A Vigília Pascal

postado em 21 de mar. de 2008 18:03 por Cristo Rei Paróquia
Com a chegada da noite, entramos no coração de nossas celebrações da semana santa. É a hora da grande vigília, a vigília pascal, "a mãe de todas as vigílias" (St. Agostinho). A vigília pascal é o ponto alto de todo o ano litúrgico, a celebração mais importante na vida do cristão. Nela celebramos o mistério da redenção humana.

A celebração da Páscoa começava com uma vigília bastante extensa. "Permaneçam vigilantes toda a noite com orações, súplicas, leitura dos profetas, do Evangelho e dos salmos, com temor e tremor, em contínua prece até o amanhecer... (Didascalia, 21)

Ao longo do tempo a vigília, especialmente no Ocidente, desenvolveu-se três feições novas: o batismo dos catecúmenos, a iluminação e bênção do círio pascal e a bênção do fogo novo. Por ocasião da revisão dos ritos romanos da Semana Santa (1955) incluíram a renovação das promessas do batismo.

A bênção da luz vem de origem da bênção judaica da lâmpada na véspera do Sábado, retomada pelos cristãos.

A bênção do círio pascal era popular no Ocidente desde os sécs. IV e V. Aos poucos o círio único foi recebendo maior importância; certos cantos de louvor ao círio, laus cerei, já apareciam no final do séc. IV, sendo o atual Exultet, a sua versão galicana; deve-se inscrever no círio uma cruz, com cinco grãos de incenso para representar as cinco chagas de Cristo, segundo o Sacramentário Gelasiano, um documento dos sécs. VII-VIII.

A bênção do fogo novo e a procissão da luz distinguiam-se originalmente da bênção do círio pascal, segundo afirmações de Egéria, ao mencionar a procissão que carregava o fogo a partir do Santo Sepulcro até a Igreja, no começo da vigília semanal do Sábado ( 24,4).

A bênção cerimonial do fogo novo na Vigília da Páscoa é de origem irlandesa. No séc. VIII, entrou na Alemanha. No séc. XII encontramos atestado esse rito, com predominância folclórico-religiosa nos países do norte.

Estrutura teológica da vigília: memória - presença - expectativa
A memória - presença do mistério de Cristo, que vence a morte com a própria ressurreição, torna-se, conforme a exortação evangélica, expectativa. (cf. Lc 12,35-36). Este retorno do esposo está previsto para acontecer no coração da noite: "á meia-noite" (Mt 25,6)

O conteúdo litúrgico e teológico da Páscoa é de caráter comemorativo: "nela a comunidade recorda e revive o evento salvífico da morte-ressurreição de Cristo e o revive em clima de expectativa da páscoa eterna." Cristo é a nossa Páscoa.( cf. 1Cor 5,7)

A vigília pascal é festa batismal. Pelo batismo morremos e ressuscitamos como Cristo. A Igreja dá à luz novos filhos pela fé e pelo Batismo e, após a penitência quaresmal, renova a própria Aliança batismal.

Etapas da vigília

O Missal de Paulo VI desenvolve a celebração da Vigília Pascal inteiramente num clima de alegria, que desemboca na liturgia eucarística. Os ritos, embora separados em várias partes, formam um todo único em torno do núcleo essencial da proclamação da palavra de Deus e da celebração dos sacramentos do batismo e da eucaristia.

A saber, os quatro momentos da liturgia da Vigília pascal:

1. Celebração do fogo novo e da luz, é a primeira parte da vigília que celebra a luz do mundo que é Jesus na glória de sua ressurreição (cf Jo 1,9; 9,12;12,35-36). Também os cristãos, que participam do seu mistério, por nossa vez, somos "luz no Senhor" (Ef 5,8). Esse rito deve criar um clima de júbilo que invada a celebração inteira, fixando a atenção no significado pascal da luz que surge nas trevas. E o sinal principal, é o círio da páscoa. Benze-se o fogo fora da Igreja e se acende o círio pascal que evoca a luz de Jesus que ressuscita em sua glória. Em seguida dá-se a procissão até ao altar, é evidente o sentido pascal desta procissão: somos o novo povo de Deus nascido da páscoa; peregrinos, seguimos Jesus ressuscitado através do deserto da vida presente até a pátria definitiva. A proclamação da páscoa recebeu o novo nome de "pregão pascal", é um retorno da Antiguidade. O pregão pascal anuncia tematicamente a mensagem da ressurreição e celebra as maravilhas operadas por Deus nesta noite santa.

2. Celebração da Palavra, que torna presente a palavra criadora de Deus na criação. São proclamadas 9 leituras; as 7 primeiras são tomadas do Antigo Testamento, que enunciam figurativamente os mistérios pascais: a criação do mundo e do homem : Gn 1,1-2,2 ou 1,1.26-31a; o sacrifício de Abraão: Gn 22,1-18; ou 22,1-2.9ª10-13.15-18; a passagem do Mar Vermelho: Êx 14,15-15,1; um texto escatológico do profeta Isaias: a nova Jerusalém : Is 54,5-14; as três leituras seguintes se dirigem mais diretamente à celebração do batismo: a salvação oferecida a todos gratuitamente: Is 55,1-11; a fonte da sabedoria: Bar 3,9-15.31; 4,4. e, um coração novo e um espírito novo: Ez 36.16-28. Do Novo Testamento temos duas leituras, a epístola de Paulo que também é batismal: Rm 6,3-11, e o evangelho do descobrimento do túmulo vazio e o anúncio do anjo: Jesus Ressuscitou!: Mt 28, 1-10; Mc 16,1-17; Lc 24,1-12. Essas leituras são lidas segundo um dos anos do ciclo trienal. Um ponto alto da celebração da palavra é o canto solene do Aleluia com o salmo 117. O que é que significa Aleluia? Louvai a Deus... É uma aclamação que caracteriza o tempo pascal. "De fato, chegaram os dias em que devemos cantar o Aleluia". (Sto. Agostinho)

3. Celebração da água ( batismo e renovação das promessas batismais): Não existe testemunho de rito batismal na noite da páscoa que nos leve além do séc. III. A atenção da assembléia desloca-se para a fonte batismal como o lugar onde se faz nossa a páscoa de Jesus no sinal da água e na profissão de fé. A bênção da fonte significa que a graça do batismo não sai da água como elemento material, mas do Espírito Santo que a santifica; essa idéia se expressa mediante o sinal da imersão do círio na fonte batismal.

4. Celebração do pão e do vinho (Liturgia eucarística): o ponto alto da celebração é a Eucaristia, ação de graças por excelência, celebração da nova Páscoa de Cristo participada pela Igreja. A vida que nasce no Batismo e é animada pelo Espírito alimenta-se na mesa do Cordeiro pascal. "Este é o momento em que nasceu a verdadeira eucaristia: a páscoa! Por isso o mistério da noite pascal culmina na eucaristia, que já não oferece Jesus sozinho, mas em companhia de sua ekklesia. Ela entra com ele em sua eucaristia, e essa eucaristia inaugura a grande festa de pentecostes, dos cinqüenta dias nos quais a ekklesia libertada dá graças ininterruptas ao Pai com seu Filho". (Odo Casel)
O dia da ressurreição: o dia de Cristo, o Senhor

A liturgia desse dia de páscoa celebra o acontecimento pascal como "dia de Cristo, o Senhor". A Páscoa é a festa da vida; da vida de Cristo e da vida nova dos cristãos. Na mensagem da Páscoa podemos realçar três aspectos:

a) O sepulcro vazio. Maria Madalena é uma das três mulheres que estiveram junto à cruz. Esperou todo o Sábado e a noite do dia seguinte, mas se levanta impaciente de madrugada e vai ao sepulcro e vê que a pedra fora retirada do sepulcro ( Jo 20,1-9). O tempo escolhido por ela é uma resposta ao Sl 63,2; 119,147-148, "por ti madrugo"; "antecipo-me à aurora"

b) Os gestos de amor. Jesus dá-se a conhecer ressuscitado sobretudo lá onde se realizam gestos concretos de amor e de serviço. As mulheres que vão ao sepulcro de Jesus para embalsamar o cadáver (Mc 16,1); Maria Madalena e a outra Maria, ao raiar do sol do primeiro dia, vão ver o sepulcro para fazerem uma visita de afeto ou de inspeção (cf. Mt 28,1); os dois discípulos que ao saberem da notícia do túmulo vazio, correm quase numa competição em direção ao túmulo. Impulsionado pelo amor, um é mais veloz ("correrei pelo caminho de teus mandamentos quando me dilatares o coração", Sl 119,32) e é o primeiro a crer. O amor é que faz reconhecer a Jesus Cristo no mistério pascal. Os dois discípulos de Emaús ( Lc 24,13-35), onde acontece no caminho de Emaús uma aula de exegese pascal à luz da ressurreição, feita por Jesus em pessoa. E o convite para que o "forasteiro" fique com eles , nesta acolhida dá-se a descoberta e compreensão do mistério ao partilhar Jesus o seu pão de vida.

c) O testemunho do Cristo ressuscitado. Maria Madalena torna-se a primeira mensageira do sepulcro vazio e do Cristo ressuscitado, tendo um encontro a sós com o Senhor (cf. Jo 20,11-18). Os discípulos de Emaús voltam a Jerusalém, anunciando que Cristo ressuscitou. Os discípulos, Pedro e João, encontraram o sepulcro vazio e tornaram-se testemunhas do Cristo ressuscitado. Os discípulos reunidos na tarde do primeiro dia da semana, o dia da nova páscoa, com as portas bem fechadas, e Jesus ressuscitado se apresenta no meio de todos.
Por sua ressurreição e vitória total, Jesus comunica ao mundo o seu Espírito de vida que muda o coração do homem. Faz-se Páscoa. Surge a vida, onde se antecipa a aurora, onde as pedras são retiras dos sepulcros, onde se vive o amor no serviço aos outros, onde a paz é cumprimento de alegria. Estes são os sinais de que Jesus Cristo continua ressuscitado hoje.
O Domingo da ressurreição inaugura um período de cinqüenta dias, chamado de tempo pascal. Todos os dias deste cinqüentenário, no dizer de Tertuliano, devem ser celebrados "numa grande alegria".

Ressuscitei, ó Pai, e sempre estou contigo;
pousaste sobre mim a tua mão,
tua sabedoria é admirável, aleluia!

(Antífona da entrada do Domingo da Páscoa)

Pe. José Luiz Majella Delgado - CSsR
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