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2013/07 - Relacionamento de pais e filhos na perspectiva da Fé.

Relacionamento de pais e filhos na perspectiva da fé

 

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

 

A grande e honrosa tarefa que Deus reservou para os pais é a de gerar e educar os seus filhos. Mas, antes dos filhos serem nossos, eles são de Deus, já que só Deus pode dar a vida.

O Salmista canta, com toda inspiração: “Vinde, inclinemo-nos em adoração, de joelhos diante do Senhor que nos criou; Ele é o nosso Deus, nós somos o povo de que Ele é o pastor, as ovelhas que as suas mãos conduzem” (Sl 94,6-7). “Sabei que o Senhor é Deus: Ele nos fez e a Ele pertencemos” (Sl 99,3). “Fostes Vós que plasmastes as entranhas do meu corpo, Vós me tecestes no seio de minha mãe. Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso” (Sl 138,13 s).

Portanto, os filhos são, antes de tudo, filhos de Deus. Os pais são cooperadores de Deus na maior de todas as missões, gerar os filhos de Deus, à sua imagem e semelhança. Se é importante e digno produzir os bens que utilizamos: casas, roupas, móveis, alimentos..., quanto mais digno e nobre é dar a vida a novos seres! Uma só vida humana vale mais do que todo o universo material.

“Honra teu pai e tua mãe”! São Paulo nota que este é o primeiro mandamento que vem acompanhado de uma promessa: “... para que sejas feliz e tenhas vida longa sobre a terra” (Dt 5,16; Ef 6,2). Este é o primeiro mandamento que Deus deu a Israel, após os três que se referem ao relacionamento do homem com Deus. Fazendo eco a essas palavras o Papa João Paulo II, diz na Carta às Famílias: “Honra o teu pai e a tua mãe”, porque eles são para ti, em determinado sentido, os representantes do Senhor, aqueles que te deram a vida, que te introduziram na existência: numa estirpe, numa nação, numa cultura. Depois de Deus são eles os teus primeiros benfeitores. Se só Deus é bom, o próprio Bem – os pais participam de modo singular, desta bondade suprema. E por isso: honra os teus pais! Há aqui certa analogia com o culto devido a Deus” (Carta às Famílias, 15).

Todo o capítulo 3 do Livro do Eclesiástico mostra a importância dos pais na vida dos filhos, a importância da autoridade que Deus lhes confia e a necessidade dos filhos obedecerem. “Ouvi, meus filhos, os conselhos de vosso pai; segui-os de tal modo que sejais salvos” (Eclo 3,2). É evidente que os pais são colocados na vida dos filhos para conduzi-los à salvação mediante os conselhos, propiciando orientação para a vida. O filho, que despreza esses conselhos, corre o risco de se perder nos caminhos perigosos da vida. Muitos jovens se tornaram escravos dos vícios, das drogas, do crime, da prostituição, e de tantos outros males, porque não ouviram os conselhos dos seus pais. Outros se perderam porque os seus pais não lhes deram esses conselhos. Isso é muito grave! Há outros que se perderam, porque não tiveram pais para aconselhá-los.

Os filhos bem educados são a honra e a alegria dos pais e, por outro lado, Deus fortalece a autoridade dos pais sobre os filhos. Portanto, essa autoridade não é usurpada, nem falsa; ela é autêntica e vem de Deus.

Jesus disse a Pilatos que “toda autoridade vem de Deus” (Jo 19,11). Eis, uma boa razão pela qual os filhos devem obediência aos pais: a autoridade exercida por eles vem de Deus e não dos homens. “Quem honra sua mãe é semelhante àquele que acumula um tesouro. Quem honra seu pai achará alegria em seus filhos, será ouvido no dia da oração” (Eclo 3,5-6). Qual o pai e a mãe que não deseja encontrar alegria em seus filhos? Quem não deseja ser atendido por Deus em sua oração?

Essas são as promessas que Deus faz aos filhos que honrarem os seus pais. Honrar pai e mãe é como acumular um tesouro. E as promessas continuam: “Quem honra seu pai gozará de vida longa...” (v.7). Esta vida longa, que para os judeus era sinal da bênção de Deus, pode significar também uma vida abençoada por Deus. Isto equivale a dizer que honrar e servir os pais é o mesmo que honrar e servir a Deus. O Eclesiástico nos ensina o modo de o filho honrar os pais: “Honra teu pai por teus atos, tuas palavras, tua paciência a fim de que ele te dê a sua bênção” (vv.9 e 10). Honrar é uma expressão muito forte, quer dizer “encher de honra”, de glória, de respeito ... e tudo isto deve ser feito “por teus atos e tuas palavras”. Quantos filhos ofendem os seus pais por palavras: ofensas, zombarias, palavrões!...

Quantos filhos desonram seus pais com os atos: maus comportamentos, mentiras, desobediências, desgostos!... É, sobretudo, com uma vida digna e honrada que o filho honra os seus pais. Outro aspecto muito importante, que o Eclesiástico destaca, é a grandeza e importância da bênção dos pais. A bênção dos pais para os filhos não é mera formalidade social ou tradicional, mas é a bênção do próprio Deus para os filhos através dos pais, por meio daqueles que lhes deram a vida. Sobretudo para o povo judeu, essa bênção paterna era repleta de valor e desejada ansiosamente. Vemos na história dos Patriarcas, Abraão, Isaac, Jacó, que a sua bênção era garantia de felicidade para os filhos. Quando Deus chamou Abraão, o pai de todos os que crêem, disse-lhe: “Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos” (Gn 12,2). Abraão é como que a figura de todos os pais. De modo muito significativo, o livro do Gênesis mostra a preocupação de Isaac em abençoar Esaú, antes de morrer (cf. Gn 27,4).

O cuidado com os pais deve ser esmerado, sobretudo na velhice. Muitos filhos, na correria da vida, acabam se esquecendo dos pais idosos, faltando-lhes carinho, companhia e, não raro, o próprio sustento. Sabemos que é incômodo cuidar dos idosos, dos doentes... Mas é nesta hora, principalmente, que se prova o amor dos filhos por eles. “Se seu espírito desfalecer, sê indulgente, não o desprezes porque te sentes forte, pois tua caridade para com o teu pai não será esquecida” (Eclo. 3,15). Se a nossa caridade para com os outros irmãos não é esquecida por Deus, quanto mais a caridade para com os pais!

O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que “a paternidade divina é a fonte da paternidade humana” (nº 2214), e que aí está o “fundamento da honra devida aos pais”. “Honra teu pai de todo o coração e não esqueças as dores da tua mãe. Lembra-te que foste gerado por ela. O que lhes darás pelo que te deram?” (Eclo 7,27-28).

 

Relação entre pais e filhos é fundamental, diz Papa aos jovens

Unir jovens e famílias não é algo ocasional ou funcional, mas tem, na verdade, “um sentido, um valor humano, cristão e eclesial”, disse o Papa Bento XVI na última atividade de sua visita pastoral a Palermo, na Sicília, no encontro com os jovens na Praça Politeama.

O Santo Padre afirmou que, um exemplo concreto disso, é Chiara Badano. Uma jovem que faleceu com apenas 19 anos, vítima de uma doença incurável, que foi beatificada há uma semana, em Roma.

“Dezenove anos cheios de vida, de amor e de fé. Dois anos, os últimos, cheios também de dores e sofrimento, mas sempre no amor e na luz, uma luz que irradiava à sua volta e que vinha de dentro: do seu coração cheio de Deus!”

“Como é possível uma coisa destas?”, interrogou-se o Papa. “Como é que uma moça de 17, 18 anos, consegue viver tal sofrimento, humanamente sem esperança, difundindo amor, serenidade, paz, fé? Trata-se, evidentemente, de uma graça de Deus, mas esta graça foi também preparada e acompanhada pela colaboração humana: a colaboração da própria Chiara, sem dúvida, mas também dos pais e amigos”.

Bento XVI recordou o testemunho pessoal dos pais de Chiara Badano, ainda vivos, e que referem como a filha estava de fato repleta da luz de Deus, que eles próprios tinham acendido na alma da filha e que sobreviveu à prolongada provação do sofrimento, até a morte precoce.

“É fundamental – como sabeis – a relação entre pais e filhos. Não só por uma justa tradição, aliás, muito sentida pelos sicilianos. É algo maior, que o próprio Jesus nos ensinou: é a chama da fé, que se transmite de geração em geração; chama que está presente também no rito do Batismo, quando o sacerdote diz ‘Recebei a luz de Cristo’… sinal pascal… chama que deveis sempre alimentar”.

“A família é fundamental porque ali desabrocha na alma humana a primeira percepção do sentido da vida. Desabrocha na relação com a mãe e o pai, os quais não são padrões da vida dos filhos, mas sim os primeiros colaboradores de Deus para a transmissão da vida e da fé”.

 

 

 

Após estas palavras de reflexão, vamos nos reunir em grupos e do mesmo modo que fizemos no encontro do mês de junho, vamos trocar idéias sobre as três propostas apresentadas:

Como sentimos em nossa casa e nas relações familiares (aqui pensando a família num todo – pais, filhos, tios, sobrinhos, avós ....), a questão apresentada no item 01.

0l) A vida do ser humano, no aspecto da normalidade, passa por vários estágios desde a vida uterina até a velhice, no decorrer, sofre transformações físicas, biológicas e comportamentais. Porém, ao atingir a fase da adolescência age geralmente, na maioria das vezes, por impulsos tem a impressão de que pode alterar o mundo que habita.

O período de adolescência caracteriza-se por um conjunto de transformações no corpo, na mente e nas relações sociais. É natural, nesse período, que os jovens passem por uma ebulição mental e emocional em busca de sua individualidade.

No artigo 2º do ECA “considera-se criança para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescentes aquela entre doze e dezoito anos de idade” ( BRASIL, ECA, 1997. 5).

Percebemos que durante essa transição, tornam-se vulneráveis e suscetíveis a influencias de pressões internas e externas. É necessário educá-los com afetuosa firmeza, colocando-lhes limites e disciplina.

Há momentos em que um pequeno gesto, uma simples atitude, uma providência rápida podem evitar que o mal cresça que a gente se aborreça e que se entre no circuito de dramas, desencontros e perigos excessivos. Muitas vezes é possível de uma forma simples, esvaziar cenas aparentemente terríveis, impedindo que as relações se transformem num desastre e que um afastamento muito profundo se estabeleça ( MILMAN, 1998:17)

Entendemos que dentro de casa, é importante um clima favorável à troca de idéias, onde todos tenham espaço para dizer o que pensam e, juntos encontrar uma melhor solução para os problemas.

 

Como nos posicionamos perante estes conflitos. Lembramos da época em que fomos adolescentes? Quais os cuidados que tomamos quanto à relação com os filhos nesta fase da vida?

 

02) A adolescência é uma fase de transformações físicas e psicológicas, em grande parte decorrentes de hormônios sexuais (estrógenos e andróginos), contribuindo para uma maior instabilidade emocional, típica dos adolescentes.

Na verdade, a adolescência é sem dúvida um momento crítico na nossa vida que requer cuidados dos próprios jovens, pais e familiares; e profissionais como pedagogos, psicólogos, assistentes sociais e outros uma atenção especial, devido à atração do jovem por experimentar o novo. Numa atitude de desafio ao desconhecido que é próprio da adolescência, quando não existe um diálogo aberto com os pais, geralmente torna-se perigoso, principalmente, se não houver a prevenção de maus hábitos, como bebidas alcoólicas, cigarro e drogas.

Os jovens deveriam ser levados mais a serio, o adulto hoje foi adolescente ontem, teve sua própria versão de

rebeldia e ousadia. Percebe-se que os pais nem sempre estão preparados para lidar com as dificuldades dos filhos adolescentes e acabam ficando perdidos sem saber como agir.

Na adolescência, os pais sentem dificuldades de direcionar o exercício de autoridade e de definir seus limites. Os filhos questionam valores, perdem por vezes referências e acham-se abertos a aventuras e novas experiências, apresentando demandas cognitivas, culturais, esportivas e socialização dentre outras (BRASIL, 1998: 25)

Assim sendo, os conflitos que influenciam de forma negativa a relação intrafamiliar, contribuem para o aumento de desentendimentos entre pais e filhos, o que torna mais difícil o relacionamento afetuoso entre estes. Os conflitos refletem em todos os membros da família, principalmente, nas crianças e adolescentes, pois estão em processo de formação, sendo os mais vulneráveis ao sofrimento, constituindo um reforço a tornarem-se adultos muito agressivos ou muito medrosos.

 

Como vemos a participação e responsabilidade da família no contexto apresentado no item 03?

 

03) O adolescente questiona o que está a sua volta, principalmente no que tange ao núcleo familiar, fator que

muitas vezes o coloca em choque com os pais e seus familiares. Percebemos que nem sempre os pais de adolescentes estão preparados emocionalmente e psicologicamente para lidar com as contestações de seus filhos. Tornando muitas vezes as famílias um alvo vulnerável para a existência de conflitos, a família é considerada desde o início da humanidade como instituição de socialização e proteção de seus membros, transformando-se pouco a pouco em lugar de disputas e confrontos.

É a família que propicia os aportes afetivos e sobre todos os materiais necessários ao desenvolvimento e bem estar dos seus componentes. Ela desempenha um papel decisivo na educação formal e informal, é em seu espaço que são absorvidos os valores éticos e humanitários onde se aprofundam os laços de solidariedade. É também em seu interior que constroem as marcas entre as gerações e são observados valores culturais (FERRARI , 2000:12)

Nesta visão, a família não pode ser vista isoladamente, pois desempenha papel marcante na vida de seus integrantes, visto que a estrutura psicológica e social do ser humano é na sua maioria formada na família, BEACH afirma. ...a família é o ambiente mais favorável ao desabrochar e ao desenvolvimento normal do ser humano. O homem, quando vem ao mundo, é o ente mais débil de todos os seres vivos.

Esta frágil existência tem necessidade dos mais minuciosos e solícitos cuidados, de uma vigilância de todos os momentos (BEACH, 1968:15)

Percebendo que toda esta preocupação de proteção da família no crescimento do ser humano é mais evidente em sua fase de criança, pois ao entrar na fase da adolescência, uns são abandonados por seus pais e/ou responsáveis, por não possuírem experiência para lidar com questões próprias da adolescência.

Os pais deveriam entender que mesmo deixando de ser crianças, seus filhos precisam deles, são esperados em casa nos seus momentos de folga, para uma conversa que às vezes não acontece, haja vista, as transformações ocorridas na relação capital x trabalho, isto é, o dia-a-dia do cidadão, tornando escassas as horas vagas, na atenção à sua família.

Entendemos que o conceito de família se coloca como espaço de interlocução em que todos têm direitos de ouvir e de serem ouvidos, manifestar suas opiniões.

Os filhos gostam de contar os incidentes da sua vida e alegram-se quando se vêem escutados. Se o pai perde esta ocasião de lhes prestar auxilio, prepara para si, no futuro, o amargo dissabor de constatar que exerce pouca influência sobre eles (BEACH, 1968: 46)

O filho adolescente sente necessidade de diálogo, de alguém que o compreenda e o explique as transformações que vêm ocorrendo com ele. Os filhos geralmente buscam na figura dos pais o referencial de identidade, por estão em formação psicológica.

 

Uma pequena reflexão.

 

É na família que o adolescente entra em luta consigo, pois necessita descobrir quem ele é, enfrentando dúvidas, agressões e questionamentos. Duvida do que o cerca e do que pensa, precisamos entender a adolescência como uma fase especial do ser humano, o qual busca conhecer o mundo onde vive, diferentemente de outras etapas da vida, o adolescente se ve desorientado no meio de coisas novas, começa pelas transformações de seu corpo, surgem pêlos onde não existiam, alongam-se membros superiores e inferiores, sua voz engrossa, assim como as espinhas começam a brotar em sua pele delicada.

Para alguns adolescentes significa sinal de estar tornando-se um adulto para outros algo inexplicável. Os adolescentes percebem um sentimento diferenciado ao depararem com seus colegas, que até pouco tempo brincavam juntos e agora observam que algo estranho acontece com seu organismo, aflorando o desejo pelo sexo que antes não existia. As adolescentes sem dúvida, sentem muito mais estas transformações do que os adolescentes, haja vista que os pais, principalmente o pai, usam de artifícios para proteger sua menina, não conseguindo admitir a realidade de ver seu bebê, transformar-se em adulta.

Ora, estas transformações que os jovens passam merecem ser observadas, orientadas e acompanhadas pelos pais como normal algo inerente a todo ser humano que está em constante processo de transformação. Percebemos que a maioria dos pais não dá importância para este processo por qual seu filho passa, ocasionando no grupo familiar, conflitos na relação pais e filhos quanto a respeitar o outro com sua singularidade.

O despreparo para lidar com essas transformações ocorridas na adolescência, aliado ao desconhecimento dos pais constituem-se em fatores determinantes a emergência de conflitos.

É fundamental que os pais assegurem o cumprimento de direitos dos adolescentes, pois são sujeitos que possuem direitos, e merecedores de condições para garantia de sua integridade e desenvolvimento psicossocial.

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