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Encontro 15 - Os Livros Proféticos - Isaías

Os Livros Proféticos

   Em graus diversos e sob formas variadas, as grandes religiões da Antiguidade tiveram pessoas inspiradas que pretendiam falar em nome de seu deus. Em especial, entre os povos vizinhos de Israel, um caso de êxtase profético é relatado em Biblos no século XI a.C., é atestada a existência de videntes e de profetas em Hama no Orontes no século VIII a.C., e diversas vezes em Mari, no Eufrates, no século XVIII a.C. Quanto à forma e ao conteúdo, suas mensagens, dirigidas ao rei, parecem-se com as dos mais antigos profetas de Israel mencionados na Bíblia.

   A idéia fundamental que se depreende da complexidade dos fatos e dos textos relativos ao profetismo parece ser esta: o profeta é um homem que tem uma experiência imediata de Deus, que recebeu a revelação de sua santidade e de seus desígnios, que julga o presente e vê o futuro à luz de Deus e que é enviado por Deus para recordar aos homens suas exigências e conduzi-los pelo caminho de sua obediência e de seu amor. Assim entendido, não obstante as semelhanças que se podem apontar com fenômenos religiosos em outras religiões e entre os povos vizinhos, o profetismo é um fenômeno próprio de Israel, um dos modos de a Providência divina dirigir o povo eleito.

   Se tais são o caráter e a função do profeta, não é de estranhar que a Bíblia coloque Moisés no início da linhagem dos profetas e o considere como o maior de todos, pois conheceu Iahweh face a face, falou com ele pessoalmente e transmitiu sua Lei ao povo.

   Os profetas desempenharam um papel considerável no desenvolvimento religioso de Israel. Não só mantiveram e guiaram o povo no caminho do javismo autêntico, mas foram também os órgãos principais do progresso da Revelação. Nesta ação multiforme, cada qual teve sua função própria, cada qual contribui com sua pedra para o edifício doutrinal. Suas contribuições, porém, se conjugam e se combinam segundo três linhas mestras, aquelas precisamente que distinguem a religião do Antigo Testamento: o monoteísmo, a moral e a esperança de Salvação.

Isaías

   O profeta Isaías nasceu por volta de 765 a.C. Em 740, ano da morte do rei Ozias, ele recebeu, no Templo de Jerusalém, sua vocação profética, a missão de anunciar a ruína de Israel e de Judá em castigo das infidelidades do povo. Exerceu o ministério durante quarenta anos, dominados pela ameaça crescente que a Assíria fazia pesar sobre Israel e Judá.

   Isaías teve uma participação ativa nos assuntos de seu país, o que lhe conferiu o status de herói nacional.

   É também um poeta genial. O brilho do estilo, a novidade das imagens faz dele o grande clássico da Bíblia. Suas composições têm força concisa, majestade e harmonia que jamais serão igualadas. Mas sua grandeza é antes de tudo religiosa. Isaías foi marcado para sempre pela cena de sua vocação no Templo, na qual teve a revelação da transcendência de Deus e da indignidade do homem. Sua idéia de Deus tem algo de triunfal e também de pavoroso: Deus é o Santo, o Forte, o Poderoso, o Rei. O homem é um ser manchado pelo pecado, do qual Deus pede reparação, pois Deus exige a justiça nas relações sociais e também a sinceridade no culto que se lhe tributa. Quer que o homem seja fiel. Isaías é o profeta da fé e, nas graves crises que a nação atravessa, pede que confiem só em Deus: é a única oportunidade de salvação. Sabe que a provação será dura, mas espera que sobreviva um resto, do qual o Messias será o rei. Isaías é o maior dos profetas messiânicos. O Messias que ele anuncia é um descendente de Davi, que fará reinar sobre a terra a paz e a justiça, e difundirá o conhecimento de Deus. 

      A pregação de Isaías preocupa-se diretamente com os acontecimentos da época. Ele denuncia o luxo dos que juntam casa com casa e campo com campo e das mulheres que andam cobertas de jóias. Seu ideal parece ser o modo de vida simples em que o povo vive de coalhada e de mel, produtos naturais da terra. Isaías não considera grande catástrofe a perda das vinhas – fonte de luxo e riqueza. Não incentiva seu povo a lutar para protegê-las; ao contrário, defende uma atitude quietista e pacifista em face da ameaça assíria.

   O ideal de Isaías, simplicidade social, não foi concebido em isolamento rural. Ele era um profeta urbano, familiarizado com o Templo. Tinha acesso ao rei como uma espécie de conselheiro político, tanto nos primeiros dias da guerra siro-efraimita como na época de Senaquerib, no fim de sua missão. Era homem culto, como se deduz de seu domínio do verso hebraico e de sua familiaridade com a política internacional. Sua visão social e política não se originaram da ingenuidade, mas de suas convicções teológicas fundamentais.

   Gênio religioso tão grande marcou profundamente sua época e fez escola. Suas palavras foram conservadas e sofreram acréscimos. O livro que traz seu nome é o resultado de um longo processo de composição, impossível de reconstituir em todas as suas etapas.

   A tradição cristã, como a judaica, por muito tempo considerou o livro de Isaías todo obra de um único profeta. Os estudos, porém, mostram-nos que temos três livros de Isaías dentro desta obra, o primeiro Isaías (1 – 39), o segundo Isaías (40 – 55) e o terceiro Isaías (56 – 66). Segundo os estudos, a data do segundo e do terceiro Isaías está agora estabelecida no final do século VI a.C., 200 anos depois do primeiro Isaías. Além disso, parece que menos da metade do primeiro Isaías contém realmente palavras do profeta em pessoa. O resto foi acrescentado por copistas anônimos num período de várias centenas de anos. A lenda judaica afirmava que o profeta Isaías morreu serrado em pedaços durante o governo do ímpio rei Manassés.

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