Surgimento do Pentateuco

Surgimento do Pentateuco

 

Dentre a multidão de questões particulares, que nem sequer por especialistas são respondidas absolutamente de modo unitário, damos apenas algumas informações básicas, pretendendo expô-las do modo mais concreto e incisivo possível.

 

Por “Pentateuco entendem-se os cinco livros de Moisés, que têm números diferentes de capítulos e que são citados de acordo com a temática do primeiro capítulo ou por uma outra denominação, de acordo com sua afirmação central:

l. Livro de Moisés = Gênesis (criação do mundo e do gênero humano).

  2. Livro de Moisés = Êxodo (história da saída do Egito).

  3. Livro de Moisés = Levítico (leis sacerdotais)

  4. Livro de Moisés = Números (começa com o recenseamento de cada uma das tribos).

  5. Livro de Moisés = Deuteronômio (repetição da legislação: segunda legislação).

     Até os primeiros decênios do séc. 20 defendeu-se ainda a opinião de que todo o conjunto do Pentateuco – pelo menos quanto à substância – devia ser atribuído à autoridade de Moisés. Contudo, sob a pressão dos argumentos das distinções de fontes e das diferenças teológicas, impôs-se por toda parte a idéia de que o Pentateuco só surgiu, em seu esboço básico escrito, séculos depois da chamada época de Moisés, e até sua fixação definitiva passou por um processo de amadurecimento de mais de meio milênio ( 1000 a .C. até cerca de 350 a .C.).

   O Pentateuco, que temos hoje em sua redação final, foi alinhavado de várias fontes escritas. E neste trabalho final a concepção teológica do chamado “documento sacerdotal” predominou.

 

Fontes escritas do Pentateuco

 

Pesquisas sob o prisma da lingüística, bem como critérios teológicos, tornaram claro que o Pentateuco não é uma obra composta de um só fôlego (exarada por escrito por parte de um só escritor ou equipe de escritores e num curto período de tempo), revelando que ele é como um tapete literário entretecido de diversas fontes de diverso matiz. Estas fontes eram originalmente obras escritas, concluídas e independentes umas das outras, que, todavia não mais existem em sua versão original e que só podem ser deduzidas e seccionadas a partir do atual Pentateuco.

   As fontes mais importantes que foram reelaboradas e inseridas no Pentateuco são:

   J = Fonte escrita javista (Documento javista).

   E = Fonte escrita eloísta (Documento eloísta).

   D = Deuteronômio original.

   P = Fonte escrita sacerdotal (P = do alemão Priester) (Documento sacerdotal).

 

   O documento javista foi escrito no fim do século X, na segunda metade do reinado de Salomão. Ele se apóia em tradições orais ou em textos escritos. Essa obra judaica (porque escrita no reino de Judá) reflete, em parte, os ideais da corte de Jerusalém.

 

     O documento eloísta foi escrito no fim do século IX ou no começo do século VIII; suas tradições são paralelas às do documento javista, de modo que é possível fazer uma sinopse de ambos. Composto no reino do norte reflete as preocupações dos meios proféticos desse reino, especialmente de Elias, Eliseu, Oséias etc.

 

   O documento que constitui o Deuteronômio se aproxima, sob certos aspectos, do eloísta. Isso se explica pela mesma origem geográfica, o reino do norte, e pela mesma preocupação de se referir a Moisés e à Lei. A história de sua redação é complexa. Há uma primeira fase do Deuteronômio em Jerusalém, depois da queda de Samaria (em 722), no reinado de Ezequias: mas foi somente com a reforma de Josias em 622 que ele foi realmente aceito. A edição definitiva será feita durante o exílio em Babilônia entre 587 e 538.

 

   A fusão J-E efetuou-se sob Ezequias, talvez por volta de 700. Quando foi feita a fusão, deu-se prioridade ao javista em detrimento do eloísta.

 

  O documento sacerdotal foi composto durante o exílio em Babilônia, no século VI. Obra dos círculos sacerdotais saídos de Jerusalém, profundamente marcados pela situação do exílio, esse documento usa também as tradições antigas, dando-lhes uma nova interpretação e delas tirando luz para esclarecer uma situação difícil.

   Esse documento foi fundido com J-E no começo do século IV. Nessa oportunidade foi-lhe acrescentado certo número de “leis suplementares” (designadas pela sigla Os) redigidas segundo o espírito sacerdotal. Nasce então a Torá na forma de cinco livros. É muito provável que o responsável por essa atividade literária seja Esdras, qualificado como “secretário da lei do Deus do céu” (Esd 7,12). Esse Judeu Esdras fora encarregado pelo rei persa, Artaxerxes II, de dar estatuto aos judeus, tanto aos que tinham voltado do exílio como aos que tinham permanecido no país, especialmente aos samaritanos. Essa constituição devia garantir a unidade de legislação e de liturgia para todos os habitantes das províncias da Judéia e de Samaria. A missão de Esdras data provavelmente de 398; é anterior à ruptura entre judeus e samaritanos, que se deu menos de um século mais tarde; isso explica porque estes últimos tenham como
Escritura o Pentateuco chamado “samaritano”.

   Esse simples apanhado histórico permite ver como essa redação está intimamente ligada à história de Israel; para compreende-la é necessário não separá-la dos livros proféticos. Neste nosso estudo faremos a apresentação desses quatro documentos, destacando a mensagem própria de cada um. Os confrontos com a história e os profetas serão necessariamente muito breves, simples convites ao leitor para uma verificação pessoal.

 

Quatro documentos em um só.

 

   Os quatro evangelhos são narrações que apresentam a vida de Cristo sob ângulos um pouco diferentes. Sempre se fizeram tentativas de harmonizá-los em uma só redação: “Os quatro evangelhos em um só”. Imaginemos que semelhante obra fosse apresentada a um especialista em história literária, que desconhecesse completamente o cristianismo. Baseando-se unicamente no estudo do vocabulário, do estilo e do pensamento, ele chegaria a supor que essa narração única seria composta de quatro documentos e até poderia reconstituir nossos quatro evangelhos. Haveria, contudo, uma parte hipotética: alguns textos de Mateus e de Lucas são tão semelhantes que sua atribuição a um ou a outro permaneceria incerta. Haveria também lacunas: quando Mateus e Lucas, por exemplo, têm textos quase iguais, o autor dos “quatro evangelhos em um só ”reteria apenas um texto”.

   Coisa semelhante aconteceu com o Pentateuco. Durante muitos séculos se pensou que Moisés tivesse escrito pessoalmente todo o Pentateuco. Em 1753, Astruc, médico de Luís XV (rei da França), notando que Deus era chamado, no Pentateuco, ora de “Iahweh” ora de “Elohim”, aventou a hipótese de que isso se devesse a narrações paralelas. Nascia assim a hipótese documentária. Ela passou por reformulações e sua história foi ampliando suas fronteiras em decorrência das descobertas arqueológicas, que restituirão antigos documentos assírio-babilônicos, e dos estudos de especialistas como Welhausen, Gunkel, G. Von Rad e outros. Hoje dificilmente se encontrará um especialista que não admita que o Pentateuco seja constituído por quatro documentos, embora as pesquisas tendam, às vezes, a se diversificarem ao infinito e a atribuição de um ou outro versículo a esta ou àquela tradição possa ser contestada. Compreenderemos melhor isso se considerarmos que nossa situação é semelhante à do especialista diante dos “quatro evangelhos” (de que falamos acima): não temos mais os quatro documentos e, para reconstituí-los, devemos servir-nos da obra formada por eles. Podemos também estudar essa composição em si mesma, procurando a idéia central que guiou Esdras na redação final. Para uma compreensão melhor, nós faremos o estudo separado de cada um dos documentos.  

 

Comments