Catequese‎ > ‎Catequese de Pais‎ > ‎

2014/06 - Ciência e Religião: diálogo possível?

Ciência e Religião: diálogo possível?

Existe a possibilidade real de um diálogo entre ciência e religião, que leve em conta as especificidades de cada campo sem, no entanto, esvaziar a discussão epistemológica iniciada pelo sociólogo Max Weber e retomada por Ian Barbour, Fritjof Capra e Boaventura Santos, entre outros?

Para Luis Macedo, a existência de tais relações pode ser buscada na análise dos discursos dos participantes do Instituto Ciência e Fé, entidade formada por cientistas e religiosos, que se dedica a estudar as inter-relações entre os dois campos. Estas relações, por sua vez, podem assumir várias formas (veja quadro abaixo), a saber: conflito e independência, delineando a visão predominante de uma ciência moderna; e diálogo e interação, que pode sinalizar uma teoria emergente da racionalidade científica, que muitos denominam de pós-moderna.

TIPOLOGIA DE IAN BARBOUR

Barbour fez as fundações históricas imediatas do campo interdisciplinar entre ciência e religião - na década de 60. Chamou o resultado desta metodologia de “realismo crítico”, a qual serve de “mão-dupla” para ambas formas de conhecimento, na qual existem 4 tipos em que ciência e religião se relacionam.

Conflito - Visão moderna, as duas formas de ver o mundo são inconciliáveis, como acontece no caso clássico Criacionismo X Evolucionismo.

Independência - Religião e ciência permanecem isoladas uma da outra, sem conflito, mas também sem nenhum diálogo ou qualquer interação.

Diálogo - Esse modelo de relacionar ciência e religião inclui questões de fronteira e paralelos metodológicos.

Interação - É mais comum na área teológica e procura integrar as duas visões, como a que coloca que o evolucionismo não nega o criacionismo, mas seria a forma de como Deus age no mundo.

Através da análise conceitual do desencantamento do mundo, proposto por Weber, vou ao início da trajetória do pensamento ocidental a respeito das pertinências e incongruências de tais relações. Segundo Weber, o processo de rompimento com os meios mágicos de manipulação e interpretação do mundo, em um primeiro momento, e dos meios religiosos, em momento posterior, foram desencadeados pelo surgimento de uma racionalidade prática e mundana que pensava vislumbrar "o domínio total das leis da natureza e do progresso humano".

O rompimento de outras esferas de conhecimento com a esfera religiosa, na modernidade, proporcionou um "politeísmo de valores" que tornariam ciência e religião inconciliáveis. Pareceria, assim, que a ciência teria tomado, finalmente, o lugar da religião enquanto modelo explicativo do mundo. Mas, com o advento da bomba nuclear, das pesquisas com cobaias humanas e da pesquisa com armas químicas, esta racionalidade científica começou a ser duramente questionada, principalmente com relação a sua pretensa neutralidade.

No entanto, o surgimento de uma teoria científica em transição, no princípio do séc. XX trouxe novas questões à cena, impulsionadas especialmente pela epistemologia de Popper, Bachelard e Kuhn. Mas foi com Morin e Capra, e com suas teorias da complexidade e sistemas que esta discussão ganhou terreno, culminando na teoria da ciência pós-moderna, representada por Boaventura de Sousa Santos. Segundo este, o paradigma emergente que colocará em xeque a racionalidade científica moderna e dará vazão ao surgimento da teoria pós-moderna se baseia em quatro teses. São elas: "todo conhecimento científico natural é científico social"; "todo o conhecimento é local e total"; todo o conhecimento é autoconhecimento"; e "todo o conhecimento científico visa constituir-se em senso comum". Assim, a ciência pós-moderna, ao sensocomunizar-se, não despreza o conhecimento que produz tecnologia, mas entende que, tal como o conhecimento se deve traduzir em auto-conhecimento, o desenvolvimento tecnológico deve traduzir-se em sabedoria de vida.

Este novo paradigma, ao incorporar saberes relegados pela ciência moderna - como a religião, a teologia e os conhecimentos vernaculares - experimenta um modo holístico de interpretação e práxis científica. Alguns autores que defendem este novo paradigma propõem uma tentativa de relacionar o pensamento científico ocidental e o conhecimento religioso oriental - especialmente no que trata do Dalai Lama, líder espiritual do Tibet - de forma a demonstrar as possibilidades para a ciência advindas deste diálogo. Capra encontrou, por sua vez, diversos paralelos entre a física quântica e a experiência mística oriental. Isto leva o autor a sugerir a existência de uma "epistemologia do reencantamento".

No tangente aos estudiosos do Instituto em questão, a pesquisa buscou, através da análise de discurso de três cientistas - todos eles do campo das ciências naturais - e três religiosos, perscrutar as possibilidades deste diálogo no campo real. Para os cientistas, a racionalidade científica é independente e conflituosa com a racionalidade religiosa, por não se adequarem à metodologia científica por eles aplicada. O autor conclui serem eles representantes da ciência moderna.

O diálogo exercido por eles dentro do Instituto não invade as questões epistemológicas, ou seja, não modifica a maneira de "fazer ciência", proposta pela teoria pós-moderna.
Para os religiosos, "a concepção religiosa pode moldar-se e interagir de acordo com o avanço científico", como no caso do evolucionismo de Darwin, que não exclui, em sua gênese, a teoria bíblica do criacionismo. O conflito, neste caso, estaria mais relegado ao campo dos princípios, onde a moralidade comum da crença religiosa entraria em atrito com algumas áreas de pesquisa da ciência moderna.

CIENTISTA PROF. WALDEMIRO GREMSKI

O professor Waldemiro Gremski é especialista em biologia celular, trabalhando hoje com biotecnologia, além de ser diretor de Pesquisa e Pós-graduação da PUCPR. Atualmente está pesquisando sobre o veneno da aranha marrom, mais precisamente em sua parte molecular. A sua formação pessoal foi católica, estudando 9 anos em um seminário dos padres vicentinos. Porém, ao adentrar na carreira científica a sua formação entrou em choque com as suas convicções religiosas.

Para ele, a ciência e a religião não são totalmente inconciliáveis. Contudo, por ser a metodologia científica muito rígida, o conhecimento religioso não pode ser aplicado ao conhecimento científico. O diálogo entre os dois serve para que surja uma "fé racional", deixando de lado o literalismo bíblico. Ou seja, na visão do professor, o conflito está latente dentro da metodologia, porém isto não exclui o diálogo, como forma de buscar uma fé racional. Os dois conhecimentos, para ele, também são independentes.

CIENTISTA PROFª. ELEIDI FREIRE-MAIA

A doutora em genética e biologia molecular Eleidi Chautard-Freire-Maia, professora sênior da UFPR, também tem como preceito religioso o catolicismo. Contudo, a religião não foi forte em sua formação, pois sua família não era extremamente católica e tendo estudando sempre em escola públicas, sem caráter religioso.

A concepção da professora Eleidi também é de que a ciência é dura, ou seja, ela não aceita a interferência da religião dentro da sua racionalidade. Isto porque a fé não pode responder às questões da ciência, a fé tenta explicar os fatos naturais misticamente. Porém, "as duas estão à procura de verdades", só que de maneira diferentes. Enquanto a ciência as procura" pelo método objetivo, a fé as procura no campo da subjetividade. O conflito para a professora também é latente, cuja metodologia são totalmente independentes, porém com os mesmos objetivos. O diálogo é necessário para tornar a fé menos obscura.

REVERENDO JEAN CARLOS SELLETI

Jean Carlos Selleti é professor da Faculdade Evangélica e membro do comitê de ética desta faculdade, onde analisa os projetos de pesquisa dos alunos. É formado em teologia, com especialização e mestrado em bioética. Sua formação também foi católica, porém há quase 15 anos se tornou pastor presbiteriano independente.

O diálogo pode acontecer, apesar de ser muito difícil. Isto porque a ciência tem um objeto palpável enquanto o objeto religioso (Deus) não é. Os dois conhecimentos não podem chegar totalmente à verdade, sendo assim que o diálogo pode ajudar um a aprimorar o conhecimento do outro. Aqui vemos um diálogo de mão dupla, o qual a pesquisa procurava. O campo de bioética é um dos locus deste diálogo. O diálogo para o reverendo é mais profundo do que para os outros dois, apesar de também enxergar metodologias independentes e conflituosas.

CIENTISTA DOUTOR CÍCERO URBAN

Cícero Urban é formado em medicina, cuja especialidade é cirurgia oncológica e mastologia. Também é especialista em Bioética pela Universidade do Sagrado Coração em Roma. Atualmente é professor da Unicemp, ministrando Bioética e Metodologia Científica no curso de medicina. Sua formação espiritual foi Católica e para ele a religião é muito importante para a sua vida, tendo uma função bem definida: "ela é base de moralidade, base de comportamento e modelo pessoal, familiar e profissional.”

Urban crê que a relação entre religião e ciência é de complementaridade, tendo como objeto a vida. Contudo, a religião não interfere no método científico, o qual ainda possibilita uma explicação com um grau maior de profundidade do que a religião. Porém elas se complementam, porque acredita que a ciência deixa de lado algumas coisas em sua profissão médica, como reconfortar uma família de um paciente que morreu. Aqui vemos ainda um conflito dentro da metodologia, ou seja, a ciência ainda está fechada para os outros saberes. Porém, assim como Selleti, ele traz para o campo científico preceitos éticos religiosos, através de um diálogo não epistemológico.

RELIGIOSO PROF. ANTONIO CARLOS COELHO

O professor Antonio Carlos Coelho é judeu e ministra aulas sobre ecumenismo e judaísmo do Studium Theologicum. A sua história acadêmica é curta, porém sua carreira como "autodidata" é digna de nota. Começou cursando ciências sociais, mas não se formou, conseguindo sua formação no curso de História. Como autodidata estudou teologia com os jesuítas em Belo Horizonte e arqueologia bíblica e tradição judaica em Israel.

Coelho crê que as duas visões de mundo são totalmente independentes uma da outra. Enquanto a religião responde a seus problemas espirituais sozinha, a ciência não busca nenhuma referência na religião. Contudo, para o professor, o diálogo entre ciência e fé pode ocorrer quando o cientista de fé sente a necessidade de conciliar as duas sabedorias. E um dos resultados é de que a ciência não é tão conflituosa quanto possa parecer. Ou seja, a visão predominante para ele é a independência, porém o diálogo pode acontecer no campo pessoal.

Pe.ADILSON SCHIO

Adilson Schio, MS é padre da Igreja Católica Apostólica Romana, um missionário saletino, Superior Provincial dos Missionários Saletinos no Brasil e preside a Fundação Salette, entidade parceira do Instituto Ciência e Fé, na realização de eventos e publicações.

Para ele o diálogo faz com que tanto ciência quanto religião pisem em ovos, enfrentando a boa constituição das racionalidades, que não podem deixar de existir. Porém, o conflito não é tao forte pela parte da Igreja Católica, pois a ciência vai mudando a concepção religiosa, como no caso do heliocentrismo. Porém, quando a ciência esbarra no principio primordial da religião (vida) ele se torna latente. Por isso o diálogo só pode ocorrer no campo do entendimento, mas não no campo dos fundamentos. Percebe-se que para ele é importante manter a independência das duas, apesar de que a ciência ajuda em alguns entendimentos da religião, havendo conflito nos princípios que as duas podem pregar.

Abaixo a posição da Igreja Católica, conforme o Catecismo.

Ciência e fé

§159 Fé e ciência. "Porém, ainda que a fé esteja acima da razão, não poderá jamais haver verdadeira desarmonia entre uma e outra, porquanto o mesmo Deus que revela os mistérios e infunde a fé dotou o espírito humano da luz da razão; e Deus não poderia negar-se a si mesmo, nem a verdade jamais contradizer a verdade." "Portanto, se a pesquisa metódica, em todas as ciências, proceder de maneira verdadeiramente científica, segundo as leis morais, na realidade nunca será oposta à fé: tanto as realidades profanas quanto as da fé originam-se do mesmo Deus. Mais ainda: quem tenta perscrutar com humildade e Perseverança, os segredos das coisas, ainda que disso não tome consciência, e como que conduzido pela mão de Deus, que sustenta todas as coisas, fazendo com que elas sejam o que são."

Ciência e serviço do homem

§2293 A pesquisa científica de base, como a pesquisa aplicada, constituem uma expressão significativa do domínio do homem sobre a criação. A ciência e a técnica são recursos preciosos postos a serviço do homem e promovem seu desenvolvimento integral em benefício de todos; contudo, não podem indicar sozinhas o sentido da existência e do progresso humano. A ciência e a técnica estão ordenadas para o homem, do qual provêm sua origem e seu crescimento; portanto, encontram na pessoa e em seus valores morais a indicação de sua finalidade e a consciência de seus limites.

§2294 É ilusório reivindicar a neutralidade moral da pesquisa científica e de suas aplicações. Além disso, os critérios de orientação não podem ser deduzidos nem da simples eficácia técnica nem da utilidade que possa derivar daí para uns em detrimento dos outros, e muito menos das ideologias dominantes. A ciência e a técnica exigem, por seu próprio significado intrínseco, o respeito incondicional dos critérios fundamentais da moralidade; devem estar a serviço da pessoa humana, de seus direitos inalienáveis, de seu bem verdadeiro e integral, de acordo com o projeto e a vontade de Deus.

Ciência dom do Espírito

§1831 Os sete dons do Espírito Santo são: sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus. Em plenitude, pertencem a Cristo, Filho de Davi. Completam e levam à perfeição as virtudes daqueles que os recebem. Tornam os fiéis dóceis para obedecer prontamente às inspirações divinas.

Que o teu bom espírito me conduza por uma terra aplanada (Sl 143,10)

Todos os que são conduzidos pelo Espírito Santo são filhos de Deus são filhos de Deus... Filhos e, portanto, herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo (Rm 8,14.17).


 
Comments