Documentos da Igreja - Encontro 04

Documento de Aparecida.


O documento de Aparecida é o texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, inaugurado em 13 de maio de 2007 por S.S. Bento XVI, reunidos aos pés da Santíssima Virgem Nossa Senhora Aparecida, no Brasil.

Na apresentação do documento, o Papa faz uma breve narrativa do encontro e sublinha: “Neste documento há numerosas e oportunas indicações pastorais, motivadas por ricas reflexões à luz da fé e do atual contexto social. Entre outras, li com particular apreço as palavras que exortam a dar prioridade à Eucaristia e à santificação do dia do Senhor nos programas pastorais, assim como as que expressam o desejo de reforçar a formação cristã dos fiéis, em geral, e dos agentes de pastoral, em particular.”


Passamos então a refletir sobre alguns pontos específicos tratados na Conferência e, sempre que necessário, faremos a abordagem de temas a que nos remetam, conforme as notações, seja para a Bíblia, seja para algum documento da Igreja.


Introdução.


[...]


5. Desde a primeira evangelização até os tempos recentes, a Igreja tem experimentado luzes e sombras. Ela escreveu páginas de nossa história com grande sabedoria e santidade. Sofreu também tempos difíceis, tanto por torturas e perseguições como pelas debilidades, compromissos mundanos e incoerências, em outras palavras, pelo pecado de seus filhos que desfiguraram a novidade do Evangelho, a luminosidade da verdade e a prática da justiça e da caridade. No entanto, o mais decisivo na Igreja é sempre a ação santa de seu Senhor.


6. Por isso, diante de tudo damos graças a Deus e o louvamos por tudo o que nos tem sido dado. Acolhemos toda a realidade do continente como dom: a beleza e fecundidade de suas terras, a riqueza de humanidade que se expressa nas pessoas, famílias, povos e culturas do Continente. Sobretudo nos foi dado Jesus Cristo, a plenitude da revelação de Deus, um tesouro incalculável, a “pérola preciosa” (cf. Mt 13,45-46), o Verbo de Deus feito carne, Caminho, Verdade e Vida dos homens e das mulheres, aos quais abre um destino de plena justiça e felicidade. Ele é o único Libertador e Salvador que, com sua morte e ressurreição, rompeu as cadeias opressivas do pecado e da morte, revelando o amor misericordioso do Pai e a vocação, dignidade e destino da pessoa humana.


7. As maiores riquezas de nossos povos são a fé no Deus amor e a tradição católica na vida e na cultura. Manifesta-se na fé madura de muitos batizados e na piedade popular que expressa “o amor a Cristo sofredor, o Deus da compaixão, do perdão e da reconciliação (...), o amor ao Senhor presente na Eucaristia (...), - o Deus próximo dos pobres e dos que sofrem, - a profunda devoção à Santíssima Virgem de Guadalupe, de Aparecida ou dos diversos títulos nacionais e locais. Expressa-se também na caridade que em qualquer lugar anima gestos, obras e caminhos de solidariedade para com os mais necessitados e desemparados. Está presente também na consciência da dignidade da pessoa, na sabedoria diante da vida, na paixão pela justiça, na esperança contra toda esperança e na alegria de viver que move o coração de nossos povos, ainda que em condições muito difíceis. As raízes católicas permanecem na sua arte, linguagem, tradições e estilo de vida, ao mesmo tempo dramático e festivo, e no enfrentamento da realidade. Por isso, o Santo Padre nos responsabilizou ainda mais, como Igreja, na “grande tarefa de proteger e alimentar a fé do povo de Deus”.


8. O dom da tradição católica é um cimento fundamental de identidade, originalidade e unidade da América Latina e do Caribe: uma realidade histórico-cultural, marcada pelo Evangelho de Cristo, realidade na qual é grande o pecado – abandono de Deus, comportamentos viciosos, opressão, violência, ingratidões e misérias – porém, onde é bem maior a graça da vitória pascal. Nossa Igreja goza, não obstante as debilidades e misérias humanas, de alto índice de confiança e de credibilidade por parte do povo. A Igreja é morada de povos irmãos e casa dos pobres.


10. Esta V Conferência se propõe “a grande tarefa de proteger e alimentar a fé do povo de Deus e recordar também aos fiéis deste Continente que, em virtude de seu batismo, são chamados a ser discípulos e missionários de Jesus Cristo. Com desafios e exigências, abre-se a passagem para um novo período da história, caracterizado pela desordem generalizada que se propaga por novas turbulências sociais e políticas, pela difusão de uma cultura distante e hostil à tradição cristã e pela emergência de variadas ofertas religiosas que tratam de responder, à sua maneira, à sede de Deus que nossos povos manifestam.


11. A Igreja é chamada a repensar profundamente e a relançar com fidelidade e audácia sua missão nas novas circunstâncias latino-americanas e mundiais. Ela não pode fechar-se frente àqueles que só veem confusão, perigos e ameaças ou àqueles que pretendem cobrir a variedade e complexidade das situações com uma capa de ideologias gastas ou de agressões irresponsáveis. Trata-se de confirmar, renovar e revitalizar a novidade do Evangelho arraigada em nossa história, a partir de um encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo, que desperte discípulos e missionários. Isso não depende tanto de grandes programas e estruturas, mas de homens e mulheres novos que encarnem essa tradição e novidade, como discípulos de Jesus Cristo e missionários de seu Reino, protagonistas de uma vida nova para uma América Latina que deseja reconhecer-se com a luz e a força do Espírito.


12. Não resistiria aos embates do tempo uma fé católica reduzida a uma bagagem, a um elenco de algumas normas e de proibições, a práticas de devoção fragmentadas, a adesões seletivas e parciais das verdades da fé, a uma participação ocasional em alguns sacramentos, à repetição de princípios doutrinais, a moralismos brandos ou crispados que não convertem a vida dos batizados. Nossa maior ameaça “é o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas, na verdade, a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez” (RATZINGER, J. Situação atual da fé e da teologia. Conferência pronunciada no Encontro de Presidentes de Comissões Episcopais da América Latina para a doutrina da fé, celebrado em Guadalajara, México, 1996. Publicado em L'Osservatore Romano, em 1 de novembro de 1996.) A todos nos toca recomeçar a partir de Cristo, reconhecendo que “não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou de uma ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva.


13. Na América Latina e no Caribe, quando muitos de nossos povos se preparam para celebrar o bi-centenário de sua independência, encontramo-nos diante do desafio de revitalizar nosso modo de ser católico e nossas opções pessoais pelo Senhor, para que a fé cristã se enraíze mais profundamente no coração das pessoas e dos povos latino-americanos como acontecimento fundante e encontro vivificante com Cristo. Ele se manifesta como novidade de vida e missão em todas as dimensões da existência pessoal e social. Isso requer, a partir de nossa identidade católica, uma evangelização muito mais missionária, em diálogo com todos os cristãos e a serviço de todos os homens. Do contrário, “o rico tesouro do Continente Americano … seu patrimônio mais valioso: a fé no Deus de amor ...” (Bento XVI, (Homilía de inauguração da V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano, 13 de maio de 2007, Aparecida Brasil) corre o risco de seguir desgastando-se e diluindo-se de maneira crescente em diversos setores da população. Hoje se propõe escolher entre caminhos que conduzem à vida ou caminhos que conduzem à morte (cf. Dt 30,15). Caminhos de morte são os que levam a dilapidar os bens que recebemos de Deus através daqueles que nos precederam na fé. São caminhos que traçam uma cultura sem Deus e sem seus mandamentos ou inclusive contra Deus, animada pelos ídolos do poder, da riqueza e do prazer efêmero, a qual termina sendo uma cultura contra o ser humano e contra o bem dos povos latino-americanos. Caminhos de vida verdadeira e plena para todos, caminhos de vida eterna, são aqueles abertos pela fé que conduzem à “plenitude de vida que Cristo nos trouxe: com esta vida divina também se desenvolve em plenitude a existência humana, em sua dimensão pessoal, familiar, social e cultural.” (Discurso inaugural do Papa da V Conferência). Essa é a vida que Deus partilha conosco, por seu amor gratuito, porque “é amor que dá vida” (Homilia de Bento XVI). Esses caminhos frutificam nos dons de verdade e amor que nos foram dados em Cristo, na comunhão dos discípulos e missionários do Senhor, para que a América Latina e o Caribe sejam efetivamente um continente no qual a fé, a esperança e o amor renovem a vida das pessoas e transformem as culturas dos povos.


14. […] O que nos define não são as circunstâncias dramáticas da vida, nem os desafios da sociedade ou as tarefas que devemos empreender, mas acima de tudo o amor recebido do Pai graças a Jesus Cristo pela unção do Espírito Santo. […] Aqui está o desafio fundamental que enfrentamos: mostrar a capacidade da Igreja para promover e formar discípulos e missionários que respondam à vocação recebida e comuniquem por toda parte, transbordando de gratidão e alegria, o dom do encontro com Jesus Cristo. Não temos outro tesouro a não ser este. Não temos outra felicidade nem outra prioridade senão a de sermos instrumentos do Espírito de Deus na Igreja, para que Jesus Cristo seja encontrado, seguido, amado, adorado, anunciado e comunicado a todos, não obstante todas as dificuldades e resistências. Este é o melhor serviço – o seu serviço! - que a Igreja deve oferecer às pessoas e nações.


18. Conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma graça, e transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor nos confiou ao nos chamar e nos escolher. Com os olhos iluminados pela luz de Jesus Cristo ressuscitado, podemos e queremos contemplar o mundo, a história, os nossos povos da América Latina e do Caribe, e cada um de seus habitantes.


19. Em continuidade com as Conferências Gerais anteriores (Rio de Janeiro, Medellín, Puebla e Santo Domingo) do Episcopado Latino-americano, este documento faz uso do método “ver, julgar e agir”. Este método implica em contemplar a Deus com os olhos da fé através de sua Palavra revelada e o contato vivificador dos Sacramentos, a fim de que, na vida cotidiana, vejamos a realidade que nos circunda à luz de sua providência e a julguemos segundo Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida, e atuemos a partir da Igreja, Corpo Místico de Cristo e Sacramento universal de salvação, na propagação do Reino de Deus, que se semeia nesta terra e que frutifica plenamente no Céu. Muitas vozes, vindas de todo o Continente, foram oferecidos contribuições e sugestões nesse sentido, afirmando que este método tem colaborado para que vivamos mais intensamente nossa vocação e missão na Igreja: tem enriquecido nosso trabalho teológico e pastoral e, em geral, tem-nos motivado a assumir nossas responsabilidades diante das situações concretas de nosso continente. Este método nos permite articular, de modo sistemático, a perspectiva cristã de ver a realidade; a assunção de critérios que provêm da fé e da razão para seu discernimento e valorização com sentido crítico; e, em consequência, a projeção do agir como discípulos missionários de Jesus Cristo. A adesão crente, alegre e confiante em Deus Pai, Filho e Espírito Santo e a inserção eclesial, são pressupostos indispensáveis que garantem a eficácia deste método”. (Cf CELAM, Síntese das contribuições recebidas para a V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, 34-35).

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