História da Igreja - Encontro 02

Encontro 02 – Os primeiros anos.



Nos últimos anos do reinado de Tibério, isto é, por volta do ano 36 ou 37 do nosso calendário, espalhou-se entre as colônias judaicas dispersas pelo Império um rumor que logo suscitou o mais vivo interesse. Quem poderia, pois, imaginar que uma obscura notícia, contestada com a mesma rapidez com que fora conhecida, e que a “asa do pássaro” levava aos quatro cantos do mundo, havia de abalar violentamente esse mesmo mundo? E que, em menos de quatrocentos anos, surgiria aos olhos de todo o Império como a revelação da Verdade? Essa extraordinária mensagem provinha de um pequeno grupo de judeus de Jerusalém. Quem os encontrasse nos átrios sagrados ou pelas tortuosas ruelas da Cidade Santa, nada notaria neles que os distinguisse dos demais fiéis. Dotados de uma fé viva e exemplar, eram vistos frequentando assiduamente o Templo, geralmente reunidos sob o Pórtico de Salomão (cf. At 5,12 e 3,11; cf. também Jo 10,23), ou recitando todos os dias as piedosas ladainhas das Dezoito Bênçãos, ao nascer do sol e à hora nona, guardando o sábado (Lê-se em São Mateus (24,20): “Orai para que vossa fuga não tenha lugar no inverno ou em dia de sábado”. 

É uma prova clara de que, na época em que o Evangelho foi escrito, a comunidade cristã observava o rigoroso descanso sabático.) e todas as prescrições rituais, e jejuando até duas vezes por semana (Enquanto Jesus vivia, os seus discípulos foram censurados por não jejuarem, ao que o Mestre responde: “Acaso os companheiros de bodas podem jejuar enquanto está com eles o esposo? Dias virão, porém, em que lhes será arrebatado o esposo, e então eles jejuarão (Mc 2,19-20). A Igreja Primitiva manteve o costume do jejum bissemanal, que fora introduzido pela seita dos fariseus, como se vê pelo monólogo do fariseu no Templo, na famosa parábola do fariseu e do publicano (cf. Lc 18,12), segundo o costume ancestral dos fariseus. (Os Fariseus. Os fariseus fazem de modo sensacional sua entrada na história no tempo de Alexandre Janeu (103 – 76 a.C.): ousam opor-se a este rei sumo sacerdote que lhes censura a influência sobre o povo; isto provocou o começo duma guerra civil de seis anos, durante a qual milhares de judeus foram crucificados pelo rei. Mas os fariseus saíram da guerra vitoriosos e exerceram grande influência no reinado de Alexandra. As origens deles são de fato mais longínquas: são relacionados com o grupo dos hassidim e com Esdras, o sacerdote. Os hassidim são os judeus piedosos (este é o sentido do termo hebraico) que, no tempo da restauração nacional animada por Esdras, entendem que não basta reconstruir o Templo, as muralhas e a cidade de Jerusalém, que é preciso também reconstruir uma vida espiritual capaz de animar essas pedras, uma vida espiritual fundada sobre o estudo da Lei para conhecer a vontade de Deus e sobre a oração. 

Esses hassidim são os transmissores, se não os criadores, de numerosos salmos. Durante a crise macabeia, esses piedosos não parecem unânimes: no começo, estão do lado de Matatias, mas desde o tempo de Judas Macabeu, alguns deixam o movimento, pois, a seu ver, a luta de Judas já tem um caráter mais político que religioso. Assim se vê esboçarem-se as diferenças entre três grandes correntes judaicas. Os saduceus exercem uma atividade política de compromisso com o poder, para recuperar tudo que podem; os zelotas recusam todo compromisso e lutam ativamente para expulsar o ocupante; os fariseus, próximos ideologicamente destes últimos, recusam o engajamento político ativo e pensam obter a salvação do povo e do país por sua piedade, favorecida por um estudo sério da Lei. 
É por isso que, por exemplo, aceitam o sumo sacerdote Alcimo, mesmo que ela já esteja imbuído do helenismo, porque com ele os sacrifícios rituais podem recomeçar no Templo e Deus é, portanto, de novo honrado. Esses fariseus, homens piedosos, conhecem bem a Lei, esforçam-se primeiro por vivê-la eles próprios e consideram como seu dever difundi-la ao seu redor, o que fazem, sobretudo na sinagoga. É lastimável que se tenha chegado a caricaturá-los como hipócritas e não se deve tomar ao pé da letra Mt 23: trata-se de um texto polêmico que muitos fariseus também aprovariam, conscientes de sua imperfeição. Desconfiança do poder e zelo pela educação das massas vão dar aos fariseus uma audiência enorme junto do povo miúdo, a tal ponto que os chefes deverão sempre levar em conta a sua opinião: o sumo sacerdote deve submeter-se à decisão deles, mesmo num ato tão estritamente reservado como o acesso ao Santo dos santos no dia do Kipur. Herodes Magno parece ter mais consideração para com eles do que para os saduceus: ao subir ao trono elimina diversos opositores, mas se contenta com impor uma multa aos fariseus que recusam o juramento. No século I da nossa era, se os procuradores parecem pender mais para o lado dos saduceus, os fariseus encontram forte apoio nos reis Agripa I e II; dado o seu lugar no Sinédrio, são eles verdadeiramente os defensores do povo e se apresentam como o primeiro partido que é ao mesmo tempo político e religioso. Oriundos do povo, constituindo um partido do povo, os fariseus procuram ser separados do povo (este é, ao que tudo indica, o sentido do seu nome): eles o consideram por demais ignorantes da Lei e sobretudo impuro, por não respeitar suficientemente a Lei de santidade, expressão da própria vontade de Deus. 

Desta Lei de Moisés, só uma parte foi posta por escrito, sendo o resto transmitido oralmente de Moisés aos profetas e depois aos sábios ou escribas (rabis), graças a um ensino esotérico que, no século I, torna-se cada vez mais importante. Essa Lei oral tem o mesmo valor ou até mais que a Lei escrita. E é na medida em que se respeita toda essa Lei, escrita e oral, que se adquirem os méritos necessários à salvação e ao envio do Messias que estabelecerá enfim o Reino de Deus, expulsando ao mesmo tempo os romanos e todos os outros ocupantes. O farisaísmo era o único movimento religioso que tinha profundidade bastante para resistir á catástrofe de 70; é dele que em Jâmnia, na costa mediterrânea, renascerá o judaísmo. Sete espécies de fariseus. Os próprios fariseus sabiam, com humor ferino, distinguir os bons e os maus dentre eles. 

Quatro textos do Talmude nos oferecem listas diferentes dos diversos tipos. Escolhendo livremente nesses quatro textos, eis alguns extratos que apresentam sete categorias de fariseus. - Os de costa larga: escrevem suas ações nas costas para se fazerem honrar pelos homens. - Os vagarosos: pretextam um preceito urgente a cumprir para retardar o salário dos operários. - Os calculadores que assim refletem: já que tenho em meu ativo muitos méritos, tenho com que pagar algum pecado. - Os econômicos: Que pequena coisa vou executar para aumentar meus méritos? - Os escrupulosos que perguntam a si mesmos: Que pecado oculto cometi para compensá-lo com uma boa ação? - Os fariseus do temor que agem como Jó. - Os fariseus do amor que agem como Abraão: esses são os verdadeiros.) Não pertenciam às classes dirigentes, aos príncipes dos sacerdotes ou aos anciãos do povo. Apenas algumas poucas personalidades de destaque, como Nicodemos, mantinham com eles relações de amizade. Na sua maior parte, eram gente humilde, saída da plebe, daqueles que os escribas instruídos e os ricos saduceus olhavam com suspeita e desprezo. Muitos deles eram de origem galileia, o que logo se notava pelo sotaque. Mas vinham também de outras regiões da Palestina, assim como das mais longínquas colônias judaicas em terras de infiéis, do Ponto, do Egito, da Líbia e da Capadócia (cf. At 2,9); encontravam-se até entre eles romanos e árabes: uma curiosa amálgama. (A Sociedade Judaica: o Clero, o Sinédrio, os Sacerdotes, os Levitas.

A sociedade Judaica. A terra pertence a Deus que a dá a seu povo; todos são iguais diante deles. Fora preciso inventar instituições como o ano sabático ou jubilar, para relembrar esta igualdade social pois necessariamente a cultura, a riqueza, a profissão criavam diferenças. Por outro lado, para os judeus, a lei civil não é outra senão a Torá, a Lei religiosa: os que são seus guardiães ou seus intérpretes, os sacerdotes e também os escribas têm, pois, por força das circunstâncias, um lugar mais importante. Neste apanhado das diferentes categorias sociais, começaremos pelo clero. Clero. No ápice da hierarquia: O Sumo Sacerdote. Desde o retorno do Exílio em 538 a.C., não havendo mais reis, o sumo sacerdote tornara-se pouco a pouco a chave da abóboda da sociedade judaica. É ele o responsável pela Lei e pelo Templo e é ele, por ofício, o presidente do Sinédrio. É o único que pode orar e expiar por todo o povo, o único que pode entrar, uma vez por ano, no coração do templo, no Santo dos santos, para a Expiação e a sua morte era considerada como expiatória, pois nesta ocasião os assassinos eram agraciados. Por causa das suas funções, o sumo sacerdote goza de grande dignidade, o que lhe vale uma situação financeira confortável: cada tarde, é o primeiro a escolher a sua parte entre as oferendas feitas ao Templo e destinadas aos sacerdotes. O sumo sacerdote é ajudado nas suas funções por certo número de funcionários chamados chefes dos sacerdotes: o Comandante do Templo, responsável pelo culto e pelo policiamento no santuário e que substitui o sumo sacerdote em caso de necessidade, os chefes das vinte e quatro secções semanais, os sete vigilantes do templo, responsáveis por toda a manutenção e os três tesoureiros. Todos esses cargos são ocupados pelos membros da família ou pelos amigos do sumo sacerdote. O Sinédrio. O grande Sinédrio (do grego synédrion, sentar-se juntos) é a corte suprema de Israel. Suas origens remontam sem dúvida à época persa e suas primeiras menções ao reinado de Antíoco III (223 – 187 a.C.). 

Foi instituído no tempo de João Hircano (134 – 104 a.C). Como nas cidades helenísticas, é um conselho que assiste o sumo sacerdote, chefe supremo da nação que é seu presidente. Compreende 71 membros: anciãos, os sumos sacerdotes depostos, sacerdotes saduceus e depois, cada vez mais, escribas fariseus. O Sinédrio é uma corte de justiça, julga delitos contra a Lei, fixa a doutrina e finalmente controla toda a vida religiosa. Os Sacerdotes. Em número de 7 mil mais ou menos, os sacerdotes são encarregados de oferecer sacrifícios no Templo e de conservar a sua parte central. Mas não há necessidade de tanta gente para atender às necessidades habituais do culto. 
Eles são, pois, divididos em 24 classes ou equipes, que ficam de serviço cada qual uma semana, cada uma na sua vez. Cada manhã desta semana, escolhia-se pela sorte aqueles que teriam uma função particular no culto. Somente por ocasião das três grandes festas de peregrinação é que todas as classes estão de serviço ao mesmo tempo: cada sacerdote, portanto, exerce seu sacerdócio no Templo cinco semanas por ano; o resto do tempo ele não tem nada que fazer, exceto sentar-se de vez em quando no tribunal de seu domicílio na qualidade de conselheiro, quando se julga um caso que exige a presença dum sacerdote. Esse clero é pobre. Suas rendas são constituídas de dois elementos: a parte retirada dos sacrifícios (cinco semanas por ano) e o dízimo. Assim, para sobreviverem, os sacerdotes têm de encontrar um ofício: são carpinteiros, talhadores de pedra, comerciantes, açougueiros. Alguns se dedicam ao estudo e se tornam escribas. Bem próximos do povo miúdo, tanto pelo salário quanto pelas condições de trabalho e de vida, muitas vezes não mais instruídos que ele, os sacerdotes comungam as ideias do povo. No momento da guerra judaica, muitos, ao que parece, farão causa comum com os zelotes: esperam que a saída dos romanos lhes trará melhor situação financeira e uma elevação de nível social. Esse sacerdócio é hereditário; transmite-se aos filhos sob duas condições: que a esposa seja uma verdadeira judia e não uma bastarda e que o filho seja física e mentalmente normal.

Os Levitas. Os levitas são os verdadeiros subproletários do Templo. São aproximadamente 10 mil, divididos também em 24 classes, com cinco semanas anuais de serviço. Mas seu salário, por esse serviço, parece inexistente: jamais tiveram direito à parte retirada dos sacrifícios e o dízimo que outrora lhes estava reservado (Nm 18, 8 – 32) foi-lhes confiscado, não se sabe quando, em benefício dos sacerdotes. Fora de seu tempo de serviço, exercem, como os sacerdotes, os mais variados ofícios. No Templo, estão divididos em dois grupos: os levitas músicos que se instalam entre o pátio dos levitas e o dos sacerdotes e animam as liturgias com seu canto e seus instrumentos, e os levitas porteiros que guardam e mantêm limpo o Templo (com exceção do pátio dos sacerdotes), controlam o acesso aos diferentes círculos de santidade, garantem o policiamento e a guarda no santuário. Esses dois grupos são rigorosamente distintos, pois, em princípio, aquele que cumprisse a tarefa destinada ao outro grupo poderia ser punido com a morte! Na época que nos interessa, cada um dos grupos se põe a reclamar uma promoção social que acontecerá em 64 d.C.: os músicos terão direito à veste distintiva dos sacerdotes, ao passo que os porteiros poderão aprender os hinos, como os músicos. Esta promoção concedida por Agripa II, que pretende rebaixar os sacerdotes, é muito mal recebida pelo povo, hostil a qualquer mudança.) (O Povo. Os anciãos, a classe média, o povo, os miseráveis, os escribas, a mulher. O povo. Sacerdotes e levitas formam uma das doze tribos de Israel, aquela que é consagrada a Deus. As outras tribos – ou o que delas resta – formam o conjunto do povo socialmente bem diversificado. Os anciãos. Essa palavra ancião engloba situações bem diversas. Quase não existe relacionamento entre os chefes duma aldeia que vivem exatamente como todo mundo e o pequeno grupo de anciãos que compõem o Sinédrio de Jerusalém. São esses últimos e seus pares que nos interessam agora: formam a aristocracia leiga de Israel, uma aristocracia bem reduzida em número, mas muito rica, graças a grandes propriedades ou ao comércio; em 66 d.C. três desses anciãos se comprometem a abastecer sozinhos a cidade de Jerusalém, por 21 anos, de trigo, cevada, vinho, óleo, sal e madeira. Esses grandes proprietários e negociantes necessariamente estão ligados com o principal mercado, quer dizer o Templo e seus dirigentes, os sumos sacerdotes. Estão associados também com o poder romano que sabe uni-los a si atribuindo-lhes postos de conselheiros e portanto um certo poder. Para Roma, esses conselheiros são excelentes arrematantes dos impostos indiretos: sua própria fortuna é a garantia de que de qualquer forma o imposto entrará para os cofres do império; por outro lado, bem administrado, o imposto se torna fonte de renda suplementar para os arrematantes. O nobre que recusasse esse serviço seria primeiro objeto de pressões amigáveis, depois de chantagem e, eventualmente, de confisco de sua propriedade! Em caso de oposição ao poder, corre-se até o risco de vida: Herodes matou 45 nobres que tomaram partido contra ele antes da sua chegada e esta prática não é desconhecida pelos romanos, mas ele se contentam muitas vezes em exilá-los confiscando seus bens! Muito ciosos dos seus privilégios, unida aos sumos sacerdotes como também a Roma, esta oligarquia é, segundo todos os testemunhos, saducéia. Parece, no entanto, que na Galiléia o partido de Herodes também tenha entrado nesse círculo. A classe média. Temos poucas informações sobre esta classe social de comerciantes e de artesãos: Em particular, as raras indicações que se tem sobre sua situação financeira provêm mais da lenda que da realidade. Globalmente, sua prosperidade depende do Templo. Os artesãos que trabalham diretamente para ela, - padeiros, alfaiates, perfumistas – são muito bem remunerados. Alguns se especializam nos bibelôs para os peregrinos ou nos mais diversos objetos de luxo, dos quais se faz grande uso por ocasião das festas. Há ainda todos os ofícios ligados à acolhida e à hospedagem dos peregrinos: hotelaria, abastecimento, transporte e vendas de mercadorias necessárias. O povo. Quanto mais se desce na hierarquia social, mais são raras as informações precisas: em todas as literaturas do mundo, fala-se pouco dos pequenos! Distinguem-se entretanto algumas categorias.
Os pequenos proprietários agrícolas contentam-se, com freqüência, de consumir seus produtos ou de fazer alguma troca para obter o que lhes falta: isso evita as taxas nos mercados. Na Judéia e na Samaria, parece que as lavouras são pequenas, de tipo familiar. Muitas vezes, só o filho mais velho pode herdar o sítio, e os outros filhos se tornam operários ou se expatriam. Na Galiléia, as propriedades parecem mais extensas; isso se deve a razões históricas: por volta de 150 a.C., todos os judeus fugiram dessa província; os pagãos recuperaram essas terras, aumentando suas propriedades, mas quando João Hircano reconquistou a Galiléia, esses pagãos tiveram de se converter ou partir. Os artesãos ou mais exatamente os que trabalham por conta própria num trabalho que não é agrícola, nos são muito mal conhecidos. O que se sabe com mais certeza é que muitos desses ofícios são mal vistos, e até mesmo desprezados. De acordo com as fontes rabínicas antigas, o curtidor exala tanto mau cheiro que perde toda dignidade, a tal ponto que sua esposa pode separar-se dele quando quiser (raro caso em que o marido pode ser obrigado ao divórcio), o tecelão é tão mentiroso que não é admitido a dar testemunho, como também não o são a mulher e o escravo; o pastor é considerado ladrão, ele próprio devido à sua alimentação pessoal, e seu rebanho, porque entra muitas vezes nas pastagens dos outros; o médico pratica uma medicina de classe, descuidando os pobres sem dinheiro. A lista negra das profissões é tão comprida, que se tem a impressão de que resta pouco para as profissões honestas. Mas não devemos ver aqui a concepção greco-romana, segundo a qual todo trabalho manual é servil, mas a convicção dos escribas de que só o estudo da Lei é que conta: tudo quanto dele distrai é nefasto. Todavia, é preciso viver e, sobretudo, o trabalho é honrado em si mesmo porque é participação na obra de Deus. Os operários e diaristas: basta sobrevir uma colheita insuficiente, basta uma administração errada do seu negócio, basta que algum concorrente tenha mais êxito e a pessoa perde sua independência, vendo-se obrigada a colocar-se a serviço dum patrão, seja por dia – mas a situação é então extremamente precária – seja de modo mais estável como braçal numa lavoura de grande ou médio porte. Pode-se trabalhar também numa empresa de transporte ou junto a um grande artesão; pode-se conseguir emprego na casa dum nobre, na corte, ou enfim conseguir admissão num dos grandes canteiros de obras. Todo esse pequeno povo forma a parte importante de Israel, trabalhadores que ganham salários minguados, que são desprezados pela casta dos escribas e dos fariseus, e são chamados ham ha’ares, o povo da terra, os incultos. Todavia, bom número de escribas exercem essas humildes profissões e esse povo é o principal apoio dos fariseus, pois é ele quem mais sente na carne o peso da ocupação romana: sofre pacientemente, aguardando a intervenção libertadora de Deus. Os miseráveis. Acontece também, infelizmente, que em consequência de maus negócios, de acidente ou de doença, alguém se torna incapaz de trabalhar: mais ou menos excluído da comunidade torna-se mendigo, ladrão ou escravo. Os mendigos vivem de preferência em Jerusalém, onde os peregrinos são mais generosos; com efeito, parte do segundo dízimo (que os peregrinos levam nas peregrinações) pode servir para a esmola, que é uma obra muito meritória diante do Senhor. Entre eles, encontram-se muitos leprosos, isto é, todos aqueles atacados de doença de pele e são considerados impuros. Mas pode-se também tentar a sorte como ladrão, seja em Jerusalém, seja ao longo das estradas onde se vai roubar os viajantes imprudentes. Embora o termo bandido abranja os ladrões e os zelotes, parece certo que os ladrões formam um grupo que aumenta cada vez mais nos anos 60 D.C., aproveitando-se da instabilidade política. Já por volta de 35 a.C., tais ladrões importunavam tanto Herodes, que ele desencadeara uma verdadeira guerra contra eles. Os escravos judeus. O ladrão que é preso e não consegue ressarcir os danos que causou, como também o judeu que pediu emprestado e não pode restituir, corre o risco de perder a liberdade, tornando-se escravo. Só podem tornar-se escravos o varão israelita adulto e sua filha de menos de doze anos, mas não o filho nem a esposa. A filha adquire a liberdade aos doze anos, a não ser que seu senhor a despose, o que suprime imediatamente sua condição sua condição de escrava. O
homem fica escravo no máximo seis anos, por causa do ano sabático. O senhor o compra por uma soma que varia entre uma e dez minas (100 a 1000 dias de salário). O escravo judeu é juridicamente igual ao filho mais velho do senhor; quanto à alimentação, à moradia e ao vestuário, deve ser tratado do mesmo modo que o senhor, o qual é obrigado, além do mais, a manter a família de seu escravo; os trabalhos por demais humilhantes lhe são vetados, por exemplo: lavar os pés do senhor, despi-lo antes do banho ou mesmo levar ao banho público a água de que se serviu. Finalmente, esse escravo judeu tem muita semelhança com um operário respeitado, que tem garantia de trabalho, e vende sua força braçal por seis anos. Sem dúvida, ele não é livre, mas pode, no caso de receber herança ou descobrir um tesouro, resgatar-se quando quiser isso só vale, evidentemente, se o senhor é também judeu; o senhor pagão tem outros princípios, normalmente mais duros, mas a família de um judeu vendido a um pagão tem o dever estrito de resgatá-lo. O escravo pagão pode também tornar-se propriedade de um judeu, mas sua condição é então completamente outra: é comprado por toda a vida e o preço segundo suas qualidades, pode chegar até 100 minas; normalmente vale 20. É totalmente propriedade do senhor; portanto, nada pode possuir e tudo quanto pudesse encontrar ou receber como indenização por um ferimento pertence ao senhor: portanto, está na impossibilidade de economizar para se resgatar, ao passo que isso é possível entre os romanos. O senhor pode tratar esse escravo como quiser e mandá-lo fazer o que quiser; as únicas limitações a esse respeito são certas mutilações infligidas ao escravo, que lhe valem a libertação imediata, e o assassínio voluntário do escravo, que é considerado crime e punido como tal. Contudo, por razões de pureza ritual, um pagão não pode morar na mesma casa com um judeu piedoso, nem sobretudo preparar suas refeições ou servi-lo à mesa: o senhor tem, pois, um ano de prazo, a partir da compra, para circuncidar seu escravo (mas ainda é indispensável que o interessado o aceite!) ou revendê-lo a um pagão. Esta circuncisão não o assemelha ao escravo judeu: suprime a impureza fundamental e isto é quase tudo. As condições de trabalho e de vida permanecem, efetivamente, as mesmas, pois o escravo é dispensado de todos os atos religiosos que têm lugar num momento preciso do dia ou do ano e todos os preceitos positivos, pois todos esses preceitos prejudicariam a possibilidade de utilizá-lo. Ao contrário, certas regras que não impedem o trabalho, como a oração depois da refeição, são obrigatórias. A única grande aquisição obtida pela circuncisão é o direito ao repouso no sábado, que o senhor é obrigado a conceder. Os escribas. Pouco numerosos, mas tendo um peso social considerável, os escribas poderiam ser colocados após os anciãos. Mas dado que eles se recrutam tanto entre os anciãos ou sacerdotes, quanto entre os diaristas, escapam a uma classificação social precisa. Na maioria são leigos. Esses escribas são essencialmente os especialistas da Lei. Enquanto se pede sobretudo do sacerdote que ofereça os sacrifícios ao Senhor, do escriba se exige que explique e atualize a Lei em função dos tempos novos e dos problemas concretos que se põem; dele se espera também que seja um guia espiritual, para interiorizar cada vez mais a fé em Deus ou para tentar viver sempre melhor segundo sua vontade. O escriba é reconhecido como um filho espiritual ao mesmo tempo que um sucessor dos antigos profetas que Deus já não envia: existe a convicção de que o tempo dos profetas terminou, até que venha o Profeta messiânico dos últimos tempos. (O título de profeta atribuído a João Batista ou a Jesus significa, pois, para os judeus do século I, que se entrou na era messiânica). O conhecimento das Escrituras e a competência jurídica fazem dos escribas personagens indispensáveis nos diferentes conselhos e tribunais: sem eles seria impossível resolver com equidade os casos difíceis. É aliás por causa desta competência e também das circunstâncias políticas que eles são numerosos no Sinédrio, no século I. Suas pesquisas, apoiadas numa fé profunda animando toda uma vida moral, colocam-nos antes do lado dos fariseus, que se sentem felizes por encontrar neles pessoas seguras sob o ponto de vista da doutrina. Há, portanto, relações estreitas entre esses dois grupos, mas não se deve identificá-los: há escribas saduceus e outros, independentes. Depois de entrarem para o Sinédrio, é do alto deste lugar que vão pouco a pouco impor suas concepções inclusive no plano litúrgico, a todo Israel, e até mesmo aos saduceus. Nesta sociedade judaica, em que todo o edifício social parece estático, determinado pelo nascimento (sacerdote ou não, judeu puro ou bastardo, família rica ou pobre), os escribas são a prova de que
uma promoção social é possível: Hilel começara como mendigo, antes de se tornar um dos personagens mais célebres de Israel; outros são de raça mestiça: isso não os impede de seguir uma carreira prestigiosa e de se impor até mesmo aos reis. Doravante, as qualidades pessoais valem tanto quanto a herança e às vezes mais que ela. Os escribas fariseus irão ainda mais longe: esforçando-se por estender a todo o povo as regras de pureza que eram primitivamente reservadas aos sacerdotes em exercício, suscitam uma grande esperança nas massas: também elas podem estar próximas de Deus e portanto ter o poder ou parte dele (não se deve, pois, julgar as mil e uma prescrições rabínicas com nossa mentalidade moderna: pensamos que elas escravizaram; elas podiam ser um meio de libertação). Mas para ser escriba não basta querer: são necessários longos estudos, um conhecimento perfeito da Lei e de todas as tradições orais, algumas das quais são esotéricas, reservadas a alguns estudantes seguros; é preciso também um juízo reto, reconhecido pelos outros escribas. Talvez já seja necessária uma ordenação? Ela é obrigatória no século II e é conferida aos 40 anos. Quando alguém se torna oficialmente escriba ou doutor da Lei, passa a ter direito de usar uma veste especial, sinal da dignidade adquirida; goza da presidência em quase todas as assembléias e das saudações respeitosas de todos: quando um escriba passa na rua, é normal que as pessoas parem de trabalhar e se voltem para cumprimentá-lo! Assim o escriba é honrado tanto quanto o sumo sacerdote, quando não mais que ele, mas seus honorários não são os mesmos. Pois, assim como Deus concedeu sua Lei gratuitamente aos filhos de Israel, assim também o escriba deve oferecer gratuitamente seu ensino e seus conselhos. No entanto, ele precisa viver: é-lhe dada, portanto uma retribuição igual à que teria ganho exercendo sua profissão habitual, durante aquele período de tempo em que se utilizou dos seus serviços. Como em geral sua profissão é humilde, os honorários também o são, mas isso não exclui os pequenos presentes que acabam obtendo para os escribas famosos ou idosos um certo status. A mulher. Não é fácil determinar a condição da mulher na época de Cristo: é que muitas informações nos são transmitidas por textos rabínicos posteriores. Parece certo que o antifeminismo aumentou no decurso do século II da nossa era, tanto no judaísmo como no cristianismo; antes dessa data, ele era muito menos acentuado e é conhecido o sucesso encontrado, no século I, pelos fariseus, nos meios femininos. É portanto perigoso – neste como em outros domínios – extrapolar as informações que temos e dizer com certeza se a mulher que apresentamos aqui é somente a de século I ou já do século II. “Compra-se a mulher por dinheiro, contrato e relações sexuais, constata um rabino. Compra-se um escravo pagão por dinheiro, contrato e tomada de posse. Há então diferença entre a aquisição duma mulher e a dum escravo? – Não!” Essa definição apresenta bem a condição feminina: como o escravo, a mulher depende de seu senhor - marido e tem que assumir todas as tarefas; não pode aproveitar-se nem dos rendimentos do seu trabalho nem do que ela achar; só está sujeita aos mandamentos negativos ou gerais da Lei e não aos que estão ligados a um tempo preciso, como haveria de ocupar-se das crianças ou das tarefas do lar? Se não lhe é proibido interessar-se pela Lei e pelas tradições, é muito desaconselhado, no entanto, ensinar-lhe demais a respeito disso, pois “aquele que ensina a Torá à sua filha ensina-lhe a prostituição”! O lugar da mulher é em casa, ocupando-se dos filhos e da casa e fiando a lã, na Judéia, ou o linho, na Galiléia: os textos prevêem a quantidade mínima que ela deve fiar ou tecer por semana, quantidade esta que é reduzida se ela amamenta um filho de menos de dois anos. Ela nada tem a fazer fora de casa e se for obrigada a sair, deve guardar o anonimato mais completo, por isso se usa o véu. Se ela conversa com alguém, por exemplo para pedir uma informação, deve-se responder-lhe o mais brevemente possível; fora disso, não se lhe deve dirigir a palavra, nem sequer para cumprimentá-la. Diante dum tribunal, ela jamais é admitida como testemunha e menos ainda como juíza. Na sinagoga ela tem seu lugar; no entanto, pode haver lá uma infinidade de mulheres, se não houver dez homens adultos, é impossível celebrar o ofício. Ela deve ainda aceitar que seu marido divida sua afeição entre ela e outras mulheres, quer sejam esposas como ela, quer sejam concubinas, ou até mesmo escravas. Notemos no entanto que a
poligamia é muito rara e isso em primeiro lugar por razões econômicas. Mas a mulher é também filha de Israel, o que lhe confere direitos. Tem direito a um mínimo vital: seu marido é obrigado a lhe dar o necessário em alimento, vestes e dinheiro para uso próprio, sem o que ela pode se queixar perante um tribunal que, após inquérito, obrigará eventualmente o marido a se divorciar. Ela também tem direito à dignidade: se ela cai na escravidão, o marido deve fazer tudo para resgatá-la; se ela está doente, ele deve conseguir-lhe os medicamentos necessários; enfim, ele não pode lhe impor votos contrários à sua dignidade nem obrigá-la à prostituição. Finalmente, ela não pode ser repudiada de qualquer maneira: o contrato de matrimônio é ao mesmo tempo um freio para os desatinos do marido e uma garantia para a mulher. Tal é a situação jurídica que se deduz dos textos antigos, mas a realidade é, de fato menos sombria. O amor conjugal está longe de ser desconhecido e sabe transfigurar todas as leis, tanto assim que em resposta a cada crítica ou razão para se desconfiar das mulheres, na literatura antiga, pode-se citar um testemunho exatamente contrário. Não esqueçamos tampouco as diferenças provenientes da situação social, da possibilidade ou não de ter servos e servas. Em certas cidades, o fato de as famílias judias viverem lado a lado com famílias pagãs de mentalidade greco-romana onde a mulher tem uma situação bem diferente, não deve ter deixado de criar problema ou de influenciar os costumes.) Era comum reunirem-se à parte para realizar certas cerimônias que, embora ainda judaicas na aparência, tinham para eles um novo significado; assim, por exemplo, as refeições tomadas em comum, no decorrer das quais os ritos antigos eram interpretados de forma estranha. Ao mesmo tempo, reinava entre eles uma grande harmonia. Inicialmente, haviam-se denominado discípulos, porque tinham tido um Mestre, um Fundador; mas depois pareceu-lhes que era mais conveniente outra expressão para designarem a misteriosa comunhão que selava o seu acordo mútuo, e daí em diante passaram a chamar-se “irmãos”. Mas não formavam uma seita como tantas outras que se conheciam em Israel, não passavam o tempo discutindo sobre os mil e um preceitos que regulamentavam o descanso do sábado e não fugiam do mundo, não constituíram qualquer sinagoga independente, não eram gente que procurasse isolar-se ou recluir-se; pelo contrário, mostravam-se acessíveis a todos, e os seus líderes convidavam incessantemente as almas piedosas a unir-se ao seu pequeno grupo. Que laço unia então os fiéis desta comunidade tão pouco definida? Que laço tão forte era esse que, para manter coeso esse grupo, não necessitava de nenhuma barreira exterior? E por que ficavam agrupados em Jerusalém, como se nesse palco tradicional da ação divina estivesse a ponto de ocorrer algum acontecimento cujo segredo só eles possuíam? A resposta resumia-se numa breve frase, em que se condensava toda a fé daqueles homens: “O Messias veio para o meio de nós”. O mundo deixou que essa fórmula se desgastasse, e ela perdeu o seu sentido de revelação misteriosa e a sua revolucionária novidade. Para avaliar o peso que possuía então, seria preciso ir ao encontro das raízes vivas da tradição judaica e sentir no mais profundo do ser aquela plenitude de amor e aquele terror augusto que uma alma fiel experimentava à simples evocação dessa vinda. A corrente messiânica tinha sua origem no âmago da história de Israel. Estivera ligada inicialmente ao dogma nacional da eleição divina, e entroncava através dos séculos com a fé na antiga promessa feita ao patriarca Abraão por Javé e depois reafirmada muitas vezes: a Jacó no sonho de Betel, a Moisés no sinai fumegante, aos
Reis na glória da sua capital. Não se pode pôr em dúvida que, no começo do primeiro século da nossa era, a corrente messiânica irrigava tudo o que havia de melhor na consciência judaica. As esperanças temporais, neste período, pareciam definitivamente caducas; os descendentes dos Macabeus haviam-se afundado em sangue e os pequenos príncipes da linhagem de Herodes, bem como os funcionários de Roma, repartiam entre si a Terra Prometida. É verdade que, nos diversos setores da sociedade judaica, esta imagem era interpretada de maneiras muito diferentes. Cada um compreendia o messianismo conforme o seu temperamento e a sua cultura. Um nacionalista fanático via o Salvador como uma espécie de Judas Macabeu, impiedoso para com os inimigos; um fariseu representava-o como um Mestre eminentemente virtuoso, a encarnação viva da Lei santa; o povo humilde, sempre ávido do maravilhoso, rodeava-o do sobrenatural e ilusório. Os homens que tinham seguido Jesus enquanto estava vivo não eram senão homens, e por isso não estavam isentos das fraquezas que conhecemos. Ao pé da Cruz via-se apenas um punhado de teimosos, sobretudo umas mulheres; os outros tinham fugido para se esconderem. Por que seria então que uns judeus piedosos, bons cidadãos da Cidade Santa, se mantinham fiéis à memória desse agitador vencido, que deveria parecer-lhes alguém justamente punido pelas autoridades? A semelhantes perguntas, os membros da comunidade dos “irmãos” davam uma resposta situada no plano das realidades sobrenaturais que deviam manifestar a era messiânica. Sim, eles acreditavam em Jesus-Messias apesar de tudo, apesar do atroz desfecho do seu destino terreno, não por um simples apego sentimental, mas porque estavam na posse de provas flagrantes do seu caráter providencial. Essas garantias sobrenaturais eram três, e todos os livros escritos pela primeira geração cristã – os Evangelhos, os Atos e as Epístolas – sublinham a sua importância e mostram que era sobre elas que repousava a fé. A Ceia Pascal: “Este é meu corpo, que é entregue por vós […]. Este cálice é o novo testamento em meu sangue, que é derramado por vós” (cf. Lc 22,19-20). O gesto sintetizava numa fórmula sacramental um ensinamento sobre o qual Ele insistira muitas vezes. No entanto, Jesus não fora compreendido naquela ocasião. Sua Morte-Ressurreição. A Ressurreição estabelecia na alma dos fiéis a certeza da sua vitória. Decorridos quarenta dias após a manhã da Ressurreição, quarenta dias durante os quais Jesus multiplicara as provas, ao mesmo tempo assombrosas e incontestáveis, da sua nova vida, “elevou-se à vista dos Apóstolos e uma nuvem o ocultou aos seus olhos” (At 1,9). A Ascensão não constituía também um sinal? Porque “nunca ninguém subiu ao céu, senão Aquele que desceu do céu, o Filho do homem” (Jo 3,13). Referindo-se a fatos tão evidentemente messiânicos, os fiéis de Jesus tinham, pois, sérios argumentos para entrar em choque com os seus compatriotas. Mas teriam eles a força necessária para sustentar esses argumentos e enfrentar a opinião quase geral, que rejeitava o messianismo do Mestre, e para se oporem à autoridade da condenação judicial? Mas foi-lhes dado ainda um terceiro penhor. Era a promessa do Mestre: “eu vos enviarei o Espírito consolador”, dissera Ele, e “quando Ele vier, o Espírito da verdade, guiar-vos-á para a verdade completa” (Jo 16, 7 e 13).
No dia de Pentecostes cumpriu-se essa promessa. “Quando […] estavam todos reunidos no mesmo lugar, produziu-se de repente um ruído do céu, semelhante a um vento impetuoso, que encheu toda a casa em que estavam sentados. Aparecerem-lhes repartias línguas como de fogo, que pousaram sobre cada um deles. E todos ficaram cheios do Espírito Santo e puseram-se a falar em línguas estranhas, conforme lhes era concedido pelo próprio Espírito” (At 2, 1-4). […] A partir desse momento, estes homens já não formavam uma simples comunidade fraterna, mas uma entidade ao mesmo tempo humana e sobrenatural de almas escolhidas, completamente renovadas e prontas para assumir todos os riscos em defesa da sua fé; uma comunidade que, mais tarde, havia de chamar-se Igreja. […] a partir do Pentecostes, a fé dos fiéis de Jesus tinha-se tornado não só inabalável, mas conquistadora. Esses homens tinham pressentido que, no seio da comunidade judaica, cuja existência e ritos partilhavam, eles constituíam uma raça nova destinada a fecundar a terra. A partir de agora, traziam dentro de si aquela força que dá às minorias resolutas a sua vitoriosa audácia. […] Mas Pedro levantou-se e encarou a multidão. Já não tinha medo; o galo que cantara quando tinha negado o Mestre não voltaria a cantar. Foi então que, pela primeira vez, nos termos que já lemos, gritou a sua fé inquebrantável em Jesus Messias. Começou nesse instante a história cristã, com esta primeira declaração apologética, que era também uma declaração de guerra ao mundo. Quem quiser conhecer os princípios da sementeira cristã, a vida desta primeira comunidade que albergou o Evangelho à sua nascença, encontrará no Novo Testamento um documento de primeira ordem, o livro denominado Atos dos Apóstolos. Escrito muito pouco tempo depois dos acontecimentos – por volta de 60- 64 – por um homem que, sem ser testemunha direta da Ressurreição, estava ainda impregnado da mais viva tradição, é obra de um interesse sem par. Quantos era os primeiros fiéis? É quase impossível dizê-lo. São Luas, nos Atos (1, 15), cita o número de cento e vinte e São Paulo fala-nos de quinhentas pessoas que, juntas, viram aparecer-lhes Jesus ressuscitado (cf. 1 Cor 15, 6). Mas, além de que estes dados se referem à época inicial, às semanas que se seguiram à morte de Cristo, nada prova que se tratasse de todos os membros da comunidade nascente. Depois do primeiro discurso de São Pedro, dizem-nos os Atos que três mil pessoas aderiram de uma só vez à nova fé (f. At 2, 41), e um pouco mais tarde fala-se já de cinco mil adeptos. Pensando que Jerusalém contava alguns milhares de fiéis por volta dos anos 35 ou 37, mas que isso era ainda uma fraca minoria na cidade, devemos estar perto da verdade. Na comunidade primitiva, distinguem-se bem os fundamentos institucionais criados por Cristo. Colhemos a impressão de que os Apóstolos, suas primeiras testemunhas, aqueles que Ele mesmo “designou e estabeleceu”, gozam como é natural, de uma grande autoridade moral. O número de doze, a que Jesus limitou o seu pequeno grupo, tem certamente o valor de um sinal. Entre os Doze, Pedro parece ocupar o primeiro plano. Junto dos Apóstolos, há ajudantes e assistentes, uma espécie de apóstolos de segundo plano. Fariam eles parte do colégio ampliado dos Setenta (ou setenta e dois) que, no segundo ano do seu ministério, vendo crescer o número dos fiéis, o próprio Jesus tinha instituído. Seriam a origem daqueles presbíteros que
encontraremos mais tarde em todas as comunidades cristãs? Qual era exatamente a sua função? Não é fácil precisá-lo. Temos também a impressão de que, ao lado da autoridade apostólica, existe na comunidade de Jerusalém – talvez num plano diferente – a autoridade de outras personagens, principalmente de Tiago, chamado “irmão do Senhor”, isto é, um dos seus primos em primeiro grau. À semelhança dos pormenores da organização, também não podemos comentar com a precisão que desejaríamos os ritos e as observâncias que caracterizavam os primeiros fiéis. Mas podemos distinguir três práticas fundamentais, que constituirão, para o futuro, a base da vida religiosa cristã: o batismo, a imposição das mãos e o ágape fraterno. Quanto ao batismo, tanto os Atos como as Epístolas de São Paulo revelam com clareza que as primeiras Igrejas o consideram indispensável e que todo o novo adepto o recebe no momento de sua admissão. Por quê? Evidentemente porque o próprio Jesus o recebera de João Batista e os seus discípulos também se tinham batizado. Mas o rito cristão possui, certamente, características próprias. O batismo de João distinguia-se das abluções judaicas e dos mikweh rituais pelo fato de ser um “batismo de penitência”. O dos cristãos inclui também a vontade de renovação e de purificação moral, mas abrange ainda outra dimensão. Os Atos dizem que cada um devia ser batizado em nome de Jesus Cristo. “para remissão dos seus pecados” (At 2, 38). Dos antigos ritos, o mais comovente é o da comunhão. Os primeiros fiéis perseveravam “na doutrina dos Apóstolos, nas reuniões em comum, na fração do pão e nas orações” (At 2, 42). Estes ágapes em comum são verdadeiras refeições; o teto é preciso: “tomavam o seu alimento” (2, 46). Na prática cristã, mesmo que Atos não estabelece um nexo formal, há aí uma “memória” de Cristo, daí podemos evocar estes primeiros fiéis “partindo o pão com alegria e louvando a Deus”, realizam algo mais do que um simples rito de comemoração: é uma participação na vida divina. Cristo está ainda ali, muito próximo. Dentre os que dirigem a comunidade, muitos o conheceram. E esses homens evocam recordações pessoais e contam o que viram e ouviram quando Ele ensinava n lago de Tiberíades, ou no meio da multidão, no átrio do Templo. Reúnem-se todos os pormenores que se possuem sobre a sua vida, e assim se elabora uma catequese que dará origem à tradição oral e depois será passada a escrito, convertendo-se nos Evangelhos. Nota-se sensivelmente a presença do Mestre no seio das almas; como já acontecera com Maria Madalena e com os discípulos de Emaús, cada uma delas experimenta essa presença dentro de si, com uma certeza que perturba e com um ardor que incendeia: “Ficai conosco, Senhor. - O Mestre está aqui!”. Tal é o quadro que nos oferece a primitiva Igreja. Século após século, estes comoventes episódios permanecerão na tradição cristã como um modelo e como uma saudade. Teriamos ainda muito o que escrever sobre os primeiros anos da Igreja (Igreja Primitiva), mas, isto nos levaria a alongar por demais o estudo e, como podemos verificar pelo que está sendo apresentado, é algo bem familiar ao cristão católico praticante e conhecedor da Bíblia, pois este período corresponde em grande parte o que temos apresentado no Novo Testamento. Gostaria de apresentar um pequeno
quadro cronológico deste período. Na história romana (muito importante pelas relações que Israel tinha com Roma à época), em morre Augusto, o novo Imperador será Tibério (14 – 37), na história cristã, a Morte de Cristo (30), o martírio de Santo Estevão, entre 32 e 36, conversão de São Paulo, 33-36, na Filosofia, Sêneca nasce no ano 4, nas Letras e Artes, em 35 nasce Quintiliano, em 39, Lucano, na Ciência e Técnica, em 23 nasce Plínio, o Velho Na história romana, Imperador Calígula (37 – 41), na história cristã, perseguição de Herodes Agripa (41), Concílio de Jerusalém (49), na Filosofia, morte de Fílon de Alexandria, 41-49 Sêneca exilado na Córsega, em 46 nasce Epicteto de Hierápolis, nas Letras e Artes, em 50 Afrescos da Vila dos Mistérios em Pompeia.
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