Cânon e Autoridade

A anos que a mesa da exegese vem sendo superlotada com publicações e mais publicações. Fica cada vez mais difícil a passagem da exegese para a catequese. (Por catequese entende-se aqui o vasto campo da introdução e exercitação bíblica, abrangendo igualmente o domínio da educação pré-escolar, do ensino médio, do ensino fundamental, bem como a catequese ministrada à comunidade desde a preparação para os sacramentos até a formação de adultos). Em vista do conhecido desnível entre a teologia científica e a compreensão bíblica do povo cristão, falou-se já de uma “dupla linha de livros”.

É chegado o tempo de conceber de modo novo, diante de um material arqueológico e lingüístico abafante e mal elaborado, muitas representações vétero-testamentárias (como, por exemplo, com referência aos primórdios de Israel, aos tempos dos patriarcas e de Moisés, ao êxodo do Egito e ao estabelecimento em Canaã). Será que a Bíblia e respectivos comentários, até agora utilizados nas escolas e igrejas, oferecem alguma ajuda à necessária renovação de visões? Ou não seriam antes empecilhos, ao confirmar concepções ditas tradicionais, circundado-as de gloríola da ortodoxia?

O presente estudo não tem a intenção de desencorajar, mediante uma teologia de choque, o catequista e o leitor da Bíblia, nem operar um total desligamento de transmissores na pregação bíblica. Pelo contrário: desejaria ajudar a vencer uma fase de resignação, cansaço bíblico e insegurança, estimulando uma pregação de boa consciência que se baseie num melhor conhecimento.

 É empresa dificílima, pastoralmente inadiável, transmitir o conhecimento das etapas de formação e dos gêneros literários da Bíblia de modo objetivo e oportuno, isto é, de acordo com a necessidade específica das idades, com o fito de se libertar da concepção tradicional de que se deve considerar a Bíblia como documento exclusivamente histórico, devendo-se, portanto, interpreta-la literalmente como história real.

A dinâmica bíblica, o processo de crescimento e amadurecimento da idéia de Deus e da autocompreensão na fé, deve ser a coisa mais natural para a futura instrução bíblica. Pode-se, com isto, contribuir decisivamente no sentido de fazer desmoronar o estado relativamente estático dos conhecimentos teológicos.

Não menos importante é a necessidade de levar a sério o pluralismo intrabíblico, a pluridimensionalidade das camadas literárias, das modalidades da fé, da compreensão de Deus e das intenções. Não a uniformidade, mas a pluriformidade é que constitui a característica das afirmações bíblicas.

Para um estudo concreto da Bíblia, é preciso observar mais do que até agora a “perspectiva catequética”. Todo aquele que presta um serviço à palavra de Deus e à fé do homem deve saber onde se situa o homem, qual a fase etária que tem diante de si, o que é possível a uma determinada fase da psicologia evolutiva e da psicologia da religião e o que ele “engatilha”, por sua transmissão, para a compreensão bíblica que depois se seguirá. Tanto os pais, como o catequista de pré-eucaristia, quanto o catequista da crisma e os que ministram os cursos de batismo e casamento, devem ter uma visão crítica da respectiva posição na perspectiva catequética. Não é raro que afirmações feitas num tom de candência emocional, que se ouviram como exercitação bíblica introdutória em casa, nas igrejas, tornem-se fortes argumentos contra a aula de religião, bem como origem de radical ceticismo bíblico na geração que vai crescendo.

Não se pode negar que a geração mais velha tenha reais dificuldades para passar a sua própria formação bíblica (calada há anos e dezenas de anos – se as tiveram) para a hodierna exegese científica. Todavia, nada seria mais irresponsável do que infeccionar os jovens com problemas e angústias que refletem os interesses típicos e as dificuldades da geração mais madura.

As novas intuições necessitam de longo tempo de incubação para que possam ser utilizadas frutuosamente nos estudos bíblicos. Nem tudo o que está em nosso estudo, que é um instrumento de trabalho para a introdução à Bíblia, deve e pode de imediato ser transportado para o estudo da Bíblia. É preciso que se tenha primeiramente posto em andamento, na própria compreensão bíblica, um processo de repensamento e nova orientação e se tenha chegado a uma justa assimilação antes de se extrair daí conseqüências para o estudo.

De acordo com a afirmação do teólogo protestante KARL BARTH, “acharemos na Bíblia quase tudo o que procuramos: o elevado e o divino, se procurarmos o elevado e o divino; o importante e o histórico, se procurarmos o importante e o histórico; absolutamente nada, se absolutamente nada procurarmos. Os famintos nela se saciam, e ao saciado ela fica sem sabor, antes de folheá-la. Na Bíblia está o mundo novo, o mundo de Deus!”.

Se numa catástrofe cósmica e em meio à abominação da desolação os homens só pudessem agarrar e salvar um único livro, este deveria ser a Bíblia – o livro da consolação e da esperança, o livro de um novo futuro.

Não poucos cristãos retêm a idéia, considerada justa e normal, mas criticamente mal refletida, de que o Antigo Testamento não só foi escrito para todo e qualquer ser humano ou época histórica, como também pode ser entendido, sem maior esforço e complexos conhecimentos prévios, por todo e qualquer homem de qualquer provo e de qualquer século.

Sem dúvida, as palavras orientadoras de Deus foram ditas para todas as épocas, continuando atuais para todos os tempos. Mas elas se revestiram de uma roupagem histórico-terrena. Foram vazadas por homens, com base em modalidades humanas de pensamento, em termos e conceitos condicionados histórica e situacionalmente. Nada se prestaria mais a futuros mal-entendidos, modernizações e atualizações inadequadas do que descuidar-se das múltiplas dificuldades, desníveis e barreiras que o texto bíblico apresenta ao leitor de hoje. A roupagem literária da Bíblia, que se liga a uma visão totalmente diversa da vida, do cosmos e de Deus, tornou-se para tão poucos homens uma barreira de comunicação e um bloqueio de compreensão.

A profunda dimensão da Bíblia só fica patenteada para aquele que a lê ao mesmo tempo com os olhos da fé e da piedade e com os olhos da ciência. Já faz muito tempo que a exegese, e, por conseguinte a catequese em suas diversas modalidades se deu conta e vem se utilizando dos conhecimentos elaborados precisamente nos últimos anos, sobretudo pela lingüística e pela arqueologia.


CÂNON E AUTORIDADE

Antes mesmo de abrir a Bíblia para iniciar o estudo de seu conteúdo, o pesquisador sério enfrenta diversas perguntas básicas. Que é a Bíblia? Como a Bíblia adquiriu sua forma atual? Quem é o responsável pelo conteúdo da Bíblia? Por que a Bíblia perdurou através dos séculos? É a Bíblia relevante para o mundo contemporâneo? Embora respostas bem conhecidas a essas perguntas possam ocorrer imediatamente, é freqüente o esquecimento de um denominador comum muito importante: toda resposta supõe alguma dimensão de autoridade.

Que é a Bíblia? É uma coleção de tradições religiosas reverenciadas como sagradas porque foram inspiradas por Deus. O reconhecimento oficial pela comunidade do caráter inspirado dessas tradições conferiu-lhe status “canônico”. Isso significa que gozam de um status de autoridade que nenhuma outra tradição da comunidade possui.

Como a Bíblia adquiriu sua forma atual? A história de sua criação e seu desenvolvimento é longa e complicada e será tratada aos poucos em nosso estudo. Aqui basta dizer que as tradições que foram incorporadas à Bíblia e a forma que assumiram dependeram de escolhas dentro da comunidade, feitas por pessoas e grupos com autoridade para assim escolher.

Quem é responsável pelo conteúdo da Bíblia? Proeminentes legisladores, profetas e mestres, mencionados pelo nome nos próprios textos, não foram os únicos responsáveis pelo material bíblico; houve também redatores e compiladores que selecionaram material do vasto tesouro literário e teológico da comunidade. Preservaram o que consideraram normas religiosas e, assim, exerceram significativa autoridade na comunidade.

Por que a Bíblia perdurou através dos séculos? Reconhecendo que contém material originário de épocas do passado distante e culturas tão diferentes da nossa, só podemos nos maravilhar com sua permanência. A razão está no fato de que, ao longo dos séculos, os fiéis permaneceram convictos de seu caráter de autoridade. Eles também consideraram seu conteúdo normativo e tentaram moldar sua vida de acordo com ela.

É a Bíblia relevante para o mundo contemporâneo? Esta pergunta está no centro da maioria dos debates bíblicos de nosso tempo.  Não perguntamos simplesmente: como a Bíblia fala ao mundo moderno?, mas pode a Bíblia falar ao mundo moderno? A primeira indagação diz respeito à interpretação, a segunda, à questão da autoridade. Tem a Bíblia ainda hoje valor normativo para homens e mulheres? Não basta dizer que é inspiradora. A questão é: Ë inspirada e, portanto tem autoridade?

Ao abordar o caráter de autoridade da Bíblia, precisamos lidar com algumas questões bastante distintas, mas inter-relacionadas: 1) Por que emergiram essas tradições e não outras? 2) Quem tinha o direito de decidir sobre elas? 3) A Bíblia é relevante e ainda normativa?


POR QUE ESSAS TRADIÇOES? 

Este estudo deve começar com uma breve descrição instrumental de “tradição bíblica”. Em palavras simples, tal tradição é, em essência, uma afirmação sobre o auto-conhecimento do antigo Israel e/ou da comunidade cristã primitiva. Não só os definiu especificamente conforme entendiam a si mesmos como também orientou o desenvolvimento posterior de seu auto-conhecimento.

A expressão “povo de Deus” serve de exemplo Nossos antepassados religiosos acreditavam que eram “o povo de Deus”, e esse conceito não só os identificou, mas também moldou o caminho que seguiram através da história e lhes explicou a razão de continuarem a sobreviver. Para eles, ser “o povo de Deus” significava que Deus os chamara e os conduzia e protegia. Acreditavam ser destinatários da revelação divina e suas tradições eras testemunhas dessa revelação. Na medida em que expressam com autenticidade o auto-conhecimento fundamental do povo, tais tradições podem ser consideradas munidas de autoridade.

Tradições ligeiramente divergentes e, às vezes, até muito diferentes podiam surgir e, na verdade, surgiram. Exemplos de tal diversidade incluem os dois relatos da criação (Gn 1,1-2,4a e Gn 2,4b-25) e os vários relatos da conversão de Paulo (Gl 1,13-17; At, 9,1-9; 22,6-11; 26,12-18). Tradições diferentes não causavam necessariamente tensões indevidas dentro da comunidade, desde que a identidade do povo não fosse ameaçada. Entretanto, quando havia uma crise de identidade, a sobrevivência do grupo exigia que se chegasse a alguma espécie de acordo. Esta crise de identidade frequentemente precedia uma crise de autoridade. Qual das diversas afirmações de auto-entendimento era autêntica? Que tradições podiam reunir as forças dispersas dentro da comunidade? As que, subsequentemente, funcionariam como versão normativa da identidade própria da comunidade. Serviriam como uma espécie de “cânon”, uma espécie de autoridade dentro da comunidade. Continuariam como tal enquanto expressassem a identidade do grupo.

Os estudiosos concordam que nem todas as tradições sagradas do antigo Israel e/ou do cristianismo primitivo foram conservadas. Entre as que foram, nem todas gozam do mesmo grau de autoridade. Esta breve descrição do processo dinâmico conhecido como formação da tradição explica por que acontece isso. Quando a experiência de vida e os eventos da história forçavam-no a procurar um significado, o povo passava a entender a si mesmo e a suas relações com Deus em termos dessa história. Assim, tradições surgiram, desenvolviam-se e muitas vezes tinham de ser remodeladas conforme o exigiam as circunstâncias da vida.

A explicação definitiva para a durabilidade de uma tradição parece ter sido sua capacidade de permanecer fundamentalmente inalterada e, mesmo assim, aplicável a novas situações. Se não pudesse ser remodelada nem renovada, deixaria de ter autoridade e seu valor revelador seria questionável. Em sentido bastante real, a autoridade bíblica está presente na interação entre uma tradição autêntica e a comunidade viva.


QUEM DECIDE?

Reconhecer o caráter oficial do processo conhecido como formação da tradição não é negar o papel desempenhado por pessoas expressivas dentro da comunidade. Alguém precisava tomar decisões muito importantes para o resto do grupo. Entretanto, essas pessoas expressivas não criaram simplesmente entendimentos ou doutrinas religiosas independentes da comunidade. Algumas podem ter tido intuições criativas singulares, mas o que quer que produzissem tinha de ser reconhecido e referendado pelos outros como interpretação válida da fé comunitária. Isso explica por que algumas das proclamações dos profetas, por exemplo, não tiveram aceitação imediata. Talvez a maioria do povo não tenha considerado autênticas suas proclamações. Em tais casos, muitas vezes foram os discípulos dos profetas que preservaram os ensinamentos. Somente em época mais tardia, o caráter de autoridade dos pronunciamentos obteve amplo reconhecimento.

Segundo essa visão, uma variedade de forças agia para modelar e remodelar a consciência e o auto-entendimento do povo. Isso significa que não havia uma localização única de autoridade. Alguns indivíduos e grupos originavam as tradições; outros contribuíam para seu desenvolvimento e sua remodelação; outros contribuíam com a determinação de seu lugar e importância no auto-entendimento comunitário. Os que ocupavam posições de liderança dentro da comunidade podem ter autenticado as tradições, mas o povo precisava confirmar essa decisão.


A BÍBLIA É RELEVANTE E AINDA NORMATIVA?

Esta pergunta pode ser feita igualmente por fiéis e infiéis. Em cada caso, parte de determinado entendimento da natureza do material e evoca resposta diferente. Qualquer um pode sentir-se profundamente tocado pela qualidade inspirada da literatura, religiosa ou não. O fiel, entretanto, aceita as tradições da comunidade de fé como sendo, de certo modo, vinculadoras. Vê-as como algo que não só explica a fé, mas também forma os membros dentro dessa fé. São as normas e os padrões que orientam a vida dos fiéis. Exercem um tipo de autoridade sobre essas pessoas. Para que fazem isso é questão da fé obediente da comunidade. Por que o fazem é questão de inspiração. Como falam a uma nova situação é questão de interpretação.

O cânon, então, tem a ver com autoridade. É uma afirmação do passado que continua a ser atuante no presente. Como literatura, é uma coleção dos escritos religiosos formativos da comunidade. Os fiéis crêem que esses escritos tiveram suas origens na revelação e que, como memória histórica, continuam hoje a ser fonte de revelação.

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