Bíblia Apócrifa

Os Livros Apócrifos

Ao lado dos livros canônicos, existem outros livros que versam sobre os mesmo assuntos de alguns escritos bíblicos, mas que não são tidos como inspirados e, portanto, não estão incluídos no cânon oficial.

São, em geral, contemporâneos dos escritos bíblicos, ou pouco posteriores, datando dos últimos séculos a.C ou dos primeiros séculos da era cristã. Estes livros, paralelos aos canônicos e que a eles se assemelham pelos títulos e pelos autores a que são atribuídos, receberam o nome de “apócrifos”.

Apócrifo é palavra grega (apócryphos) que significa escondido, secreto, oculto. Foram assim chamados, porque não eram de uso público, isto é, não eram usados oficialmente na liturgia e no ensino.

Alguns são de origem judaica e relacionam-se com fatos ou escritos do Antigo Testamento. P. ex.: O Livro de Henoc, Os Salmos de Salomão. Não eram lidos nas sinagogas.

Outros, de caráter cristão, relacionam-se com o Novo Testamento. P. ex.: Evangelho de Pedro, Atos de Paulo. Não eram lidos nas igrejas.

Quase sempre aparecem sob nomes fictícios de autores inspirados.


Os Ágrafos

Os ágrafos distinguem-se dos apócrifos. São Palavras ou frases avulsas, proferidas por Jesus Cristo e que não se encontram nos evangelhos canônicos, mas foram conservadas em outros livros do Novo Testamento e sobretudo em outras fontes. Ágrafo é expressão grega (ágraphus) que significa “não escrito”.

Lemos em At 20, 35: “Em tudo eu vos mostrei que é trabalhando assim que devemos sustentar os fracos, recordando-nos das palavras do Senhor Jesus, que disse: Há mais felicidade em dar do que em receber”. Estas palavras de Jesus não se encontram nos evangelhos; foram conservadas pela tradição. Constituem um exemplo de ágrafo. Seu número é reduzido, porque alguns decorrem de pequenas modificações de textos canônicos.


Protocanônicos e Deuterocanônicos

Feita a distinção fundamental entre canônicos e apócrifos, convém lembrar que alguns poucos dentre os livros canônicos recebem o nome de deuterocanônicos, para distinguir dos outros, a maioria, chamados protocanônicos.

A distinção é recente; data do século XVI. Foi usada pela primeira vez por Sixto de Sena. Protocanônicos são os livros sobre cuja canonicidade nunca houve dúvida. Constituem a primeira lista ou primeiro cânon oficial. Deuterocanônicos são aqueles cuja canonicidade foi definida depois de superadas algumas dúvidas. Constituem uma como segunda lista.

É legítima a distinção sob o ponto de vista histórico, mas todos eles têm o mesmo valor oficial como norma religiosa. Os deuterocanônicos não são inferiores aos outros e não devem ser confundidos com os apócrifos.

São deuterocanônicos no Antigo testamento: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, Primeiro e Segundo Livros dos Macabeus, os sete últimos capítulos de Ester (10, 4-16, 24 na Vulgata) e três passagens de Daniel (3, 24-90; 13 e 14). Destes livros só se conservou a tradução grega, embora muitos tenham sido provavelmente escritos em hebraico ou aramaico.

No Novo Testamento são deuterocanônicos: Carta aos Hebreus, Carta de São Tiago, Segunda Carta de São Pedro, Segunda e Terceira Cartas de São João, Carta Católica de São Judas e Apocalipse.


Apócrifos e Pseudepígrafos

É também necessário lembrar que os autores protestantes não usam, para o Antigo Testamento (AT), a expressão apócrifos no mesmo sentido dos autores católicos.

Para eles os apócrifos são aqueles que denominamos deuterocanônicos. Aos apócrifos do AT dão o nome grego de pseudepígrafos, que significa etimologicamente: “que tem falso título”. Compõe-se do adjetivo pseudés = falso, e do substantivo epigrafé = título, inscrição, epígrafe.

A divergência entre o cânon católico e o cânon judaico e protestante para o Antigo Testamento provém do fato de os judeus e os protestantes aceitarem somente os livros cujo original hebraico se conservou, ao passo que a Igreja Católica, seguindo os apóstolos, aceitou livros cujos originais hebraicos ou aramaicos se perderam e dos quais se conservou a tradução grega. Um deles – O Livro da Sabedoria – foi escrito diretamente em grego.


Principais Apócrifos do Antigo Testamento

Os livros apócrifos do Antigo Testamento são divididos em três grupos, conforme o gênero literário. De alguns se conservaram apenas fragmentos. Aqui serão indicados somente os títulos dos principais, com as datas prováveis de sua composição. As obras não canônicas escritas nessa época formam parte da denominada literatura intertestamentária.

 Título Data provável
 Gênero Histórico ou Pseudo-histórico
 Livro dos Jubileus. Também chamado Gênesis ou Apocalipse de Moisés De origem palestina II séc. a.C.
 Terceiros Livro de Esdras ou 1o Esdras grego 100 a.C
 Terceiro Livro dos Macabeus Princípio da era cristã
 Ascensão de Isaías Princípio da era cristã
  
 Gênero Profético ou Apocalíptico 
 O Livro de Henoc ou Henoc Etíope De origem palestina, entre 175 e 50 a.C.
 A Assunção de Moisés De origem palestina, entre 4 a.C e 6 d.C.
 O Livro dos Segredos de Henoc, ou Henoc Eslavo Princípio da era cristã
 Os Salmos de Salomão Entre 80 e 40 a.C.
 O 4o Livro de Esdras ou Apocalipse de Esdras Entre 75 e 95 d.C.
 O Apocalipse de Baruc Princípio de 2séc. d.C. ao 2o séc. d.C.
 A Sibila Judaica Do 2o séc. a.C  ao 2séc. d.C.
  
 Gênero Hadádico ou Exortativo 
 O termo hebraico haggadah, propriamente, anúncio, narrativa, indica um interpretação da Bíblia com tendência exortativa. 
 A Prece de Manassés Séc. II a.C.
 Os Testamentos dos Doze Patriarcas De 150 a 100 a.C.
 O 4Livro dos Macabeus Princípio da era cristã
  

- Entre os manuscritos de textos bíblicos descobertos em Qumran, a partir de 1947, encontram-se textos extrabíblicos que podem ser aqui incluídos. Assim

Regra da Comunidade

Regra de Guerra

Hinos

Comentários de Habacuc e outros comentários        

Os apócrifos do Antigo Testamento são úteis e têm valor histórico, porque mostram muitas idéias religiosas e morais que predominavam entre o povo no tempo de Cristo.

Como veremos, pelo menos dois apócrifos do Antigo Testamento são citados em livro canônico do Novo Testamento.

Principais Apócrifos do Novo Testamento

Constituem quatro grupos.

Evangelhos

- Evangelho segundo os Hebreus, restam fragmentos.    Fim do 1o  séc. d.C.

- Evangelho dos Ebionitas ou dos Doze Apóstolos            De origem herética. Meados do séc. II d.C.

- Evangelho segundo os Egípcios                                       Meados do séc. II d.C. De inspiração gnóstica.

- Evangelho de Pedro                                                         Meados do séc. II d.C. De tendência docetista

- Evangelhos de: Mateus – Filipe – Tomé – André –         Do 2o e 3o séc. d.C. De fundo herético

  Bartolomeu – Barnabé

- Proto-evangelho de Tiago                                                2o séc. d.C.

Atos

- Atos de João                                                                    Entre 150 e 180 d.C.

- Atos de Paulo                                                                  Entre 160 e 170 d.C.

- Atos de Pedro                                                                  Fim do 2o séc. d.C.

- Atos de Tomé                                                                  3o ou 4o séc. d.C. De origem síria.

Epístolas

- Terceira Epístola aos Coríntios                                     2o séc. d.C.

- Epístola aos Laodicenses                                               Fim do 2o séc. d.C.

- Cartas dos Apóstolos                                                     Cerca de 180 d.C.

- Correspondência entre Sêneca e São Paulo                 4o séc. d.C.

Apocalipses

- Apocalipse de Pedro                                                     Meados do séc. 2o d.C.

- Apocalipse de Paulo                                                     380 d.C.

- Sibila Cristã                                                                   3o séc. em diante.


Valor dos Apócrifos do Novo Testamento

São de valor desigual os diversos livros ou fragmentos apócrifos do Novo Testamento que chegaram até nós. Cada um deve, portanto, ser julgado separadamente. Pode-se, contudo, ter uma visão geral de seus méritos e de suas falhas ou erros.

Entre os evidentes valores enumeram-se:

Das narrativas apresentadas decorrem idéias teológicas fundamentais. Embora nem sempre explicitamente enunciadas, refletem as convicções vigentes naquela época e contêm elementos da fé cristã. Assim a divindade de Cristo e a Virgindade de Maria (nos apócrifos da infância); a descida de Cristo aos infernos (nos evangelhos sobre paixão-morte-ressurreição), a Assunção de Maria (nos apócrifos sobre a dormição = morte de Maria). Ao lado dos ensinamentos ortodoxos, aparecem, ao mesmo tempo, divergências doutrinárias que caracterizam as principais seitas e heresias. Constituem, é certo, pontos negativos, mas trazem esclarecimentos para a história da teologia e da Igreja.

Alguns dos apócrifos, principalmente dos mais antigos, nos transmitiram pormenores apreciáveis, que se perpetuaram na liturgia e na arte. Assim os nomes dos pais de Maria, Joaquim e Ana; a apresentação de Maria no templo; a morte de são José, assistido por Jesus e Maria; a morte de Maria, tendo os apóstolos em torno do leito; o nascimento de Jesus numa gruta e a presença do boi e do jumento; o nome dos três reis magos; o nome de Longino, o soldado romano que traspassou o lado de Jesus com a lança; a história de Verônica e do seu véu, etc.

Gozaram, por isso, de especial estima e exerceram grande influência entre os primeiros cristãos.

Podem ser considerados autênticos diversos fatos da vida de Jesus e muitos milagres por ele realizados, que não se encontram nos livros canônicos, mas foram conservados pelos apócrifos.

De fato, diz São João em seu evangelho: “Fez Jesus, em presença de seus discípulos, muitos outros milagres que não estão neste livro” (Jo 20, 30).

Os evangelhos sinóticos – Mt, Mc e Lc – falam, por sua vez, de muitas curas e milagres, em diversas oportunidades, sem, contudo, registrá-los separadamente.

Do mesmo modo, a existência de “ágrafos” mostra que os evangelhos não registraram exaustivamente todas as palavras de Jesus. Comparativamente, pode-se lembrar que pelo menos dois apócrifos do Antigo Testamento são citados na epístola de Judas. No v. 9 a “Assunção de Moisés” e nos v. 14 e 15 o “Livro de Henoc” (1,7).

Entre as falhas e erros podemos destacar:

Muitos apócrifos contêm passagens eivadas de fantasias e lendas inverossímeis.

Outros, em grande número, estão infiltrados de princípios errôneos decorrentes de heresias que surgiram nos primeiros séculos.

Umas eram de origem judaica e consistiam na mistura de princípios da lei mosaica com a doutrina cristã. Assim os ebionitas para quem Jesus não era Deus, mas o fiel cumpridor da lei, o Messias esperado. O nome provém da palavra hebraica ebiyôn que significa pobre. É o termo que aparece na primeira bem-aventurança: “Felizes os pobres em espírito ...”. Consideravam-se como fiéis praticantes das bem-aventuranças.

Outras decorrem das idéias predominantes nos meios cultos daquela época. A principal foi o gnosticismo, que se reveste de diversos aspectos e constitui uma tentativa de associação do cristianismo com idéias da filosofia grega. Gnose (gnôsis) quer dizer conhecimento. O gnosticismo seria o mais profundo conhecimento de Deus, do mal e da salvação. A perfeição consistiria na fusão da alma com a divindade.

Outra forma de heresia era o docetismo, nome derivado da palavra grega (dókesis) que significa aparência. A encarnação de Cristo teria sido só aparente, porque a matéria é um mal absoluto. Jesus, sendo Deus, não podia padecer nem morrer.

São Paulo, nas epístolas, embora sem citar nomes, faz referências a desvios na fé. Em Cl 2,8: “Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por meio da filosofia, vã e sedutora, que se baseia na tradição humana e nos elementos do mundo e não em Cristo”. Em 1Tm 6,20-21: “Ó Timóteo, guarda o depósito, evitando as ímpias e vãs disputas e as contestações da falsa ciência. Alguns, por segui-las, desviaram-se da fé”.

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