História da Igreja - Encontro 05

Encontro 05 – Do ano 97 ao ano 138
A segunda vaga de perseguições que veio ferir a jovem Igreja ainda se deveu essencialmente a uma vontade imperial: a de Domiciano. Apesar das eminentes qualidades que possuía e que, aliás, eram hereditárias na família dos Flávios, apesar da sua inteligência, do seu amor ao trabalho e do seu sentido das realidades e poder de criação, era de índole antipática e o exercício do poder agravou-lhe os defeitos em vez de os atenuar. Orgulhoso, egoísta e autoritário, transformou a sua tendência para a desconfiança em verdadeira mania, sempre que suspeitava de qualquer resistência à sua vontade; a sua vaidade, um pouco inferior à de Nero unicamente porque se manifestava de forma menos louca, teve como resultado uma crueldade análoga. Chegando ao poder em 81, quando contava ainda trinta anos, devido à morte prematura de seu irmão Tito, Domiciano não tardou em colocar sob suspeita as mais diversas classes dos seus súditos e, mal aconselhado pelas suas contínuas inquietações, acabou ele mesmo por entrelaçar todo o feixe de violentas oposições que se abateram sobre a sua cabeça em 96 e lhe deram a morte. Suspeitou da aristocracia romana, aos olhos da qual não passava de um simples arrivista sem quaisquer títulos – era neto de um agiota de província e irmão pouco brilhante de um general vitorioso -, e temia que os epigramas com que essa aristocracia lhe fazia uma pequena guerra ocultassem intenções mais precisas e subversivas. Suspeitou da classe intelectual, dos filósofos como Epicteto e Díon Crisóstomo, que se permitiam defender os direitos do livre pensamento e espalhavam as suas doutrinas em todos os meios. Suspeitou dos judeus que, apesar da destruição da sua cidade por Tito, em 70, e até por essa razão, não cessavam de proliferar em todas as partes do Império; muitos representantes deste povo, como a princesa herodiana Berenice e o historiador Flávio Josefo, tinham chegado mesmo a instalar-se na própria corte dos antecessores de Domiciano. Por último, suspeitou dos cristãos, cuja propaganda, ultrapassando agora os limites dos bairros mais humildes, se infiltrava na aristocracia e contaminava a própria família do imperador. A perseguição de Domiciano revela-nos um grande fato: nos vinte e sete anos que se seguiram à morte de Nero, a nova fé alargou as suas posições, subiu na escala social até as esferas superiores, e passaram a pertencer à Igreja membros da aristocracia como M.Acílio Glabrião, cônsul no ano 91. Mesmo no seio da gens flavia, Cristo deixou cair a sua semente. É muito possível que Tito Flávio Sabino, prefeito da cidade ao tempo de Nero e irmão de Vespasiano, tivesse recebido alguma luz evangélica; e Flávio Clemente, seu filho, primo de Domiciano, bem como sua esposa Flávia Domitila, pertencem já com certeza à “seita”, juntamente com os seus dois filhos, que eram os prováveis herdeiros do imperador. O furor de Domiciano desencadeia-se em 88, quando a aristocracia urdiu contra ele a revolta militar que Saturnino fez explodir no Reno, com o apoio de algumas tribos germânicas, mas que fracassou. A partir daí, feriu implacavelmente todos aquele que fosse suspeito de se opor ao autoritarismo imperial ou que não estivessem “na linha”. Julgados por um Senado aterrorizado e servil, todos os membros da nobreza que, de longe ou de perto, estivessem implicados no assunto foram condenados à morte, e alguns mais felizes ao desterro nas ilhas. Chegou depois a vez dos filósofos, alguns
dos quais fora executados; outros, como Epicteto e Díon Crisóstomo, foram banidos. Os adivinhos e astrólogos, cuja influência também era grande, tiveram a mesmo destino. Pensou-se a seguir nos judeus e nos cristãos. Neste ponto, Domiciano pôs em prática uma manobra cujo sentido até hoje não é claro. A partir da destruição de Jerusalém, o Estado romano cobrava “para Júpiter”, isto é, em seu proveito, o imposto ritual da didracma, que outrora todo o fiel da santa Torá pagava para o Templo. Mas, na verdade, as administrações de Vespasiano e de Tito não se tinham mostrado muito exigentes a esse respeito. Domiciano ordenou que a iníqua contribuição passasse a ser cobrada com extremo rigor; e deviam pagá-la não somente os judeus circuncisos, mas também todos aqueles que, segundo se pensava, “viviam como judeus”, isto é, os que acreditavam num Deus único; isso incluía os cristãos. Por que semelhante medida? Nessa época, já não era plausível uma confusão involuntária entre judeus e cristãos. Quereria o imperador provocar protestos e obrigar assim os cristãos a desmascarar-se? Ou tudo não passaria de um grande propósito meramente fiscal? Realmente, englobando os cristãos entre os que estavam sujeitos ao imposto, o Estado poderia ter em vista unicamente aumentar a receita, e teria sido apenas a frequência das recusas de pagamento que teria revelado à polícia a extensão já tomada pelo cristianismo e desencadeado a perseguição. Seja como for, não oferece dúvida alguma a intenção política de Domiciano na sua ação anticristã. Ao ouvir falar do futuro reino de Cristo, teria receado uma conspiração? Os primeiros a serem atingidos pertenciam à aristocracia: o cônsul Acílio Glabrião, cujo jazigo de família, na Via Salária, constitui a mais antiga necrópole cristã; Flávio Clemente, que há muito tempo estava sob suspeita por causa da sua “inércia” no tocante ao culto oficial e que, conforme diz Suetônio, foi condenado à morte “por uma suspeita muito leve”; e sua esposa Domitila, que foi desterrada para a ilha Pandatária e cujo nome designa ainda hoje um dos mais belos setores da Roma subterrânea das catacumbas. A suspeita imperial chegou ao ponto de mandar procurar na Palestina os descendentes daqueles que se dissera “rei dos judeus”, filhos humildes do Apóstolo Judas, e trazê-los a Roma a fim de os submeter a um interrogatório que, aliás, não levou à nada. Uma vez iniciada, a perseguição ganhou corpo e acabou por atingir todas as classes. Teria  a acusação de ateísmo lançada contra Glabrião e Clemente, isto é, de oposição aos deuses oficiais, servido de pretexto para outras acusações oficiais? Teria sido posto em prática o “instituto neroniano”? Não estamos bem informados nem sobre o mecanismo nem sobre os pormenores da perseguição. Desencadeada nos últimos anos do governo de Domiciano, de 92 a 96, deve ter sido muito violenta: o papa Clemente, dirigindo-se em 96 à Igreja de Corinto, apresenta como desculpa pela demora da sua resposta “as desgraças e catástrofes” que acabrunhavam a comunidade romana. Deve-se ter lançado mão de procedimentos muito semelhantes aos de Nero, se nos lembrarmos da tradição que, a propósito das provações de São João, evoca o suplício do caldeirão de azeite. E essa perseguição não feriu apenas Roma, mas todas as províncias, como o prova uma alusão de Plínio, o Moço, na sua carta a Trajano, e o texto do Apocalipse, obra que São João escreveu no próprio coração da tormenta,
durante a sua deportação para a ilha de Patmos, ainda sob os efeitos da emoção que o espetáculo dos mártires lhe havia causado. No momento em que findava o século I, o que a leitura do Apocalipse revela, através da orquestração grandiosa dos seus símbolos, é a trágica atmosfera em que o cristianismo se irá desenvolver, sob constantes ameaças e caminhando sobre o seu próprio sangue; é o nexo que começa a estabelecer-se entre a fé cristã e um não- conformismo religioso que podia fazer sombra aos poderes públicos, pois o Apocalipse diz que seriam mortos aqueles que não adorassem a Besta e a sua imagem; é, por fim, a rejeição – de que determinados elementos cristãos começam a tomar consciência – dessa Roma que embriaga todo mundo com o vinho da sua impureza e que embebe as suas vestes no sangue dos fiéis. No espaço de trinta anos, tornam-se já singularmente precisas as posições de Roma e do cristianismo nas suas mútuas relações. Um elemento diferente do político vai tornar a situação dos cristãos ainda mais perigosa: é a hostilidade popular, que não procede de qualquer propósito racional, mas que saberá espiar e atacar os cristãos em todos os tempos e em todos os lugares. Essa hostilidade existiria já no tempo de Nero? Parece que sim, se tivermos presente a referência de Tácito a “pessoas odiadas pelas suas infâmias” (É preciso ter em conta, porém, que Tácito escrevia por volta do ano 116, isto é, numa época em que há inúmeras provas dessa hostilidade). Seja como for, a verdade é que, à medida que o cristianismo se desenvolver, o ódio irá crescendo e passará a alimentar-se de um conjunto de falsas acusações, calúnias abjetas e invenções cujo absurdo e horror fariam rir, se não se soubesse que muitas vezes tiveram as mais trágicas consequências. Que razões profundas teriam determinado esta corrente anticristã? Houve, sem dúvida, muitos fatores que contribuíram para ela: a austeridade com que os fiéis viviam e que demonstravam pela sua conduta; a condenação, ao menos implícita, que assim lançavam sobre as diversões imorais dos seus contemporâneos; o segredo de que rodeavam as suas reuniões, frequentemente noturnas e subterrâneas; o desprezo que o povo sente por tudo o que é humilde e pobre, não avalizado pela fortuna; e, por último, à medida que as perseguições se estendiam, o prazer feroz da denúncia e do assassinato, o sadismo da população. Quando a vox populi se faz ouvir – contrariamente ao adágio – nem sempre é a voz de Deus, nem mesmo a da razão e do bom senso. É provável que os ritos cristãos, muito mal conhecidos e vilmente interpretados, se prestassem aos piores equívocos. O sacrifício eucarístico, com fórmulas como “este é o meu corpo, isto é o meu sangue”, podia sugerir algum ato canibalesco. A familiaridade entre os irmãos e irmãs, assim como o ósculo da paz que se trocava nas assembleias cristãs, podiam fazer pensar em relações ilícitas. A carta na qual a Igreja de Lyon contará o drama de seus mártires é bem instrutiva a este respeito: escravos pagãos de senhores cristãos, presos pela polícia e submetidos a tortura, caluniaram os seus se hores. “Faríamos repastos dignos de Tiestes e seríamos incestuosos como Édipo. Acusavam-nos de horrores tão monstruosos que não podemos repeti-los nem pensar neles, nem mesmo acreditar que seres humanos alguma vez os tenham cometido”.
Essas fábulas odiosas hão de ter longa vida, pois proliferarão durante todo o século II. Por volta do ano 150, Frontão, teórico notável mas não genial, que conta Lúcio Vero e o futuro imperador Marco Aurélio entre os seus discípulos, afirma gravemente que está informado de que os cristãos envolvem uma criança em farinha e obrigam o neófito a varar-lhe o coração e a beber o seu sangue; e que depois a assembleia divide freneticamente entre si o corpo da vítima. A este quadro acrescenta-se o das orgias coletivas e das grandes luxúrias a que se entregariam os componentes da seita detestada, uma vez apagadas as luzes! Era voz corrente que os fiéis da nova religião adoravam um deus com cabeça de asno; em 1857, descobriu-se no Palatino um precioso grafitto, conservado hoje no museu Kirchner de Roma, gravado em estilete sobre o estuque de uma casa, e que representa um asno crucificado, com a legenda: “Alexamenos adora o seu deus”. Qual seria a origem deste gracejo, que já antes se dirigia contra os judeus e que passou depois a ser empregado também contra os cristãos, acrescentando-lhe o pormenor da cruz? É possível que as pantomimas e as comédias, em que os atores vestiam máscaras ridículas com cabeça de asno, tivessem contribuído para isso.. Ou talvez se tivesse feito uma aproximação com o deus Set do egípcios, que era uma divindade semi homem, semi asno; realmente, certos gnósticos identificaram Set com Cristo, um e outro chamados “filho do homem”. É sabido também que a opinião pública gosta de encontrar bodes expiatórios sempre que sobrevém uma calamidade. Já Nero o compreendera. É preciso, enfim, tomar em consideração determinados interesses materiais que eram lesados pela propaganda cristã: os dos negociantes de objetos piedosos e de animais para os sacrifícios, que evidentemente procuravam defender-se. Devemos sobretudo pensar nas querelas particulares e nas inconfessáveis invejas que, sob a cor da fidelidade aos deuses e ao abrigo das leis, provocavam muitas e secretas vinganças. É todo este conjunto de sentimentos miseráveis que desencadeia frequentemente a ação anticristã. Foi no ano de 112 que se definiu pela primeira vez a posição jurídica do cristianismo no Império, graças a uma correspondência trocada entre o legado imperial Plínio, o Jovem, e o seu imperador Trajano. A carta do funcionário e o rescrito de Trajano constituem os documentos mais importantes sobre a controvertida questão do sentido e do alcance das perseguições. São também importantes pelas informações que nos dão sobre o desenvolvimento da propaganda evangélica oitenta anos após a morte de Cristo, e porque nos explicam a atitude de toda a dinastia antonina para com os cristãos, esse doloroso paradoxo de quatro soberanos verdadeiramente humanos e nada sanguinários que, durante o seu governo, deixaram correr sangue inocente. Ambos os protagonistas desta cena pertencem a esse tipo superior da Antiguidade cuja aspiração e princípios Terêncio resumiu no célebre verso: “Sou homem e nada do que é humano me é estranho”. Trajano é uma das mais nobres figuras que Roma conheceu no trono imperial; a harmonia dos seus traços, a dignidade das suas atitudes, a sua inteligência multifacetada, o seu amor ao trabalho, a simplicidade dos seus costumes e a afabilidade do seu trato compunham uma personalidade que se pode admirar em qualquer tempo. A sua humanidade revelou-se de inúmeras manerias: pela política social, fundando obras de assistência e instituindo o socorro às
crianças abandonadas; pelas suas decisões sobre matérias de direito penal, mandando limitar a prisão preventiva, suprimir dos processos as denúncias anônimas e julgar de novo todo aquele que, tendo sido condenado sem estar presente, viesse a entregar-se. Foi ele quem pronunciou a célebre fórmula que muitas das justiças modernas não querem reconhecer: “É preferível absolver um criminoso a condenar um inocente. Foi em justa homenagem às suas qualidades que o Senado lhe deu o cognome de Optimus. No Baixo Império, o advento de um novo imperador passará a ser saudado com esta fórmula ritual: “Que sejas mais feliz do que Augusto e melhor do que Trajano”; e na Idade Média, quando a lenda tiver embelezado ainda mais a sua imagem, contar-se-á que – favor único – o santo papa Gregório obteve de Deus que a alma do grande imperador fosse acolhida no céu. Quanto a Plínio, o Jovem, esse filho da mais amena região da Itália – pois nasceu em Como, nas margens desse lago aprazível -, hauriu na beleza e na doçura da sua terra natal aquele otimismo e aquela visão generosa do mundo que o arrastam à beneficência e ao amor dos homens. Ao longo de uma carreira extremamente brilhante – e o sucesso incita à bondade -, demonstrou sempre possuir as mais altas qualidades morais. No ano 112, Plínio escreve a Trajano. Faz um ano que se encontra como legado imperial nas províncias asiáticas do Ponto e da Bitínia, vasta região junto ao Mar Negro, onde tratava de restabelecer a ordem após alguns anos de administração senatorial bastante fraca. A natureza desta missão, a dificuldade das circunstâncias e o caráter de Plínio, um pouco hesitante e escrupuloso, exigem que ele se dirija ao seu superior sempre que se lhe depare qualquer assunto delicado. Foi o que sucedeu na questão dos cristãos. Quando se encontrava viajando pelo leste das suas províncias, o legado recebeu várias queixas a propósito dos seguidores de Cristo. Os templos estão desertos, negligencia-se o culto oficial e o comércio dos animais destinados aos sacrifícios decaiu bastante. Levam ao legado alguns membros da “seita” e ele é obrigado a julgá- los. Mas, como bom jurista, sente-se embaraçado. Todavia, conhecendo a jurisprudência antiga – o institutum neronianum e o que se seguiu -, resolve aplicar estritamente o princípio não é permitido ser cristão. Depois de ter feito os próprios acusados confirmarem por três vezes que eram cristãos, castiga-lhes a pertinácia criminosa e manda supliciá-los, à exceção dos cidadãos romanos, que envia a Roma. E de tudo isso presta contas, convicto de ter procedido bem. Mas o seu embaraço aumentou, porque em pouco tempo o caso assumiu proporções enormes. Aparece um acusado que os denunciantes afirmam ser cristão. Ele nega, ou então reconhece ter pertencido à “seita” mas estar desligado dela há muito tempo. Posto à prova, adorou a efígie do imperador e os deuses dos templos, e negou Cristo. Pensando nas acusações que se propagam sobre as cerimônias e costumes cristãos, o legado procura saber se esses apóstatas, no tempo em que eram cristãos, teriam cometido algum crime ou delito. Todos o negam, mesmo depois de submetidos a tortura, entre eles duas mulheres escravas que tinham sido diaconisas numa comunidade. Todos proclamam que a sua única falta como cristãos tinha consistido em reunir-se antes da aurora para entoar salmos á glória de Cristo, em jurar que nunca
seriam ladrões, assassinos ou adúlteros e em tomar uma refeição em comum – sempre que as autoridades não proibissem as suas reuniões. Nestas condições, a pergunta que Plínio formula ao imperador resume-se assim: “É o próprio nome de cristão que é punível?” Neste caso, será necessário mandar para a morte não só aqueles que se declaram seguidores dessa doutrina, mas também todos aqueles que se dispõem a renegá-la? E sugere claramente que uma política de clemência, incitando à apostasia, poderia ter muito melhores resultados quanto à paz religiosa da província. A resposta de Trajano a este relatório circunstanciado contrasta, na sua imperatoria brevitas, com o documento do funcionário: em três frases, fixa a linha de conduta que o legado deveria seguir no futuro: “Não devem ser procurados; se te forem trazidos e os reconheceres, devem ser punidos; mas aquele que negue ser cristão e o demonstre, por exemplo suplicando aos nossos deuses, mesmo que tenha tido conduta suspeita no passado, deve ser perdoado”. Os romanos tiveram sempre o extraordinário dom de exprimir em fórmulas singularmente concisas os seus princípios jurídicos. As duas frases centrais do rescrito de Trajano, completadas pela recomendação de se rejeitarem denúncias anônimas e de se manter a legalidade na acusação e nos processos, definem toda uma atitude jurídica, certamente hostil ao cristianismo, mas que não se pode considerar injusta nem desumana do ponto de vista de Roma. O rescrito de Trajano vai servir de base a toda a política dos seus sucessores em relação aos cristãos. Adriano, de maneira menos clara, confirma-lhe o sentido, ao responder a uma consulta do procônsul da Ásia: “Sim, deve-se aplicar a lei, mas não se deve ceder facilmente aos falatórios e às calúnias” Calma! Prudência! Parece ler-se entre as linhas deste novo rescrito, tal como citou Eusébio, a fórmula usual de muitos governantes que receiam mais a opinião pública imediata do que os riscos futuros: “Nada de zelos excessivos!”. Também o “pio” Antonino, tão reverente para com os deuses, não se mostrará de uma hostilidade mais sistemática. Evidentemente, aplicará a jurisprudência anticristã dos seus predecessores; é no seu reinado que tem lugar em Roma o interrogatório do mártir Ptolomeu, cuja brevidade trágica nos foi transmitida por São Justino: “És cristão? - Sou. - À morte!” Mas nenhuma medida revela que esse devoto pagão tivesse o menor desejo de ultrapassar Trajano na repressão. Numa palavra: durante toda a dinastia antonina (É curioso verificar que foi no governo de Cômodo, o último dos Antoninos e um verdadeiro monstro, que o cristianismo sofreu menos. Se houver algumas perseguições, nenhuma delas foi expressiva. E dele se conhece um indulto que concedeu aos cristãos que haviam sido condenados a trabalhos forçados na Sardenha. Obteve do bispo de Roma a lista desses infelizes e mandou um sacerdote romano libertá-los. Este ato deve ser lembrado em desconto dos seus pecados, que não foram poucos!), a perseguição anticristã denota apenas o duplo desejo de manter a ordem e não irritar a opinião pública. Na Ásia, dois príncipes da Igreja. No meio da imensa multidão de figuras heroicas que se erguem, ao longo do século II, com a fronte banhada em sangue, hesitamos em destacar uma ou outra, pois todas são igualmente dignas de veneração. Quereríamos enumerá-las exaustivamente: não só aquelas que a glória conservou e que são como marcos milenares nesta dolorosa
estrada, mas também as obscuras, as anônimas, que pavimentam com os seus corpos imolados a calçada pela qual Cristo avançou. Todas apresentam, aliás, traços tão constantes, no desejo do sacrifício e na firmeza da alma, que evocar umas é o mesmo que conhecê-las todas: desde o mais santo bispo ao mais humilde escravo, há sempre o mesmo conjunto de virtudes entrelaçadas num só feixe pelo heroísmo, pela fé e pela simplicidade. Dois homens se impõem logo de início à nossa atenção e são trazidos à plena luz não só pelas condições da sua morte (quase ousaríamos dizer que essas condições são e serão banais durante dois séculos), mas também pelo peso que uma obra intelectual eminente dá aos seus nomes e ainda pelo posto que ocupam na hierarquia: Inácio de Antioquia de Policarpo de Esmirna. Ambos são bispos, chefes de comunidades cristãs, e nesse tempo ser príncipe da Igreja não era coisa que desse muito repouso: o único benefício que daí advinha era o de estarem mais expostos a qualquer ataque. Nestas regiões da Ásia Menor e das ilhas vizinhas, onde o fanatismo religioso causava estragos há muito tempo, onde o culto imperial se firmara solidamente, sobretudo em Pérgamo, e onde a propaganda cristã, como vimos, tinha sido intensa e coroada de êxito, não é de admirar que o ódio anticristão fosse violento. E os dois príncipes da Igreja, Inácio e Policarpo, serão as suas vítimas mais célebres. É muito curiosa e atraente a fisionomia de Santo Inácio, um tipo admirável desses revolucionários da Cruz que não mastigavam as palavras, que olhavam os homens e as coisas de frente e que assumiam os riscos com uma lucidez sem rupturas. Não é sem razão que, pela etimologia, o seu nome faz pensar em fogo – ignis -, como já se observava no seu tempo. As suas cartas revelam um homem enérgico e empreendedor, pronto a entrar em combate pela fé e pela justiça; mostram-nos também, pelo estudo que fez da constituição da Igreja, um jurista e um administrador eméritos; e, quando lemos as suas meditações sobre Cristo e sobre a vida espiritual, descobrimos nele um teólogo e um místico notável. A ele pertence a admirável fórmula que depois seria adotada por tantas almas santas: “Realizemos todas as nossas ações com o único pensamento de que Deus habita em nós”. Tendo sido testemunha ainda muito próxima da geração apostólica, da qual conheceu vários representantes diretos, é um dos laços vivos que ligam a tradição cristã ao próprio Cristo, por intermédio de São Paulo ou mesmo de São Pedro (São João Crisóstomo, no seu Panegírico de Santo Inácio, afirma que ele foi designado bispo de Antioquia pelo próprio São Pedro; as Constituições Apostólicas, compilação do século IV, partem da base de que o foi por São Paulo). Nele vamos encontrar por inteiro toda a santa violência dos primeiros semeadores do Evangelho. Foi preso no tempo de Trajano, no decorrer das perseguições que assinalaram o começo desse governo e de que possivelmente foi vítima em Roma o papa São Clemente, terceiro sucessor de São Pedro, e certamente São Simeão, em Jerusalém (São Simeão, sucessor de são Tiago à frente da igreja de Jerusalém, tinha conseguido salvar o seu pequeno rebanho por ocasião da conquista da cidade por Tito. Era já de idade avançada quando, no ano 107, foi denunciado como cristão e como descendente de Davi, portanto parente de Jesus. Depois de ser submetido à tortura, foi crucificado). São pouco conhecidas as condições do seu processo, e não se sabe se a iniciativa do mesmo partiu do povo ou de algum magistrado local. Quanto às
circunstâncias do seu martírio, surgem tais contradições entre os diversos relatos que deles se fizeram em Roma e em Antioquia, que não é possível reconstituí-las. Quando muito, pode-se admitir que morreu no ano 107, talvez no Coliseu, então em fase de acabamento, por ocasião dos gigantescos espetáculos dados por Trajano para comemorar a sua vitória sobre os dácios, durante os quais foram chacinados cerca de dez mil gladiadores e onze mil feras. Mas, se nos faltam bastantes dados concretos, o que conhecemos maravilhosamente é a psicologia do santo e a sua alma iluminada. Chegaram até nós as suas cartas, tão numerosas e tão admiráveis que, na Igreja primitiva, serão consideradas quase canônicas e situadas um pouco abaixo das de São Paulo. São um dos monumentos do espírito cristão nestes primeiros tempos. Condenado em Antioquia, juntamente com os companheiros Rufo e Zózimo, o bispo é enviado a Roma para ali ser lançado aos leões. Conhecendo o destino que o espera, manifesta um fervor e um entusiamo tais que só uma explicação sobrenatural nos permite compreendê-los. Aos cristãos de Esmirna, escreve: “Debaixo da lâmina do cutelo ou no meio das feras, é sempre junto de Deus que estarei”. Cada um dos altos durante a viagem proporciona-lhe uma nova ocasião de propagar a palavra de Cristo. Em Esmirna, põe-se em contato com o bispo Policarpo, que o seguiria mais tarde na senda do sangue. E antes de chegar a Roma, envia à comunidade da cidade uma carta – que Renan considera “uma das joias da literatura cristã primitiva” - em que suplica aos fiéis que não façam nada para libertá-lo, para conseguir o seu perdão ou para evitar que seja supliciado. Perante a sorte mais terrível que se pode imaginar, o único receio deste homem é o de ser poupado ao seu destino. E exclama: “Deixai-me fazer o sacrifício enquanto o altar está preparado. Deixai-me ser presa das feras. É por meio delas que chegarei a Deus. Sou trigo de Deus, e, para que posa ser pão branco de Cristo, é preciso que seja moído pelos dentes dos animais”. A Catena aurea da nossa Idade Média oferecer-nos-á um símbolo legítimo quando afirmar – interpretando o sobrenome de Teóforo que Inácio usara enquanto vivo – que, ao abrirem o seu coração, encontram nele o nome de Cristo gravado em letras de ouro.
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