertos, mais voltados para a propagação exterior da fé e menos enleados no conformismo hebraico. Representarão um impulso novo e vigoroso para a Igreja nascente. A história de Estêvão (At 6, 8 a 7, 60) mostra-nos bem esse elemento dinâmico que os diáconos trouxeram à Igreja. Era uma alma de fogo, transbordante de audácia, iniciador e modelo dessa imensa série de homens admiráveis que o cristianismo porá a serviço da sua causa, e que, tendo encontrado a vida em Jesus, julgarão inteiramente natural sacrificá-la por amor dEle. Helenista, talvez mesmo alexandrino de origem (É o que se supõe por causa do conhecimento que Estêvão parecia possuir das doutrinas de Fílon, que na época estavam em voga sobretudo em Alexandria, e também por empregar quatro vezes a palavra “sabedoria”, muito usada nos meios judaicos do Egito, de onde procede, aliás, o livro bíblico da Sabedoria.), conhecedor das doutrinas filosóficas dos gregos tanto quanto das tradições hebraicas, esse homem encarna maravilhosamente o espírito novo, voltado para a conquista e resolutamente disposto a enfrentar as necessárias rupturas. Melhor do que os judaizantes, ele sabe falar às pessoas de fora, mas também poupa muito menos a suscetibilidade dos velhos crentes da Tora. Aí está um perigoso adversário. Nem mesmo as gentes da diáspora se deixam iludir por um só momento: “Este homem não cessa de proferir palavras contra este lugar santo e contra a Lei” (6, 13). Reúne-se o Sinédrio. Naqueles dias – no ano 36 da nossa era -, as autoridades judaicas deviam sentir-se mais livres, porque Pôncio Pilatos acabava de ser chamado a Roma para explicar algumas violências recentes e muito flagrantes, e defender-se – mal – perante Calígula. Estêvão é trazido à presença dos juízes. Nem por um instante pensa em salvar a cabeça. Não trata de defender-se, mas de gritar a sua fé, tão alto que as suas palavras sejam ouvidas por todos; essa será sempre a atitude dos mártires. O discurso que pronuncia é belo, cheio de rigor e de força de raciocínio, ligando a mensagem de Cristo a tudo o que a anuncia nas Escrituras, e revelando-a como a conclusão necessária destas. Era demasiado! Estêvão sabe perfeitamente qual era a sorte que o espera. Vê antecipadamente os céus abertos e o Filho do homem sentado à direita do Pai. O procurador romano nada saberá dessa condenação à morte completamente ilegal e, seja como for, já nada poderá fazer. As pedras voam e atingem o diácono, que ora ao Senhor e lhe suplica que perdoe os seus carrascos. A um canto, um jovem estudante fariseu acompanha a cena com um ricto na face; seu nome é Saulo, e encontra-se ali para guardar as roupas dos verdugos. A perseguição que se desencadeou com a execução de Estêvão não paralisou o apostolado cristão. Os helenistas, mais especialmente visados, abandonaram a Cidade Santa e procuraram um asilo provisório nas suas regiões de origem. Deste modo, o
que deveria ter destruído a propaganda cristã acabou por favorecê-la consideravelmente. “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia, na Samaria, e té os confins da terra”. (At 1, 8), dissera Jesus aos seus fiéis, e a profecia do Ressuscitado ia-se realizando. No começo, a propaganda cristã tinha-se limitado apenas aos meios judaicos, tanto palestinos como helenistas. Foi uma primeira fase, necessária para assegurar bases sólidas ao movimento. Os diáconos parecem ter desempenhado um papel importante na expansão do Evangelho para fora dos limites estreitos de Jerusalém. Há sobretudo um, Filipe, cuja ação e métodos emergem claramente da narrativa dos Atos.  Em contínuo movimento, plenamente disponível à ação do Espírito e sabendo aproveitar todas as circunstâncias, é um propagandista admirável, como desejaria tê-lo qualquer empresa humana: um desses pioneiros que desbravam o terreno e plantam nele as primeiras tendas, até que venham outros, mais amadurecidos, para explorar as suas conquistas e erguer as construções definitivas. Dois milagres realizados em terras de filisteus contribuem poderosamente para aumentar a irradiação da nova crença: a cura de um paralítico em Lídia e a ressurreição de uma mulher em Jope. Assim a fé começa a sair dos meios helenistas para atingir as próprias almas estrangeiras. E é então que ocorre um episódio que, em certo sentido, pôs em jogo todo o futuro da Igreja. Os Atos referem-no detalhadamente (caps 10 e 11), o que prova suficientemente a importância decisiva que o seu autor lhe atribui. (Ler estes capítulos). As leis sobre a pureza e impureza dos alimentos, tais como a Torá as formulava, podem parecer-nos de medíocre importância, mas não o eram para um israelita de então; o mais humilde dos crentes, como os sete irmãos mártires do segundo livro dos Macabeus (cfe. 7, 2), preferia morrer a transgredi-las. Pedro via-se, pois mergulhado numa grande agitação interior quando os mensageiros de Cornélio bateram à sua porta. Este fato teve uma importância capital. Em Jerusalém, os elementos judaizantes mostravam-se apavorados. Quando Pedro regressou, assaltaram-no com perguntas e recriminações. O conflito entre as duas tendências fundamentais, a particularista e a universalista, resolvia-se, pois, neste caso, a favor da segunda. É certo que, aos olhos dos judaizantes, se tratava apenas de uma exceção justificada pela têmpera moral de Cornélio, e a resistência a novas transgressões da Lei será tão grande que o próprio Pedro terá de recuar em algumas ocasiões. Não importa. Estava tomada a opção decisiva, que o gênio de São Paulo confirmará mais tarde. Nas coisas humanas, acontece frequentemente que, no exato momento em que se impõe uma mudança de orientação, certas circunstâncias estranhas à vontade provocam a decisão necessária e constrangem o espírito a romper com os processos antigos. É assim, por exemplo, que na vida das nações a política externa pesa sobre a política interna com uma força às vezes decisiva. Para a primitiva comunidade cristã, o difícil problema da escolha entre as duas tendências a que vimos aludindo dará um passo decisivo porque os acontecimentos exteriores irão constrangê-la a preparar o futuro, na própria hora em que os alicerces do passado estarão a ponto de ruir. A perseguição desencadeada pelo incidente de Santo Estevão nunca tinha cessado
completamente. No ano de 41, essa perseguição explodiu mais forte e mais sistemática, por vontade de Herodes Agripa I, agora rei de Israel. Desde a sua chegada a Jerusalém, este libertino - que não era tolo – alardeou um grande zelo religioso com o fim de conquistar as boas graças do povo. Flávio Josefo conta que, quando entrou na cidade, “imolou vítimas em ação de graças, sem esquecer nenhuma das prescrições da Lei”, e que “depositou no recinto sagrado uma cadeia de ouro que lhe fora oferecida por Calígula, a qual pesava tanto quanto a de ferro que Tibério lhe acorrentara as mãos reais”. Este zelo explica a sua atitude para com os cristãos. Pela primeira vez, a perseguição tomou um caráter sistemático que  nunca tiver anteriormente, já que as reações violentas à propaganda do Evangelho tinham sido apenas ocasionais. “Herodes Agripa pôs-se a maltratar os membros da Igreja. Matou à espada Tiago, irmão de João” (At, 12, 1-2). O próprio Pedro foi também preso na mesma época. A sua importância na comunidade devia ser notória, porque o rodearam de vigilância mais cuidadosa. Na prisão, era guardado por quatro grupos de quatro soldados cada um, que se revesavam por turnos, à espera de poderem julgá-lo logo que terminassem as festas da Páscoa. O capítulo dos Atos 12, versículos e a 19, tão vivo e ágil, permite-nos colher muitos pormenores interessantes sobre a comunidade primitiva. Vemos reunida a pequena assembléia de fiéis, agrupados durante a noite para escaparem da polícia, com a esperança posta unicamente em Deus. De um momento para o outro, a sementeira expande-se. Uma das comunidades cristãs do exterior vai abrigar grande número de fugitivos e assumir uma situação primordial: Antioquia, cidade grega, universalista por natureza, que substituirá Jerusalém como Capital da nova fé, deveria forçosamente arrastar essa fé no sentido em que ela já era levada. Este fato, que é de uma extrema importância histórica, manifestar-se-á claramente no dia em que a cidade santa de Davi cair sob os golpes dos conquistadores romanos. A colônia judaica era ali antiga e numerosa. Flávio Josefo fala de cinquenta mil almas, a quinta ou sexta parte da cidade, isto é, um bairro inteiro. Comerciantes, estes israelitas falavam a língua grega, viviam como gregos, mas preservavam a sua fé, reuniam-se nas suas quatro sinagogas e resolviam os litígios entre eles sob a direção de um Ancião, o Alabarca. Um detalhe relatado por São Lucas denota a importância de Antioquia: foi lá que pela primeira vez se usou o nome de cristãos. Talvez por razões administrativas, a menos que se tratasse de uma alcunha, pouco usada a princípio. Os próprios Atos, fora a frase em que assinalam a palavra uma outra vez (26, 28), e não a encontramos nos textos primitivos a não ser numa Epístola de São pedro (4, 16). Seja como for, a sua significação é clara: como se havia de designar aquela gente que aumentava em número e que dava que falar? Judeus? Nem todos o são, antes parecem ser de uma espécie particular. Reclamam para si o Chrestos? Sejam então cristãos. A mais antiga tradição da Igreja Católica, tal como é sublinhada pela celebração, a 22 de fevereiro, da festa da “cátedra de São Pedro em Antioquia”, associa ao desenvolvimento desta comunidade a recordação formal do Príncipe dos Apóstolos. A permanência de Pedro em Antioquia é certa (cfe. Gal, 2, 11).
Jerusalém, Antioquia e Roma, essas teriam sido as três etapas pelas quais passou o cristianismo, desde a pequena e fechada comunidade da Cidade Santa até o universalismo da cathedra Petri. Seja como for, maravilhosamente situada para que a Palavra se projetasse em todas as direções, Antioquia vai desempenhar um papel fundamental num momento em que se torna necessário ampliar a propaganda cristã. Daí em diante, o cristianismo voltar-se- á para horizontes mais vastos do que os da Terra Prometida. Jerusalém pode desaparecer, porque os caminhos do Senhor estão já preparados. Enquanto a nova fé se prepara para espalhar pelo mundo uma luz incomparável, na Palestina tem-se a impressão de que o seu desenvolvimento está paralisado. A partir dos anos 50, já não se vê na Terra Santa a animação entusiástica dos primeiros tempos. As comunidades primitivas agora parecem vegetar na sombra, e mesmo Jerusalém já não brilha com um fulgor tão vivo. Em Israel, havia um estado de tensão que exaltar-se-á mais com uma seita revolucionária, de tendência extremista: os sicários, que por conta própria se tornara justiceira. Flávio Josefo diz que tinham “um amor fanático pela liberdade e não reconheciam outro senhor senão Deus”. Pagãos, samaritanos ou judeus aristocratas, julgados cúmplices de Roma, eram as vítimas certas do seu terror expeditivo. Neste povo, simultaneamente exasperado pela dominação romana e agitado por inúmeros sonhos, a violência não cessava de aumentar. “Uma profecia ambígua, encontrada na Sagrada Escritura e que anunciava que nesse tempo um homem da sua raça dominaria o mundo”, isto é, um messianismo compreendido às avessas – tal foi, segundo Josefo, a causa profunda do drama em que Israel havia de soçobrar dentro em breve. Apesar da perseguição de Agripa, a Igreja de Jerusalém tinha continuado a viver, sempre dirigida por Tiago, “o irmão do Senhor”, que pelo seu eminente espírito de justiça era chamado Oblias, isto é. “escudo do povo”. Cerca de 20 anos mais tarde, por um motivo que nos é desconhecido, o ódio anticristão explodiu. Em 62, o sumo sacerdote Anás, filho daquele sob cujo pontificado Jesus fora crucificado, julgou-se suficientemente forte para dar cabo da seita cristã. Mandou prender Tiago e denunciou-o ao Sinédrio. Por Josefo e pelo memorialista e historiador cristão Hegésio, que escreveu em meados do século II, conhecemos os pormenores do drama. Fizeram Tiago subir ao pináculo do Templo e ordenaram-lhe que renegasse Jesus. Perante a sua recusa solenemente proclamada em termos semelhantes aos que Estevão utilizara, despenharam-no lá do alto. Como não tivesse morrido, apedrejaram-no e, finalmente, apesar de alguns protestos generosos, puseram termo à sua vida com a pesada maça de um pisão. Foi uma execução ilegal, que vale a Anás a deposição do sumo pontificado. Inicia-se um período violento, exasperados pela brutalidade e cupidez de dois procuradores sucessivos, Alvino (62-64) e Géssio Floro (64-66), fanatizados pelos zelotes, os judeus revoltaram-se. Houve tumultos em Cesaréia e agitações em Jerusalém, que Roma, a princípio, não tomou a sério. Aos poucos a situação foi tornando-se mais complicada e Roma iniciou represálias. A começar por Anás, os chefes dos sacerdotes caíram sob os golpes dos judeus fanáticos. No decorrer do inverno de 66-67, o legado da Síria, inquieto com o rumo dos acontecimentos, chegou pela costa com doze legiões e avançou até os muros de Jerusalém, mas,
fustigado pelas guerrilhas judaicas, teve de bater em retirada. O povo eleito julgou ter readquirido de um só golpe a glória dos Macabeus, e cunharam-se em Jerusalém moedas de prata datadas do “primeiro ano da liberdade”. Roma não podia tolerar essa estado de coisas. Na primavera de 67, Nero mandou para lá Vespasiano, exímio general, que devastou planícies da Galileia com sessenta mil homens. Dois anos se passaram, marcados pelas agitações que se seguiram à morte de Nero; na Páscoa de 70, Roma mais uma vez resolveu pôr ponto final no assunto. Vespasiano enviou seu filho Tito com todas as forças e máquinas que eram necessárias. Quando, cindo meses mais tarde, após indescritíveis cenas de horror, o cerco chegou ao fim, Jerusalém estava em ruínas, o Templo queimado e milhares de cadáveres rolavam sob as patas dos cavaleiros núbios a serviço de Roma. A Judeia tornou-se uma província romana, separada da Síria e ocupada por uma legião aquartelada em Jerusalém. Desapareceram o Sinédrio e o sumo sacerdócio. Ironia cruel: Roma exigiu que se continuasse a pagar o imposto ritual que todos os judeus do mundo deviam recolher para a sustentação do Templo, e transferiu-o para o tesouro de Júpiter. Teriam estes terríveis acontecimentos perturbado muito os cristãos espalhados pelo Império? Não se sabe. Os primeiros convertidos conservaram laços estreitos com Jerusalém, metrópole espiritual; mas, pouco a pouco, esses laços foram afrouxando. Acreditando em Eusébio, “o povo da Igreja, em Jerusalém, teria sido avisado por meio de uma profecia de que era necessário abandonar a cidade antes da guerra e ir habitar na Peréia, na cidade helênica de Pela. Foi para ali que se retiraram os fieis de Cristo saídos de Jerusalém”. Esta medida salvadora deve ter sido ordenada por Simeão, um dos filhos de Cléofas (outro parente, portanto, de Jesus), que tinha sucedido a Tiago. A tomada de Jerusalém contribuiu para exasperar ainda mais as relações entre cristãos e judeus. A partir desse momento, o antagonismo tornou-se manifesto. Tácito parece partir dessa presunção nas suas “Histórias”, quando conta que, num conselho de guerra realizado em 9 de agosto do ano 70, em que se discutiu a conveniência de destruir o Templo, Tito evocou “a luta de uma das seitas contra a outra, apesar de sua origem comum”. Foi então que, começando a compilar as tradições que serviriam de base para a posterior redação do Talmud, os judeus deram vazão ao seu ódio contra os novos fieis, “apóstatas e traidores”. Ainda a respeito deles o rabi Gamaliel, o segundo desse nome, e Samuel, o Pequeno, introduziram por volta do ano 70 o versículo que ainda hoje se pode ler na célebre oração do shémoné Esré: “Pereçam num instante o nazareno e o minim”, isto é, os cristãos. Precisamos nos deter sobre uma personagem muito especial da Igreja Primitiva: Saulo de Tarso, o grande pregador dos gentios São Paulo. Como nos impressiona, a nós que ainda caminhamos, este homem que a Luz derrubou na estrada, vencido mas feliz com a própria derrota no mais íntimo do seu coração! De todos os personagens do Novo Testamento, este é, depois de Jesus, o mais vivo, o mais completo, aquele cujo rosto distinguimos com mais clareza. Os problemas que o atenazaram são os mesmos que eternamente nos dilaceram. E quando ouvimos a menor das suas palavras, reconhecemos nela esse tom de confidência inesquecível que só alcançam aqueles que arriscam tudo. 
Quando de sua “queda” era ele um jovem de menos de trinta anos, um judeu baixinho de aspecto pouco glorioso. Um apócrifo grego do século II, denominado Atos de Paulo, deixou-nos a seu respeito uma descrição pouco lisonjeira: “Era de estatura média, baixo e rechonchudo, com as pernas tortas, a cabeça calva, as sobrancelhas espessas e muito juntas, o nariz arqueado”. A imagem é característica da sua raça. Mas uma estranha força emanava deste rosto, do qual também se diz que tinha mais de anjo que de homem. Vê-lo-emos movimentar-se durante toda a vida no meio de tensão e da luta. Nada daquilo que vem dos homens poderá abatê-lo: “Em tudo somos oprimidos, mas não sucumbimos. Vivemos em completa penúria, mas não desesperamos. Somos perseguidos, mas não desamparados. Somos abatidos, mas não perecemos” (2 Cor 4, 9) – eis o que legitimamente afirma de si próprio. Homem exigente e tenaz, possuía verdadeiramente aquela madeira de que Deus talha com gosto os santos. A cidade de Tarso, onde Saulo tinha nascido entre os anos 5 e 10 da era cristã, era uma destas cidades brilhantes e pouco austeras, como tantas outras que a conquista de Alexandre, o desenvolvimento da civilização helênica e depois o enriquecimento sob a pax romana, tinham feito pulular por todo o Próximo Oriente. Era uma cidade bela, antiga e próspera, e São Paulo havia de mostra-se orgulhoso do seu renome. Às suas origens remotas, que a história hoje atribui aos heteus e aos fenícios, estavam associados nomes fabulosos como Semírames, Sardanápalo e a própria Afrodite. Na fria água do seu rio banhara-se Alexandre, por ocasião de um breve intervalo na sua marcha fulminante através da Ásia, que havia de custar-lhe a vida. E meio século antes de que Paulo viesse ao mundo, em 41 antes da nossa era, os seus cais tinham visto desembarcar de uma faustosa galera, ornada de ouro e púrpura, uma jovem rainha, clandestina e pouco vestida, que vinha seduzir um ditador romano. Os judeus era ali muito numerosos, agrupados numa comunidade, como em toda a parte, não constituíam, no entanto, uma massa isolada, um gueto, mas participavam da vida pública, sob todos os seus aspectos, e da própria administração. Foi neste meio que o pequeno Saulo nasceu e cresceu. Uma tradição referida por São Jerônimo, nos seus Homens Ilustres, pretende que os pais do futuro Apóstolo procediam de Giscala, na Palestina do Norte, e tinham sido deportados para a Cilícia quando Varo, no ano 4 antes da nossa era, restabelecera brutalmente a ordem após os distúrbios da Galileia. “Hebreu”, no sentido mais geográfico do termo, o futuro Apóstolo teria sido levado para território grego no decurso da sua infância. O nome que lhe foi dado na circuncisão, Schaoul, que nós pronunciamos Saulo, provinha da tradição da sua tribo, a de Benjamim, cuja glória se tinha manifestado, mil anos atrás, com o primeiro rei de Israel. No tempo em que Saulo nasceu, pertencia à classe dos comerciantes ricos. A uma espécie de aristocracia provinciana e, melhor ainda, tinha obtido o direito de cidadania romana. O fato é tão importante que se torna necessário sublinhá-lo. Veremos São Paulo aproveitar-se dessa prerrogativa. Saulo crescerá, pois, numa cidade grega, como verá quem ler os seus escritos. O meio grego dar-lhe-á a língua, que ele utilizará com desembaraço, bem como uma cultura bastante vasta, que lhe permitirá citar não só uma frase do poeta Menandro, mas também versos do filósofo estoico Aretas ou do filósofo e poeta cretense Epemênides,
coisa que nenhum dos doze Apóstolos seria capaz de fazer. Nas escolas de Tarso, ensinava-se oficialmente a doutrina estoica, tal como Zenão de Chipre, Aratos da Cilícia, Crisipo e Apolônio, todos eles nascidos em Tarso, a haviam formulado. E que chegaria até nós sobretudo por meio de Sêneca. Quanto às formas religiosas, que em Tarso como em todo o Oriente se misturavam num sincretismo tão apaixonado como confuso, parece ainda menos plausível que elas tenham impressionado um adolescente que em tudo se nos mostra fiel ao culto de Javé e à santa Torá. A verdade é que Saulo cresceu no meio espiritual do mais puro judaísmo, total e profundamente fiel. A sua família pertencia à seita dos fariseus, e isso foi para ele de uma extrema importância. Quando Saulo tinha quinze ou dezesseis anos, seus pais enviaram-no a Jerusalém, a fim de frequentar os cursos do maior rabino fariseu daquele tempo, Gamaliel, que, se distinguia pela sua abertura de espírito e generosidade. Sentado no chão aos pés do doutor, Saulo terá escutado durante anos aqueles ensinamentos minuciosos e intermináveis. E se desse mestre, pelo menos de entrada, não recebeu a mansidão, recebeu certamente os métodos de uma dialética prodigiosamente sutil e talvez também determinados conceitos sobre a natureza humana, a vida e a morte, a natureza e o pecado. Mais tarde, deixará cair o que havia de murcho nessa casuística, mas saberá utilizar o método e, principalmente, conhecerá por experiência própria o perigo de um certo dessecamento do Espírito inerente à interpretação literal. Pelas suas próprias origens, Saulo aparece, pois, como verdadeiramente predestinado para o papel que havia de assumir. Os homens destinados a modificar profundamente o curso da história apresentam sempre um caráter similar: estão ligados pelas suas mais secretas raízes à sociedade que combatem, e ao mesmo tempo descobrem por experiência pessoal o que é preciso destruir e substituir. Durante longos anos, vai apenas preparar-se para a tarefa que o Mestre lhe designou. Medita, aprofunda os conceitos, define posições e adquire experiência apostólica. Foram anos de aprendizagem muita intensa, a julgar pelos resultados! Depois de sua queda, voltou a Damasco e começou a falar do Messias e da sua fé nas sinagogas.  De Damasco, Saulo subiu a Jerusalém, onde o esperavam outras experiências não menos instrutivas. Ia tomar contato com as testemunhas do Ressuscitado e estabelecer com elas relações de confiança. Mas foi a desconfiança que o acolheu. Como era de esperar, a pequena comunidade dos primeiros fieis, que guardava ainda vivas lembranças do perseguidor, relutou em dar crédito à sua visão e à sua conversão. A suspeita só veio a arrefecer quando Barnabé – cuja autoridade, era grande na jovem Igreja, e que, sendo de origem cipriota, talvez conhecesse aquele natural de Tarso – se responsabilizou por ele. Saulo foi então recebido e, a partir daquele momento, “permaneceu com eles, saindo e entrando em Jerusalém, e pregando destemidamente o nome do Senhor (At 9, 28). Mas, logo a seguir, surgiram novas dificuldades. Ele mantinha relações com os helenistas, o que pode ter determinado o envolvimento de Saulo na discussão entre as duas tendências da Igreja de Jerusalém e que tenha tomado partido pelos helenistas contra os judaizantes. No momento em que a situação se tornou bastante tensa, uma
nova manifestação divina veio iluminar o Apóstolo. Jesus apareceu-lhe e ordenou- lhe: “Apressa-te e sai logo de Jerusalém, porque as gentes daqui não receberão o teu testemunho a meu respeito”. O antigo perseguidor baixou a cabeça, confessando, porém, que certas desconfianças lhe pareciam legítimas; mas Cristo ditou-lhe a sua verdadeira tarefa: “Vai, porque eu te enviarei para longe, aos gentios ...” (At 22, 17 e segs.). Quando Barnabé foi enviado pelos Apóstolos para inspecionar a nova comunidade da Síria, lembrou-se do jovem Saulo e levou-o consigo. Foi, portanto, em Antioquia que Saulo terminou sua formação “profissional” de apóstolo, sob a orientação de um homem de verdadeira sabedoria. Antioquia era então a cidade em que se preparava a indispensável expansão da propaganda cristã entre os gentios. Esta ação durou dois anos e acabou de preparar o Apóstolo para a sua tarefa, já que, logo após a sua permanência em Antioquia, partiu para as grandes empresas missionárias. Terminara o tempo de aprendizagem, e ei-lo agora armado e pronto para conquistar o mundo para a Cruz. Vemos, pois, o desengonçado missionário lançar-se doravante nessa existência errante e fecunda que será a sua pelos próximos vinte anos, até à morte, até ao martírio. Em vinte anos, quantos êxitos e que poucos reveses! Tudo aquilo que, no cristianismo primitivo, não é ainda senão pouco consciente e obediência instintiva às ordens do Mestre, vai transformar-se com ele em doutrina e método. O perseguidor que fora chamado no caminho de Damasco vai ter um lugar providencial no destino da Igreja. A ação de São Paulo divide-se em dois grandes períodos, conforme as regiões em que se desenvolveu. No primeiro período, limita-se à região oriental que ficava mais próxima: a Ásia Menor e a Grécia, a bacia do Mar Egeu; no segundo, a partir do ano 60, as circunstâncias levam-no a trabalhar em Roma. Mas, em ambos os casos, atua fora da Palestina, entre homens que não vivem à sombra do templo, entre judeus “helenistas” e pagãos convertidos, “nações” às quais Jesus ordenara que fosse levado o Evangelho. De um período para o outro, os problemas mudarão e as perspectivas não serão as mesmas. Na segunda fase, o cristianismo nascente encontrar-se-á perante uma autoridade centralizadora, perante o funcionalismo imperial e o pragmatismo romano. No primeiro período, Saulo é atirado para o seio do mundo helênico, um mundo amassado com o espírito grego e a anarquia oriental, agitado há já três séculos pela inquietação religiosa, pela decadência moral e pelas ameaças sociais, um mundo a que Roma soubera impor a ordem administrativa, mas não a paz do coração. Distinguem-se geralmente três grandes viagens do Apóstolo, mas essa distinção parece bastante arbitrária. Realizadas quase sempre a pé, num total  que, em treze anos, ascende a cerca de vinte mil quilômetros. De 45 a 49, o Apóstolo leva a cabo a primeira missão: partindo de Antioquia da Síria, vai a Chipre, e depois à Ásia Menor: aos elevados planaltos da Panfília, da Pisídia e da Licaônia, a Derbe, a Antioquia da Pisídia, a Icônio e a Listra, para de lá regressar a Antioquia do Orontes. No fim do ano 49, vai a Jerusalém, onde se realiza uma reunião muito importante da Igreja: o “Concílio”. Tendo partido logo a seguir para a Ásia Menor e visitado as comunidades já estabelecidas, abriu um espaço para ir até a Galácia, para junto dos
povos celtas, que a antiga vida nômade dos arianos tinha atirado para essas terras longínquas. Depois, guiado pelo Espírito, atravessa o mar e vai á Europa, onde visita Filipos da Macedônia, Tessalônica, Atenas e Corinto; daqui embarca de regresso para Éfeso e Antioquia, no fim do outono de 52. Por fim – terceira viagem -, seis meses mais tarde, retoma em Éfeso a obra iniciada, volta à Grécia para rever os seus amigos de Corinto, chega até às bordas do Adriático e, depois – pelas ilhas da Ásia, Mitilene, Quios, Samos e Rodes, e pelos portos da Síria e Palestina -, regressa a Jerusalém perto do Pentecostes de 58, onde o espera o seu destino. E este mesmo homem, que vemos em contínuo movimento através de terras e mares, ainda encontra tempo para redigir esses textos definitivos que são as Epístolas, essas obras primas do pensamento cristão, verdadeiros monumentos do Espírito. Compreende-se perfeitamente que um homem destes tenha despertado dedicações e lealdades. Um arauto do Espírito, eis o que foi são Paulo. Mas é necessário perguntar imediatamente: de que Espírito? Porque há muitas maneiras de fazer uso dos “valores espirituais”, alguns dos quais não passam de jogos de palavras. O Espírito, segundo São Paulo, nada tem que ver com aquele espírito abstrato e lógico que os filósofos perseguem. Não é a sombra da caverna platônica. Não é um sonho nebuloso. O Espírito a quem ele serve é esse que dá sentido à vida, que atua dentro do homem com um poder transformador e que se deve manifestar no próprio seio da sociedade e da história. É o Verbo de Deus, que se fez homem tomando carne de uma mulher, que viveu e que morreu na Cruz. O aspecto fundamental do cristianismo – o fato de ser ao mesmo tempo uma explicação transcendente do mundo e uma força imanente de ação no real – é apresentado com perfeição pela mensagem de São Paulo. Por isso, ao considerarmos o conteúdo do que o Apóstolo trouxe ao mundo, não devemos proceder como se se tratasse da doutrina de um filósofo cujo esforço se reduz a passar o seu pensamento para uma obra escrita. Estudar a sua teologia, a sua moral e a sua metafísica à margem das condições concertas em que foi levado a formulá-las e à margem do valor de compromisso que elas comportam significa falsear todas as perspectivas. Não existe um “paulinismo”, pelo menos no sentido em que se diz que há um “kantismo” ou um “bergsonianismo”. O que existe é um homem que reage perante dados precisos que os acontecimentos lhe oferecem, mas cujo pensamento é tão genial, tão maravilhosamente coerente e manifestado segundo uma ordenação tão clara, que chega a parecer-nos preestabelecido. Ao entrar em ação, o Apóstolo teve de enfrentar desde o começo um problema decisivo, que preocupava a cristandade primitiva: aquele que, num plano tático, aflorava nas relações entre “helenistas” e “judaizantes”; e que, numa perspectiva mais vasta, se manifestava pela necessidade de escolher entre o quadro estreito de uma pequena seita judaica e o horizonte sem limites da visão universal de Jesus. Tanto pela sua formação como pela sua origem, era um judeu completo. Estudara a fundo, entre os fariseus, as Sagradas Escrituras. Mas, ao mesmo tempo, o judeu Saulo encontra-se preparado para sair dos moldes muito estreitos de Israel. A sua cidade natal, Tarso, é demasiado percorrida por
influências ocidentais para que ele não tenha sentido o vento vindo do mar. Gamaliel, seu mestre fariseu, sempre dera mostras de um espírito aberto e nada sectário. Paulo ingressa assim, com o melhor de si, na corrente universalista que ultrapassa a tradição dos antepassados, corrente que muitos tinham esquecido, mas da qual ele vai extrair uma síntese maravilhosamente fecunda, graças ao seu gênio. Quando no ano de 49 se reúne o concílio de Jerusalém, provavelmente a seu pedido, qual será a sua intenção? Simplesmente colocar a Igreja em face do problema. A questão é demasiado grave para poder continuar  ser encarada de viés e ao sabor das circunstâncias. Aquilo em que Pedro consentira excepcionalmente, no caso do centurião Cornélio, em Cesaréia, e aquilo que a comunidade de Antioquia decidira também, é necessário que se converta num verdadeiro princípio da propaganda cristã. Está certo que os judeus que se tornem cristãos guardem as práticas legais e que, especialmente, conservem a circuncisão; mas não se poderá exigir que os pagãos que queiram converter-se abracem primeiro o judaísmo. É a esta decisão que se liga a primeira assembleia da Igreja. Nada indica que entre Paulo e os Apóstolos, depositários da mensagem de Jesus, tenha havido contradição sobre este ponto essencial. Pelo contrário, o acordo foi rapidamente selado: “Tiago, Cefas e João, que eram considerados as colunas da Igreja, deram as mãos a Barnabé e Paulo, em sinal de comunhão” (Cfe Gal 2, 9). O Apóstolo das Gentes conservará essa mesma atitude durante toda a sua vida. Quando em Antioquia, Pedro parece tomar o partido dos judaizantes mais fechados e desviar-se do cristianismo universalista, é Paulo quem o repreende com uma firme amizade. Conforme esclarece Tertuliano, não se tratava, da parte do Príncipe dos Apóstolos, senão de “um erro de atitude e não de um erro de doutrina”; mas poderia vir a ter consequências graves, e São Paulo evitou que ele o cometesse (cfe Gal 2, 11). Do ponto de vista prático, podemos afirmar que São Paulo lançou o cristianismo no seu verdadeiro caminho. O futuro do cristianismo – unicamente isso – é o que o grande apóstolo considera. Conhece as inúmeras dificuldades que encerra. É na Grécia que Paulo encontra o primeiro dos problemas que o cristianismo terá de resolver quando, oriundo dos meios judaicos, tentar penetrar no paganismo intelectual, o das escolas e dos filósofos. O adversário agora já não é o legalismo formal, que aprisiona a alma dentro de uma armadura em que o Espírito estiola; é o humanismo pagão, “a sabedoria do mundo”, que pretende alcançar o divino unicamente pelos esforços da inteligência. Ou incluí-lo num naturalismo em que a sua transcendência se dissolve. Assim, a obra de São Paulo prova de uma maneira brilhante como uma doutrina espiritual pode ser plenamente eficaz na sociedade humana, se esta se submeter completamente aos seus princípios. Mas é preciso ir ainda mais longe e mostrar como os elementos teológicos mais essenciais da doutrina de São Paulo irão permitir que a Igreja nascente, chamada a suceder ao Império de Roma, realize as duas operações mentais que são o pressuposto mais elementar de qualquer revolução: a promoção de um novo tipo de homem e a projeção no futuro de uma nova sociedade. Resta-nos ventilar uma questão que tem dado lugar a posições inaceitáveis na crítica
contemporânea. Uns dizem que o verdadeiro “inventor” do cristianismo foi o judeu helenista de Tarso que, tendo-se apoderado de Jesus (o qual nunca teria acreditado que era Deus nem ensinado tantas coisas), teria alterado a sua verdadeira imagem para traçar-lhe o retrato teológico que conhecemos. Outros, sobretudo protestantes liberais, julgam poder opor o cristianismo de Jesus, puramente moral, “evangélico”, ao catolicismo de Paulo, dogmático e teológico.  Os fatos, porém, não coincidem com semelhantes teorias. Em primeiro lugar, São Paulo não cessa de referir-se a Jesus, de afirmar que procede dEle, que obedece à voz divina que lhe falou nas suas visões. E não é um artifício dialético: são afirmações que se confirmam objetivamente. O cristianismo já existia antes de Paulo se ter convertido. Pedro era o chefe em Jerusalém e Barnabé já tinha ensinado em Antioquia. Ora, Paulo foi plenamente aceito pelos demais fiéis, e não nos consta que se lhe tivessem oposto dogmaticamente. Se o cristianismo ensinado pelo Apóstolo das gentes não se tivesse inserido perfeitamente na linha tradicional, com que oposição não teria ele chocado? No âmago desta mensagem, no centro desta doutrina que ultrapassa toda a filosofia, encontra-se uma única realidade, aquela que, em última análise, transformará o mundo: a realidade de Jesus crucificado. Era a Jesus crucificado que são Paulo iria reunir-se na última faze de sua vida itinerante. A liturgia da Igreja, que associa são Pedro e são Paulo em dois dias de festa, 29 e 30 de junho (Pela última reforma do calendário litúrgico, comemora-se a festa dos Apóstolos São Pedro e São Paulo no dia 29 de junho), parece basear-se numa tradição muito antiga, pois estas datas foram escolhidas no tempo de Constantino para comemorar o traslado dos dois preciosos corpos para as catacumbas da Via Ápia, efetuado em 258. Mais tarde, talvez durante o século IV, enquanto São Pedro ia para o Vaticano, para o lugar em que fora supliciado. Paulo voltava para o lugar onde tinha prestado o seu derradeiro testemunho. A admirável basílica de São Paulo extramuros conserva a lembrança da “deposição” do Apóstolo das Gentes, enquanto os trapistas das Três Fontes, entre plantas viçosas e eucaliptos, velam pelo lugar onde correu o seu sangue. (As pesquisas arqueológicas realizadas sob a Basílica Vaticana entre 1939-50 e 1953-57 indicam que São Pedro foi enterrado no lugar onde hoje se encontra o altar. Numerosos graffiti, um deles com o nome do Apóstolo, outras inscrições tumulares e um altar do século II confirmam esta hipótese. Quanto ao túmulo de São Paulo, apesar de ainda não haverem sido feitas escavações no local, parece estar situado na Basílica de São Paulo extramuros. Por outro lado, é possível que a cabeça de São Pedro tenha sido levada para a catacumba de São Sebastião, situada ao lado da Via Ápia, por ocasião da perseguição de Valeriano (258). Uma inscrição do Papa São Dâmaso, datada de fins do século IV, diz que “São Pedro e São Paulo ali habitaram”, e inúmeras inscrições cristãs em honra dos Apóstolos provam que a sua memória também era venerada nesse lugar. O martírio de São Paulo rematava a sua vida e conferia-lhe o sentido último que ela exigia. A história vê no pequeno judeu de Tarso o mais eficaz militante que a Revolução da
Cruz possuiu nesses dias da sua origem; mas passados dois mil anos, nenhum dos seus ensinamentos se tornou vão, nenhum dos seus gestos se tornou ineficaz – sem dúvida porque essa Revolução está sempre começando. Quadro Cronológico: Acontecimento histórico: 41-54 Cláudio; 49 Cláudio bane os judeus de Roma. História cristã: 49 - Concílio de Jerusalém; 50 – 55 Evangelho (arameu) de Mateus; 55 – 62 Evangelho (grego) de Marcos; 63 Evangelho (grego) de Lucas; 64 Princípio da perseguição; 63 – 64 Os Atos dos Apóstolos; 49 (?), 52 – 66 Epístolas de São Paulo; 66 – 67 Martírio de São Pedro e São Paulo. Na Filosofia: 46 Nascimento de Plutarco de Queronéia; 61 nasce Plínio, o Jovem; 65 Sêneca forçado ao suicídio. Letras e artes: 54 nasce Tácito; 70 nasce Suetônio.
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