Abuso da palavra pode transformar a vida em um inferno

postado em 14 de jul. de 2008 04:24 por Julio Cesar Rodrigues
Abuso da palavra pode transformar a vida em um inferno
13/07/2008

Padre Raniero Cantalamessa comenta a liturgia dominical

ROMA, sexta-feira, 11 de julho de 2008 (ZENIT.org).- Publicamos o comentário de Raniero Cantalamessa, OFM Cap. --pregador da Casa Pontifícia--, à liturgia do próximo domingo.


XV domingo do tempo comum

Is 55, 10-11; Rm 8, 18-23; Mt 13, 1-23


Um Deus de palavra

A leitura deste domingo fala da Palavra de Deus com duas imagens que se entrecruzam: a da chuva e a da semeadura. Isaías, na primeira leitura, compara a Palavra de Deus à chuva que desce do céu e não retorna sem ter irrigado e feito germinar; Jesus, no Evangelho, fala da Palavra de Deus como uma semente que cai sobre a terra diversa e produz frutos diversos. A Palavra de Deus é semente porque gera vida e é chuva que alimenta a vida, que permite à semente brotar.

Falando da Palavra de Deus, esquecemos frequentemente do fato mais comovedor de todos: que Deus fale. O Deus bíblico é um Deus que fala! “Nosso Deus vem vindo e não se calará”, (Sl 49, 3); o próprio deus repete frequentemente: “Escuta, povo meu, quero falar” (Sl 50, 7). Nisto a Bíblia vê a diferença mais clara com os ídolos, que “têm boca mas não falam” (Sl 114,5).

Mas que significado devemos dar a expressões tão antropomórficas como “Deus disse a Adão”, “assim fala o Senhor”, “disse o Senhor”, “oráculo do Senhor” e outras parecidas? Trata-se evidentemente de um falar diferente do humano, um falar aos ouvidos do coração. Deus fala como escreve! “Incutir-lhe-ei a minha lei; gravá-la-ei em seu coração”, diz o profeta Jeremias (31, 33). Ele escreve sobre o coração e também suas palavras ressoam no coração. Disse-o expressamente através do profeta Oséias, falando de Israel como de uma esposa infiel: “Por isso a atrairei, conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração” (2, 16).

Deus não tem boca nem alento humano: sua boca é o profeta, seu alento é o Espírito Santo. “Tu serás minha boca”, diz Ele mesmo a seus profetas. Afirma também “colocarei minha palavra em teus lábios”. Este é o sentido da célebre frase: “homens movidos pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus” (2 Pedro 1, 21). A tradição espiritual da Igreja cunhou a expressão “vozes interiores” para esta maneira de falar dirigida à mente e ao coração.

E, no entanto, trata-se de um falar no verdadeiro sentido; a criatura recebe uma mensagem que pode traduzir em palavras humanas. Tão vivo e real é o falar de Deus que o profeta recorda com precisão o lugar, o dia e a hora em que certa palavra “veio” sobre ele. Tão concreta é a Palavra de Deus que dela se diz que “cai” sobre Israel, como se fosse uma pedra (Is 9, 7), ou como se fosse um pão que se come com satisfação: “vossa palavra constitui minha alegria e as delícias do meu coração” (Jr 15, 16). Nenhuma voz humana chega ao homem com a profundidade com que chega a palavra de Deus. “Porque a palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes e atinge até a divisão da alma e do corpo, das juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração” (Hb 4, 12). Às vezes, “fendem-se os cedros à voz do Senhor” (Sl 28), outra vezes, parece o “murmúrio de uma brisa ligeira” (1 Reis 19, 12). Conhece todos os tons do falar humano.

Essa natureza interior e espiritual do falar de Deus muda radicalmente no momento em que “o Verbo se fez carne”. Com a vinda de Cristo, Deus fala também com voz humana, que se pode ouvir com os ouvidos não só da alma, mas também do corpo. A Bíblia atribui, como se pode ver, à palavra uma dignidade imensa. Não faltaram tentativas de mudar a solene afirmação com a que João inicia seu Evangelho: “No principio existia a Palavra”. Goethe faz dizer Fausto: “No princípio existia a ação”, e é interessante ver como o escritor chega a esta conclusão. Não posso, diz Fausto, dar à “palavra” um valor tão alto; talvez devo entendê-la como o “sentido”; mas, pode o sentido ser o que todo o atua e crê? Então deveria dizer: “No princípio existia a força”? Mas não, uma iluminação repentina me sugeriu a resposta: “No princípio existia a ação”.

Mas são tentativas de correção injustificadas. O Verbo, o Logos de João contém todos os significados que Goethe assinala aos demais termos. Este, como se vê no resto do Prólogo, é luz, é vida, é força criadora.

Deus criou o homem “à sua imagem” precisamente porque o criou capaz de falar, de comunicar e de estabelecer relações dotado de palavra. Para ser, não só “a imagem”, mas também “à semelhança de Deus (Gn 1, 26), não basta que o homem fale, mas que deve imitar o falar de Deus. O conteúdo e motor do falar de Deus é o amor. Deus fala pelo mesmo motivo que cria: “Para infundir seu amor em todas as criaturas e deleitá-las com os esplendores de sua glória”, como diz a Oração Eucarística IV. A Bíblia, desde o princípio até o fim, não é mais que uma mensagem de amor de Deus a suas criaturas. Os tons podem mudar, mas a substância é sempre e somente o amor.

Deus se serviu da palavra para comunicar a vida e a verdade, para instruir e consolar. Isto nos suscita a pergunta: que uso fazemos da palavra? Em seu drama “Entre quatro paredes”, Sartre nos dá uma imagem impressionante do que se pode converter a comunicação humana quando falta o amor. Três pessoas são introduzidas, em breves intervalos, em um quarto. Não há janelas, a luz está ao máximo e não há possibilidade nenhuma de apagá-la, faz um calor sufocante, e não há nela nada mais que um assento para cada um. A porta, naturalmente, está fechada. Quem são estas pessoas. São três mortos, um homem e duas mulheres, e o lugar em que se encontram é o inferno. Não há espelhos, e cada um não pode ver-se mais que através das palavras do outro, que lhe oferece a imagem mais horrível de si mesmo, sem nenhuma misericórdia, ao contrário, com ironia e sarcasmo.

Quando depois de um momento suas almas se desnudaram uma a uma e as culpas das que se envergonham saíram à luz uma a uma e desfrutadas pelos outros sem piedade, um dos personagem diz aos outros dois: recorda, as chamas, as torturas do fogo. Não há nenhuma necessidade de tormentos: o inferno são os outros.

O abuso da palavra pode transformar a vida em um inferno. São Paulo dá aos cristãos esta regra de outro a propósito das palavras: “Nenhuma palavra má saia da vossa boca, mas só a que for útil para a edificação, sempre que for possível, e benfazeja aos que ouvem” (Ef 4, 29). A palavra boa é a que sabe escolher o lado positivo de uma ação e de uma pessoa, e que, inclusive quando corrige, não ofende; palavra boa é a que dá esperança. Palavra má é toda palavra dita sem amor, para ferir e humilhar o próximo. Se a palavra má sai dos lábios, será necessário retratar-se. Vejamos alguns versos do poeta italiano Metastasio:

"Voce dal sen fuggita / Voz que del seno ha salido

più richiamar non vale; / ya no vale la pena ser retirada

non si trattien lo strale, / no puede detenerse la fecha

quando dall'arco uscì". /cuando ha salido del arco

(Pode-se retirar uma palavra saída da boca, ou ao menos limitar seu efeito negativo, pedindo perdão. Que dom, então, para nossos semelhantes e que melhora da qualidade de vida no seio da família e da sociedade!)
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